02 de agosto 2017

Nova chance

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02 agosto 2017

Nova chance

Empregar egressos do sistema prisional contribui para a diminuição da violência
Texto por: Debora Stevaux

O Brasil possui 654.372 presos, de acordo com o último levantamento divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) apontam que 67% deles são negros, 53% não completaram o ensino fundamental e 55% possuem entre 18 a 29 anos.

São dados importantes para entender o contexto da reinserção social de ex-presidiários no país. Ao mesmo tempo em que mão de obra que sai das grades é jovem e tem força de trabalho, é pouco especializada e precisa vencer barreiras como falta de educação formal e o preconceito.

Para ajudar a superar esses obstáculos, há iniciativas independentes, que buscam encaminhar o egresso para o mercado de trabalho formal. É o caso do projeto “Segunda Chance”, idealizado há nove anos pela ONG AfroReggae.

O programa possui como slogan "A única agência de ex-presidiários para ex-presidiários" e tem o objetivo de auxiliar os egressos do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro e de São Paulo a encontrar um emprego formal.

Durante o processo, o sigilo é um direito: somente o responsável pelo setor de recursos humanos do contratante tem as informações dos antecedentes da pessoa, para tentar combater a estigmatização e o preconceito.

O que ainda é muito difícil. Karine Andrea Vieira, assistente social voluntária, acredita que apenas 15% das mil e trezentas pessoas que constam do cadastro do AfroReggae foram inseridos no mercado de trabalho. “E ainda estou chutando alto”, diz.

A assistente social é enfática quando fala sobre o preconceito que essas pessoas sofrem para conseguir um emprego: “Normalmente me perguntam: quem me garante que essa pessoa não vai cometer algum delito? E eu respondo: a mesma garantia que você vai ter de qualquer outra situação. Qualquer cidadão está propício a cometer um delito.”

Para tentar quebrar o estigma, além dos workshops de sensibilização com os profissionais de recursos humanos, Karine apresenta histórias de transformação. Entre elas, a própria trajetória: loira e de classe média, Karine entrou no mundo do crime aos 14 anos e ficou presa por um ano. “Por isso eu acredito que, se a sociedade oferece oportunidades ao egresso, a gente desconstrói um ciclo de violência e promove ações de paz, que são positivas para todos.”

O encaminhamento formal para o mercado de trabalho é apenas uma das etapas do projeto Segunda Chance. Antes das entrevistas, o candidato passa por uma conversa franca com a assistente social, que busca entender o nível de comprometimento. “Preciso saber se o egresso não quer mesmo voltar para o crime. Também levanto demandas cabíveis. Se ainda não terminou o ensino médio, encaminho o pedido para que possa fazer isso”, explica Karine. A pessoa também é acompanhada durante seis meses depois da contratação.

“A gente não está falando de ressocialização, a gente está falando de socialização. A maioria das pessoas ali não foram socializadas, não tiveram acesso à cultura, à educação”, argumenta Karine. Para ela, é fundamental dar ao egresso uma visão de mundo que vá além da criminalidade. “Senão, a única visão que ele vai ter é aquela que ele vivencia, é aquilo que estava ao seu redor”.

Ações de paz

Criada em 2014, a PanoSocial, é empresa especializada na produção de peças de vestuário feitas de tecido sustentável. Mas seu criador, o austríaco Gerfried Gaulhofer, acredita que ser sustentável também é reduzir os impactos sociais.

Quando se mudou para o Brasil, Gerfried morou no centro de São Paulo e conheceu a Pastoral Carcerária, uma organização que luta contra as violações de direitos dos presidiários, a realidade insalubre dos presídios brasileiros.

Foi então que aliou sua vontade de mudança com o empreendimento social. Hoje, toda a sua linha de produção é formada por egressos do sistema prisional. A empresa na capital paulista não para de crescer e já alugou outro box no mesmo endereço para abrigar sua própria confecção.

Por um lado, o dados mostram que um em cada quatro indivíduos condenados é preso por reincidência criminal. De outro, há estudos que indicam que a proporção cai quando o egresso vai para o mercado de trabalho formal.

Paulo Tadeu da Silva, 64, é exemplo de como uma segunda chance pode impactar positivamente na vida de um egresso do sistema prisional. Ele está há onze meses na equipe da Pano Social. “Aprendi a modelagem, tarefa que desempenho hoje, em um curso a distância que fiz quando ainda estava preso. Fiquei preso por 26 anos”, conta.

Paulo tem dois filhos, é divorciado da primeira mulher e viúvo da segunda. Exibe um ritmo intenso de trabalho e se especializa na área por meio das oficinas ministradas pela empresa. “A Pano é como uma família para mim. Antes eu morava em um hotel social, hoje tenho minha casa, num sítio alugado, que pago com meu próprio dinheiro.”

“A população de encarcerados cresce exponencialmente, e uma das formas de combater a criminalidade ou de contribuir para uma paz social é oferecer para essas pessoas um trabalho digno”, afirma Gerfried. “O ex-presidiário já pagou uma dívida para a sociedade ficando preso, mas ele continua preso no preconceito. Muitas vezes voltam para a criminalidade sem querer, mas por necessidade. A sociedade precisa entender que um egresso inserido no mercado de trabalho é um egresso a menos na rua cometendo delitos”, completa.