14 de setembro 2017

Não é tudo verdade

fake news (1)
14 setembro 2017

Não é tudo verdade

A crise da credibilidade da informação ou como se proteger das notícias falsas
Texto por: Debora Stevaux

No dia 11 de maio de 1975, a primeira página do jornal Notícias Populares estampava: "Nasce o diabo em São Paulo". A manchete, feita para vender, contava sobre o nascimento de uma criança misteriosa, em um hospital de São Bernardo do Campo. Sobraram somente oito exemplares nas 2 mil bancas que venderam o jornal neste dia.

O fato aconteceu há quatro décadas, mas poderia ter ocorrido agora: uma notícia falsa que rende dinheiro - naquela época, tiragens extras; hoje, muitos cliques e índices de audiência inacreditáveis.

As fake news, termo que em português significa notícias falsas, podem parecer engraçadas ou até mesmo desimportantes, mas o assunto é sério. Para a Organização das Nações Unidas (ONU), trata-se de uma preocupação global. A entidade divulgou no início do ano uma declaração que aponta a importância de considerar direitos humanos, diversidade e pluralidade na mídia e enfatiza os papéis dos administradores das redes sociais, dos jornalistas e dos veículos de comunicação para combater a desinformação e a propaganda falsa, especialmente durante processos de eleição e em assuntos de interesse público.

Segundo o Google Trends, ferramenta responsável por monitorar a popularidade de palavras na rede mundial de computadores, o termo viralizou em 2016, durante as eleições norte-americanas. No decorrer do embate entre Donald Trump e Hillary Clinton, dois professores norte-americanos analisaram o conteúdo das notícias falsas e concluíram que as matérias inventadas com conotação favorável a Trump contabilizaram mais de 22 milhões de compartilhamentos quando comparadas às que exaltavam a figura de sua adversária. Trump foi eleito por eleição democrática, mas e se a opinião de seu eleitorado foi formada por informações falsas?

Dúvidas à parte, uma coisa é certa: o advento das fake news não se restringe somente ao solo norte-americano. Recentemente, a Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) analisou uma dezena dos principais sites de notícias falsas no Brasil, bem como características presentes na maioria dos textos que se tornaram protagonistas dos compartilhamentos raivosos da bipolarização política no Facebook, Twitter e até mesmo em correntes de WhatsApp. A conclusão é a de que a embalagem é a mesma de uma notícia convencional, mas o conteúdo é duvidoso.

Eu vi nas redes sociais

Se o Facebook supera 1,5 bilhão de usuários por mês e o WhatsApp, 900 milhões, não é difícil mensurar a importância das redes sociais no mundo. Um triste exemplo de como as redes são capazes de influenciar drasticamente a decisão de pessoas foi o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, na cidade de Guarujá, litoral paulista.

Fabiane foi agredida por moradores da comunidade de Morrinhos até a morte após ter sido identificada com um retrato falado de uma mulher que havia sequestrado crianças para praticar magia negra. A origem da informação divulgada em uma página no Facebook é duvidosa. Fabiane morreu.

O termo e a grande preocupação podem ser novos, mas o fenômeno é antigo para Juliana Dal Piva, subeditora da Agência Lupa. A empresa é a primeira especializada em fact-checking no Brasil, que se dedica a checar a veracidade das informações divulgadas por grandes veículos de comunicação. “Quando cobri a campanha eleitoral de 2010, já encontrei muita boataria na internet, verdadeiros exércitos virtuais para disseminar informações mentirosas nas redes sociais”, lembra.

Para Juliana, hoje é mais fácil perceber o quanto as redes sociais se tornaram uma ferramenta poderosa. “É muito comum a gente ouvir das pessoas no almoço de domingo que isso ou aquilo é assim porque elas leram no Face. Por isso, a gente também enfrenta um desafio em torno dessas terminologias, muitas pessoas acreditam que reportagens com erros também são falsas e começam a chamar tudo de notícia falsa.” A questão é que, no caso das fake news, há um componente comercial muito importante: quem produz esses sites para forjar ideias acaba ganhando cliques. E é essa audiência que gera dinheiro para o site.

Fazer jornalismo é sinônimo de apuração: para noticiar, faz-se necessária a verificação da veracidade fatos. Portanto, a imprensa possui um compromisso fundamental com a opinião pública, construída a partir do consumo de informações. Mas como filtrar e no que acreditar com tantos sites e páginas que chegam até nós por meio dos algoritmos das redes sociais?

“Ao passo que há uma demanda por mais veículos, mais notícias, por um trabalho mais investigativo, a imprensa se desconectou da sociedade em alguns momentos. Mas este fenômeno é muito difícil de ser explicado sob uma única ótica. O mundo está polarizado em vários sentidos, os debates são rasos, um ambiente favorável para o desconhecimento”, explica Juliana.

A jornalista acredita que se salva nesse contexto o conhecimento, matérias cada vez melhores, com uma carga de pesquisa maior. “A internet trouxe uma velocidade imensa para o fluxo de informações, o que acabou por criar uma crise em torno do financiamento dos veículos. Demissões. As redações e os jornais estão cada vez menores e há muito o que se noticiar na crise em que estamos vivendo. É cada vez mais trabalho para cada vez menos gente, por isso é inevitável que a qualidade seja comprometida”, conta Juliana.

De acordo com um levantamento realizado em parceria pela Universidade de Oxford e pelo Instituto Reuters, o Brasil ocupa o segundo lugar em que os leitores de notícias online mais confiam nos veículos. Ou seja, 60% da população brasileira acredita no que lê e concorda com as seguintes afirmações: “Eu acredito que você pode confiar na maioria das notícias na maior parte do tempo" e "Eu acredito que eu posso confiar na maioria das notícias na maior parte do tempo”. Pode parecer apenas uma pesquisa inofensiva, mas é importante frisar que, no caso de milhares de notícias falsas que pairam as redes sociais, além dos casos de veículos que abordam determinados acontecimentos com um viés sensacionalista e exagerado, é de se preocupar que não haja, minimamente, um ceticismo por parte dos leitores. Não há como quantificar o número de notícias falsas disponíveis na rede, mas uma coisa é certa: no âmbito político, o nível é grande, mas não é o único que merece destaque.

O acesso de políticos às redes sociais também traz tensão e crise no que diz respeito à veracidade das informações. É a visão de Tai Nalon, diretora executiva e cofundadora de Aos Fatos, uma agência independente que também realiza o serviço de checagem de notícias políticas. “Com as redes sociais, os políticos não dependem mais dos veículos para mostrar suas propostas. Acabou a mediação que antes existia e fazia este filtro”.

Nesse contexto, pessoas especializadas em checar a veracidade das informações se torna crucial. “Para mostrar por que são tão influentes, o que há de verdadeiro na história que contam”, argumenta Tai. E o problema não fica só na propaganda política. Há também muita desinformação nas questões de saúde pública: há correntes infinitas sobre riscos de alimentos, informações erradas sobre vacinas e tantos outros assuntos, sempre empacotados de maneira a parecer notícias verdadeiras. “Isso tudo pode gerar um problema grave de saúde pública”, alerta Tai.

A pós-verdade e o que vem depois

Todo ano, o Oxford Dictionaries, departamento da Universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários, seleciona uma palavra da língua inglesa para definir. A eleita de 2016 foi pós-verdade, que, segundo sua equipe, significa: “Que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.” Não é difícil encontrar o termo, que pode estar presente de livros de sociologia a teorias céticas e conspiratórias.

Em consonância com o conceito, o Brasil é um país de consumidores ávidos por ficção: acadêmicos comprovam a força das telenovelas na construção social das pessoas. Mas será que mudamos muito com o advento das novas tecnologias e de suas incontáveis conexões?

Para Rafael Grohmann, professor de comunicação da Universidade de São Paulo (USP), a resposta é positiva. “O que está se modificando não é o comportamento humano em si, mas como estamos reapropriando e nos apropriando de uma forma e não de outra. As pessoas mudaram a forma como consomem informação: pelo fluxo incessante, não fazemos a leitura direito, ou, se fazemos, não há reflexão”, diz.

As redes sociais fizeram com que as pessoas tivessem espaço para falar. Então, todos precisam mostrar sua opinião e escrevem cada vez mais. “Um exemplo de como a tecnologia pode mudar o nosso olhar sobre as coisas é que em alguns lugares do mundo, profissionais de programação estão virando os monitores na vertical porque estão incomodados com a orientação horizontal”, conta Rafael.

É mais um exemplo de grandes mudanças sociais que o uso intenso de tecnologias pode trazer. Rafael lembra que os heavy users de redes sociais raramente fazem registros de foto e vídeo na horizontal. “Talvez este seja um exemplo de como a tecnologia pode cercear a maneira como nos enxergamos, de como vemos o  mundo, a partir de um único prisma, de uma única possibilidade.”

Sete formas de desconfiar de notícias da rede

  1. O domínio dos sites não condizem com que está sendo apresentado. Por exemplo, o domínio .com.br é utilizado para sites comerciais, já o .org, para atividades sem fins lucrativos em nível internacional, enquanto o .org.br, é usado para entidades brasileiras não governamentais sem fins lucrativos. Não existem sites com domínio registrado apenas com .br, portanto, preste atenção.

  2. O site não traz uma aba ou texto que fale do perfil da equipe editorial ou dos criadores do conteúdo - geralmente chamada “Quem somos”.

  3. O site não divulga a autoria das notícias, tanto de quem a escreveu quanto o crédito das imagens.

  4. O material traz uma carga opinativa muito forte, alguns textos até incitam discursos de ódio.

  5. A página ou site é atualizada constantemente com novos textos ou vídeos sem citar fontes nem autores.

  6. Algumas páginas ou sites têm nomes parecidos aos de outros veículos de comunicação famosos.

  7. Os layouts são sempre muito chamativos, cheios de informação e de anúncios, feitos para enganar um usuário leigo, que tende a compará-los a grandes sites de notícia.