19 de outubro 2017

Mulheres no trabalho

mulheres no trabalho (1)
19 outubro 2017

Mulheres no trabalho

Pesquisa mostra como é difícil exercer os valores femininos no ambiente corporativo
Texto por: Julliane Silveira

Apesar de todos os problemas, em casa há espaço para exercer os valores ligados ao universo feminino. Na família e entre amigos é possível demonstrar solidariedade e compreensão e encontrar acolhimento e sensibilidade. Todos, homens e mulheres, se sentem à vontade para amparar e ser amparado e mostrar seus sentimentos sem medo de ser julgado.

Mas a coisa muda bastante quando o assunto é trabalho. O ambiente corporativo estimula uma postura mais agressiva, fria e focada em resultados.

Não poderia ser diferente o resultado da pesquisa realizada por Molico com 1.000 brasileiros entre 16 e 64 anos de todas as partes do país. Ao serem questionados sobre o momento do dia em que sentem felizes, apenas 4% deles responderam "trabalhando". Para a maioria (78%), os períodos de alegria restringem-se à casa, aos amigos ou à família.

O brasileiro não está acostumado a exercitar os valores que mais preza para além das suas relações mais íntimas e isso tem impacto direto nas relações de trabalho.

"O fato de as pessoas desejarem um ambiente de trabalho em que se valorize a cooperação, a confiança e a empatia não significa que foco, competitividade e apetite pelo risco não sejam importantes.Mas é preciso que haja um equilíbrio. O problema é que no meio corporativo

os valores relacionados ao feminino são praticamente ignorados ao passo que atributos considerados masculinos são supervalorizados", afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, coordenadora da pesquisa.

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Esse ambiente obriga as mulheres a mudar seu jeito de ser para se enquadrar em uma cultura corporativa que é essencialmente masculina. O foco em processos e resultados explica por que a ascensão profissional vem acompanhada de uma grande pressão psicológica. Entre as pesquisadas, 42% diz ter passado por situações de constrangimento, pouco mais de um terço (36%) teve vontade de chorar na frente de todos, mas sentiu vergonha e uma em casa cinco entrevistadas diz ter sofrido assédio moral.

Não é só o levantamento de Molico que traz esse alerta. Um estudo recente da Harvard Business School aponta que elas desejam menos chegar ao topo da hierarquia corporativa, pois esse caminho está associado a estresse, ansiedade e outros sacrifícios. E isso não se deve à falta de perspectiva: 4.000 homens e mulheres ouvidos para a pesquisa disseram que acreditam que tenham as mesmas chances de atingir o auge da carreira.

Até mesmo as jovens profissionais se sentem desgastadas e pouco estimuladas. Por causa da dificuldade de se adaptar ao universo masculino, a pesquisa mostra que mulheres de 21 a 34 anos se sentem sobrecarregadas (40%), frustradas e desmotivadas no emprego (25%) e angustiadas, incompreendidas e solitárias (20%).

Isso ocorre em um momento da carreira em que elas deveriam estar no auge da produtividade e da dedicação ao trabalho.

Metade das profissionais da geração Y disse que gostaria de trabalhar em um ambiente que respeitasse seu jeito de ser e que a deixasse à vontade para propor suas ideias.

Não é novidade que mais respeito pelas diferenças, mais empatia e mais humanidade nas relações de trabalho leva a mais foco e produtividade. Todos ganham.