01 de julho 2017

Mulheres mais livres, homens possíveis

Mulheres mais livres, homens possíveis
01 julho 2017

Mulheres mais livres, homens possíveis

O ser humano está sendo emancipado da encenação de papéis tão rígidos e, para isso, precisamos recalcular a rota.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

De um lado, homens que devem agir dentro da caixinha de comportamentos esperados: fortes, sem emoções, intimidadores, respeitados. De outro, mulheres que sofrem a imposição sem brechas de uma jornada dupla que as aprisiona: uma sociedade que as obriga a ser, em tempo integral, sensíveis, acolhedoras, amorosas; ou que as força, em determinados contextos, a assumir posturas consideradas naturalmente masculinas com o intuito de se fazerem notar e serem consideradas boas o suficiente. Soa familiar?

Inúmeros cenários do dia a dia exigem um bocado de representações, é verdade, mas a era digital e a cultura da visibilidade, das imagens e das aparências potencializaram o mundo como um grande palco de teatro, com personagens a serem interpretados 24 horas por dia, sem folga. É nas coxias que está a real expressão do que somos, mas não mostramos — pessoas, para além dos estereótipos.

Com tantos padrões sociais escravizantes a serem quebrados, falar em mulheres mais confortáveis na própria pele parece utopia, não parece? Eu, recém-nascida, tive as orelhas furadas — não lembro, mas sei: foi a primeira marca que me diferenciou dos homens. Fui alvo, ainda tão pequena, de um dos modelos institucionalizados em nossa cultura para definir gênero. Mal abri os olhos e lá estava o aviso taxativo de quem eu era. Mulher. Uma identidade imposta.

Desde então, uma vida gerenciando impressões: da menina doce à mulher compreensiva; da criança que brincava com a boneca, a louça de plástico e o ferrinho de passar à adulta que tem de conquistar o combo de sucesso "marido, filhos e casa própria"; da estudante que sempre era vista na biblioteca, entre fichamentos apaixonados e leituras diárias, à profissional lançada a um mercado de trabalho canibal, em que as diferenças salariais relacionadas a gênero e etnia continuam discrepantes — para mesmos cargos, por exemplo, homens seguem ganhando 30% a mais do que mulheres. Isso tudo, claro, sem poder largar mão da sensibilidade.

Esses traços associados à feminilidade são mais construções culturais que imposições da natureza, já defendia a filósofa Simone de Beauvoir. "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher", sentenciou. Nas entrelinhas, é a existência vindo antes da essência, das condições biológicas.

Durante longo período as mulheres foram as guardiãs de virtudes como cuidar, humanizar, compreender, confiar, integrar, acolher, reunir, inspirar, ouvir, ponderar, amparar, sensibilizar. Mas o mundo está mudando (você já percebe?).

Na Suécia, o tempo de licença paternidade se equipara ao da maternidade e vai além, obrigando pais a tirarem, pelo menos, três meses de recesso; Grandes grupos estão abraçando recrutamento às cegas, recebendo currículos sem informações como gênero, idade, formação ou anos de experiência; No Brasil, a geração tombamento surge para trazer representatividade às principais questões da sociedade civil: raça, gênero e sexualidade; A vidraça que estereotipa homens e mulheres é frágil e já está sendo estilhaçada em diversos países — o mundo promete, cada vez mais, ser neutro.

Basta um olhar um pouco mais atento e você verá, a transformação está batendo à porta. O ser humano está sendo emancipado da encenação de papéis tão rígidos e, para isso, precisamos recalcular a rota. Quando os valores do Feminino deixam de ser exclusivamente das mulheres e quando aceitamos que essas virtudes habitam em todos nós, temos uma relação ganha-ganha: homens que se desenvolvem, se humanizam e se alinham com valores e práticas que beneficiam a todos e mulheres menos pressionadas em atuar conforme determinados papéis impostos, menos responsáveis por carregar sozinhas nos ombros a responsabilidade de tornar o mundo um lugar mais harmônico.

Não tem jeito: para tempos caóticos, transformação. Se quisermos edificar uma humanidade com menos violência, ódio, ganância, exclusão, desigualdade, conflitos e guerras é urgente que pessoas, independente de gênero, sejam capazes de cuidar, nutrir e acolher.

Uma sociedade polarizada pela falta de compreensão e tolerância e sustentada por papéis sociais e de gênero rígidos não vai dar conta do recado. Precisamos nos aproximar mais e termos confiança para agir além das imposições usuais: mulheres seguras para ser e pensar como quiserem; e homens possíveis, sem necessidade constante de auto-afirmação e preocupados, sim, com o desenvolvimento de habilidades mais sensíveis.

Há muito chão pela frente — e a mudança requer esforços de todas as esferas sociais — não podemos negar, mas o caminho para esse outro mundo possível já começou a ser trilhado. Estamos irrequietos. Não aceitamos, sem bater o pé, esse manual do que devemos ser. Queremos uma experiência mais espontânea e natural como indivíduos e uma interação mais verdadeira com as coisas que nos rodeiam.

Saímos do "preto no branco" e vamos rumo a mais abertura, generosidade e fluidez. É um percurso sem volta: à medida em que formos menos apegados a nossos papéis e nos tornarmos mais genuínos com nós mesmos, também ficaremos mais sensíveis e seguros.

É mais sobre a liberdade do estar e menos sobre a imposição do ser. E você, vem com a gente?

 

Sobre a autora:
Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Certa feita, enamorou-se pela palavra inefável. Desde então, também mantém uma lista de pequenas coisinhas indizíveis.