27 de dezembro 2017

Mudar de carreira é preciso

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27 dezembro 2017

Mudar de carreira é preciso

Três paulistanos e uma especialista contam os percalços e as realizações após mudarem de carreira ou profissão
Texto por: Debora Stevaux

Mudar é mais do que importante, é necessário. Se tudo se transforma à nossa volta, é fundamental que nos reinventemos também, nos mais amplos aspectos: social, emocional, psíquico, financeiro, acadêmico e também ocupacional. Mudar, sobretudo, é um ato de coragem.

O norte-americano Mordy Golding, um dos maiores executivos do LinkedIn, a maior rede social de negócios fundada em 2002, acredita que as pessoas irão mudar de carreira cerca de 15 vezes no decorrer de toda a sua vida. Isso porque nossas metas e aspirações são totalmente diferentes aos 20, 30, 40 anos. e é pela inconstância de um mundo que avança sem pedal de freio que tudo isso pode ser, de fato, possível.

“A evolução da sociedade está sem pedal de freio, principalmente no que diz respeito às tecnologias. Tudo isso precisa se sustentar e ser sustentado de alguma forma. O olhar e o interesse das pessoas mudam, isso catalisa a mudança de carreira", afirma a psicóloga Daniela Leluddak, consultora, e orientadora de carreiras do Instituto Superior de Administração e Economia, da Fundação Getúlio Vargas do Paraná. “Além disso, temos muito mais facilidades, estímulos, fontes de informação do que quando comparado com meses atrás. Nós estamos caminhando numa velocidade muito grande e as profissões precisam se adaptar"

“O jornalismo está em mim, assim como a educação e a psicologia”
Cristiane Lopes, 51 anos

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A paulistana Cristiane Lopes, de 51 anos, estava terminando o curso de jornalismo. Era fim dos anos 80, a “década perdida”, assim batizada porque o Brasil passava por uma das crises mais ferrenhas de toda a sua história. Recém-formada, a estudante passou a trabalhar como assessora de imprensa no Esporte Clube Banespa, que administrava a agenda cheia e requisitada dos jogadores de vôlei. Tudo corria bem, até que a correria somada ao estresse e ao ritmo desenfreado de trabalho a fizeram adoecer.

No ano de 1993, foi diagnosticada com arritmia cardíaca. “Na época, o médico me disse que a causa era, de fato, a jornada maluca de trabalho. Fiz todos os exames, tomei os medicamentos e fiquei por dez dias afastada. Quando voltei, a carta de demissão estava na minha mesa", lembra.

O desespero do desemprego foi grande. “Perdi a conta de quantos currículos eu mandava naquela época, mas com a crise, tanto política quanto econômica, era muito difícil chamarem uma recém-formada. Até que veio o convite de Maria Cecília Nardim, 61 anos, amiga de longa data de sua mãe e diretora da Escola Estadual Dona Ana Rosa de Araújo, localizada na Zona Oeste da capital paulista. "Ela me ofereceu a possibilidade de dar aulas como professora substituta. Eu ficava de plantão na instituição e quando algum professor faltava, eu cobria”, explica.

Nesse mesmo ano, a paulistana se casou com Eduardo Vianna Nobre de Almeida. Um ano depois, engravidou. Em 1997, deu à luz outra garotinha e foi somente no ano seguinte que começou a licenciatura para se tornar professora de língua portuguesa. Dez anos depois, em 2003, prestou o concurso para ser professora da rede estadual. “Naquele ano, vi que o jornalismo estava cada vez mais distante e que não conseguiria me recolocar no mercado da comunicação."

Então levou o jornalismo para a sala de aula. "Sempre ensino as crianças sobre o poder da informação, sobre a importância do aluno de estar antenado, bem informado." Cristiane também acredita que o professor da rede pública possui uma missão muito árdua de tentar subverter todas as condições desfavoráveis para que as crianças e os adolescentes aprendam e nutram interesse pelo conhecimento. “É difícil. A gente tem que fazer o papel da mãe, de psicóloga e foi com essa última função que descobri uma paixão: a psicologia. Tanto é que, assim que me aposentar, pretendo fazer essa graduação”, planeja.

“Tinha um sentimento de não-pertencimento muito grande, mas hoje me sinto muito realizado no que faço”,
Felipe Larozza, 31 anos

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Formado em publicidade e propaganda, o paulistano radicado em Peruíbe, Felipe Larozza, 31 anos, tinha um bom emprego na área de marketing de um banco. “Trabalhava de terno e gravata mesmo. Era algo que não tinha nada a ver comigo, não gostava do que eu fazia, tinha uma sensação de não-pertencimento muito grande."

Até que, em 2012, depois de fazer cinco mochilões pela América Latina ao lado do amigo de longa data, Jader Pires, 31 anos, teve o insight de abrir um hostel na Vila Madalena, zona Oeste da capital paulista.

Naquela época, era incomum encontrar esse tipo de albergue no Brasil. Mas a proliferação do modelo de hospedagem fez com que o hostel de Felipe não aguentasse a concorrência. "Nós batíamos as contas e sempre ficávamos no ‘zero a zero’, e trabalhando demais, porque o hostel funcionava 24h. A concorrência também se tornou gigantesca, começaram a pipocar albergues de vários tipos, incríveis, de gente com muita grana, e nós fomos engolidos por isso. Então, em 2013, decidimos vendê-lo”. O dinheiro recebido ele aplicou em uma paixão antiga: a fotografia.

Desta vez a carreira deslanchou. Hoje, Felipe desempenha a função de fotógrafo e editor da VICE Brasil e produz cliques e documentários sobre temas relacionados a manifestações culturais e políticas que sejam relevantes para a juventude brasileira. Foi um dos profissionais selecionados para compor o 14º Salão Nacional de Fotografia Pérsio Galembeck, exposição nacional de fotografia de rua, em Araras, além de ter fotos suas publicadas no livro anual O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro, deste ano. O paulistano também está entre os finalistas da seleção de bolsas para o workshop da agência Magnum, organizado pelo Festival de Fotografia de Tiradentes, neste ano.

Quando questionado se pensa seguir uma outra área profissional novamente, Larozza foi categórico: “Não penso em mudar, mas em me especializar, me envolver com cinema, entrar de cabeça na produção de vídeo, participar de mais exposições, ou seja, fazer coisas que eu ainda não fiz, sempre somando dentro da carreira que eu sigo hoje.”

O paulistano elenca o planejamento financeiro e o apoio dos amigos e dos familiares como duas das coisas mais importantes e que foram fundamentais na sua busca por novas empreitadas profissionais. “A gente precisa fazer dessa mudança de área como se fosse a abertura de uma nova empresa, precisamos ter uma base financeira para poder fazer isso. Mensurar quanto dinheiro e quanto tempo levaremos para nos tornamos especialistas ou reconhecidos naquilo que fazemos. Correr atrás do tempo mesmo para aprender essa nova profissão”, pontua.

“Foi gratificante perceber que muitas mulheres negras, assim como eu, sentiam a necessidade de se reconectar com sua ancestralidade”
Ignez Bacelar, 31 anos

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A imagem do continente africano, com seu território sobreposto por sete palavras: mulheres, guerreiras, lindas, poderosas, rainhas, exclusivas, divas. Esse é o destaque do e-commerce Makida Moda Afro, criado em abril de 2016 pela empresária Ignez Bacelar, 31 anos, e seu marido e co-fundador, Miller Saes, 27 anos. Há dez anos no mercado corporativo, a paulistana de M'boi Mirim, bairro da periferia da zona Sul de São Paulo, sentia os olhares tortos quando usava algum artigo étnico no ambiente corporativo. “Eram e ainda são ambientes extremamente conservadores e tradicionais, me sentia extremamente desconfortável. Sai da última empresa em 2015, após a denúncia de uma funcionária sobre atitudes preconceituosas da minha chefe. Confirmei a história e sai de férias. Quando voltei, me disseram que apesar de ser uma ótima profissional, seria demitida porque estavam reformulando a área”, relembra.

Na dúvida sobre o que fazer, Ignez decidiu prestar concurso público para um cargo relacionado à área de gestão. Foram quatro meses debruçada sobre os livros, e embora tenha sido uma das melhores colocadas, sua pontuação não foi suficiente. "Então, pensei em empreender, mas não tinha ideia do tipo de negócio que queria criar. Até que decidi produzir roupas com tecidos e estampas africanas."

“Em abril de 2016, lançamos o site com nossa primeira coleção e foi um sucesso de vendas inacreditável. Foi um sentimento de realização e felicidade muito grande, porque acreditar no processo é muito difícil, ainda mais quando existia o conforto da CLT, um salário razoável e os benefícios de ser registrada”, analisa a paulistana que se casou há um mês, usando as roupas da própria marca.

“Não são só estampas, quando você clica na peça que quer comprar em nosso site, acaba descobrindo a história de uma rainha africana que teve a sua história apagada historicamente. Estamos fazendo esse processo de resgate cultural e histórico, o que é muito bonito e enriquecedor”, explica.

Pensando em mudar de carreira? Confira dicas da coach Daniela Leluddak:

  1. Questione-se diariamente se aquilo que você está fazendo te satisfaz. Busque autoconhecimento e tente descobrir outras funções que desempenha muito bem ou tenha vontade de desempenhar.

  2. Organize-se financeiramente, principalmente se a mudança de carreira ou profissão for drástica. É importante que você consiga mensurar quanto tempo e dinheiro disponível tem para fazer essa transição.

  3. Coloque tudo no papel. Escrever é um ato mecânico que ajuda a concretizar. Use essa função para desenhar um plano de carreira.

  4. Converse e peça opiniões de quem já atua na área para saber desde o dia da área até planos para crescer nessa carreira.

  5. Se tem planos de empreender, procure instituições que podem ajudar com cursos, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). Veja possibilidades de ser inovador. Uma boa dica é a plataforma Star-se, que conecta empreendedores, mentores e investidores.

  6. Pergunte-se diariamente: ‘Qual é a história de vida que quero contar para mim mesmo e para os outros?’. O trabalho possui um papel fundamental na vida das pessoas, e quando se trata de mudanças, é fundamental que essa reflexão acompanhe a caminhada.