14 de agosto 2018

Minha história não deveria ser de exceção, mas de direito

Conceição Evaristo
14 agosto 2018

Minha história não deveria ser de exceção, mas de direito

Texto por: Debora Stevaux
Um dos maiores nomes da literatura brasileira atual, a mineira que seguiu os mesmos passos de Carolina de Jesus conta sobre os percalços de ter publicado seu primeiro livro aos 44 anos, de ser mulher, negra e mãe-solo num país onde morre 1 negro a cada 23 minutos.  

Lançou seu primeiro livro, aos 44 anos, mas escrevia em um diário desde a época em que conciliava os estudos com o esforço diário dos trabalhos domésticos para sobreviver, assim como Carolina de Jesus: essa é a vivência de resistência da escritora e professora mineira Conceição Evaristo, de 71 anos, nascida em uma comunidade pobre de Belo Horizonte, assim como seus 9 irmãos.  

A história se repete: considerada uma das primeiras e mais conhecidas escritoras negras do Brasil, Conceição acredita que as semelhanças com a trajetória da autora de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada não são por um acaso. “Somos mulheres negras, pobres, que assumimos a escrita como direito. Carolina não tinha nem completado o curso primário, mas tinha outras competências e, apesar dos percalços, nunca teve dificuldade para se pronunciar como escritora – faz justamente da escrita uma voz afirmativa como sujeito”, analisa Conceição que se formou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi reconhecida, primeiramente, no exterior, com obras traduzidas para o inglês. 

Porém, mesmo que as afinidades entre a sua trajetória e a de Carolina sejam inegáveis, Conceição não hesite em apontar uma crucial diferença: apontada pelos livros como ‘descoberta’ no ano de 1958 pelo jornalista Audálio Dantas, a escritora explica que, atualmente, não há a necessidade de descobrimento das mulheres negras. “Carolina é lançada no contexto literário brasileiro em um outro momento, diferente do que as escritoras aparecem hoje. Ela aparece quando a classe média vive um certo remorso, enquanto havia o discurso que afirmava a existência dos anos dourados. Embora ela não simbolize esses anos dourados. É uma voz que eles fizeram aparecer para se colocarem como comprometidos com as demandas populares. Hoje, as escritoras negras lutam num outro contexto, nós mesmas fazemos os nossos caminhos. Portanto, não se pode dizer que jornalista algum descobriu alguma escritora negra. Não é a mídia que nós descobre”, dispara a escritora que foi tema de uma exposição idealizada pelo Itaú Cultural em 2017. 

O gosto por escrever como um processo natural 

Evaristo conta que naturalmente se inclinou para as letras, desde a escola primária gostava da magia de unir palavras em um só corpo. “Lembro que até ganhei um prêmio de redação quando era novinha, mas nunca pensei que a escrita me levaria para onde estou hoje. O desejo de publicar [minha obra] surgiu ali pelos 40 anos e o fato de conseguir me deu certa angústia, mas nunca quis mas nunca parar de escrever pelo fato de não conseguir publicar”, reflete.  

O tema da redação que a levou para o primeiro lugar da turma era sobre o orgulho de ser brasileira, quando questionada sobre ter nascido na nação em que mata um jovem negro a cada 23 minutos, segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas, ela contextualiza.

“No fim dos anos 50 havia uma mentalidade ufanista muito forte, a própria filosofia da educação trazia esse sentimento. Hoje, eu me orgulho de ser brasileira, porque nós não fizemos nada para não nos orgulharmos. A vergonha que o Brasil vive hoje não é uma vergonha que o povo é culpado. Eu me orgulho de ser brasileira sim, eu me orgulho de ser afrobrasileira”, esclarece.  

Sobre o racismo institucionalizado e a condenação de Rafael Braga 

Quantos acadêmicos negros temos dentro da universidade? Por que se fala tanto de racismo mas, na prática, o racista é sempre o outro? Para a escritora, o racismo institucionalizado como um dos pilares que sustentam as engrenagens da sociedade brasileira é cruel na medida em que coloca todos contra o racismo, mas numa posição em que não há posicionamento, tampouco reconhecimento das próprias atitudes.

“Não há nada em termos de Lei que impeça que um homem ou mulher negros sejam reitores de uma grande universidade, mas os empecilhos diários, a carência de oportunidades, nos impede de chegar lá. E ainda não há nada que impeça uma mulher negra de escrever, nenhuma grande editora diz isso, mas há uma má vontade, uma interdição, que se a gente não estiver muito alerta, ninguém percebe”, pontua.  

Para além dos contornos acadêmicos, a escritora alerta que o racismo assume seus contornos mais sádicos quando ouve falar, pelo telefone, um nome: Rafael Braga, um catador de reciclagem brasileiro de 29 anos, conhecido como o único condenado durante os protestos que acometeram o país em 2013.

“Muitas pessoas, políticos e até parcela da população, acha simpático a ideia de ter pena de morte no Brasil. E nós sabemos quais serão a cor da pele das pessoas que serão as primeiras vítimas. A condenação do Rafael mostra isso: a Justiça é cega por condenar algumas pessoas e outras não. Inclusive, levamos em conta que o sujeito que tem curso superior tem direito a tratamento especial, a condenação do Rafael exemplifica concretamente que a justiça vê quem ela quer ver”, conta por telefone.  

A minha eterna menina 

Conceição é viúva. Quando sua pequena Ainá completou 9 anos de idade, seu marido faleceu. Portadora de uma síndrome rara, a moça que hoje tem 35 anos de idade possui um atraso psicomotor.

“Ela tem 35 anos cronológicos, mas em termos mentais ela tem menos, seria uma menina de 15, 16 anos de idade. É a minha eterna menina”, lembra ela da filha que nasceu em Maricá, no Rio de Janeiro, quando a escritora já estava trabalhando na área em outro estado que não Minas. 

Conceição conta que esse foi mais um dos desafios que a acompanhou na sua jornada letrada. “Eu sempre trabalhei o fato de eu ter uma filha especial não me impediu de fazer tudo que eu fiz. Ela cansou de ir para a faculdade comigo, de ir para o trabalho. Consegui dar uma diretriz para a minha filha, porque a vida nos obrigou a construir uma certa independência. Minha jornada ao lado dela é de uma mulher negra, solteira, com dificuldade de ascensão na sociedade brasileira”, conta ela sobre a pequena que hoje é capaz de preparar um lanchinho para si mesma.  

Embora não tenha muito tempo livre, Evaristo gosta bastante de música, em especial da norte-americana Nina Simone e da rapper Ellen Oléria. “Nesse ano estou trabalhando muito, e além do meu trabalho, eu cuido da minha casa, da minha filha que precisa de uma atenção especial. Não tenho o luxo de ter uma cuidadora para ela, mas sempre quando viajo ela fica com uma pessoa que cuida dela. Mas eu tenho que estar todo dia ligando, falando com ela, porque ela precisa saber como estou, ouvir minha voz. Preciso estar com ela”, diz.  

Quando consegue se programar nas férias, Conceição programa viagens curtinhas com sua filha. “Minha vida não é puramente intelectual.  A minha vida não é puramente intelectual. Sou uma mulher que veio de uma origem popular, sou uma dona de casa. Cuido da minha cozinha, da minha casa, da minha filha e da minha escrita”, completa.   

A certeza da caminhada e a história de exceção 

Quando questionada sobre a possibilidade de ter feito algo diferente nas suas sete décadas de vida, Conceição não hesita ao afirmar que não mudaria nada. “Hoje, aos 71 anos, olho os meus caminhos e uma coisa me deixa muito feliz: continuo mantendo a minha palavra, a minha dignidade, em momento algum eu me traí ou traí os meus desejos. Olho para trás e não me envergonho de nada que eu fiz. O que eu conquistei hoje foi sem fazer concessões, sem me vender”, explica ela que tem orgulho da sua trajetória como professora primária.

Hoje, o que move a mulher de quase dois metros de altura é a certeza de ter se tornado uma referência para os jovens. “Há pouco tempo uma garota me pediu para que eu abrisse o documentário que ela está fazendo como projeto de conclusão de curso recitando uma poesia. O fato dos jovens me tomarem como referência me potencializa de uma forma muito grandiosa”, analisa a escritora. 

Conceição também deixa bem claro que sua história não pode, em hipótese alguma, ser utilizada para justificar e embasar conceitos como a meritocracia. “Há uma tendência das pessoas lerem a minha biografia e associarem a esse conceito, que é um discurso super perigoso. As classes populares são classes trabalhadores, pessoas que saem dos subúrbios e trabalham em funções subalternizadas e não conseguem ‘chegar lá’, não por má vontade ou falta de esforço, mas por carência de oportunidades. A minha história e a de outros poucos negros que a sociedade coloca como sendo ‘os que conseguiram chegar lá’ são histórias de exceção. E têm que servir para a gente se questionar sobre as regras que fazem com que a gente não consiga. Que regras são essas que tornam os negros como exceção? São regras muito cruéis, porque não deveriam ser histórias de exceção, mas de direitos. Que a minha biografia pessoal sirva para pensar que regras são essas que barram essa conquista de direitos. O direito à vida não pode ser conquistado por poucos negros, e sim deveria ser de todos”, finaliza.