22 de dezembro 2017

Mediação de conflitos

Mediacao de conflitos
22 dezembro 2017

Mediação de conflitos

A advogada Carla Boin acredita na justiça restaurativa para resolver problemas e valorizar a autonomia e o diálogo
Texto por: Camila Luz

Em situações como agressões físicas, assédios sexuais ou danos morais, a justiça tradicional busca culpados e os pune. Já a justiça restaurativa, uma forma contemporânea de resolução de conflitos, valoriza a autonomia e o diálogo para curar e responsabilizar.

Na justiça restaurativa, há um mediador imparcial responsável por facilitar o diálogo entre todas as pessoas envolvidas. Para Carla Boin, trabalhar com a mediação de conflitos faz mais sentido do que atuar com advocacia tradicional. Ela é formada em direito, pós-graduada em mediação e doutoranda em direitos humanos. “A advocacia tradicional não fazia o menor sentido para mim. Os bons advogados são os que vão para o embate, não para o diálogo. Isso me incomodava muito”, explica.

Para Carla, os processos conduzidos pela justiça tradicional trazem à tona o pior do ser humano. Na justiça restaurativa, os envolvidos são cercados de uma rede de apoio para tratar seus traumas, buscar cura e perdão.

O que é justiça restaurativa?
A justiça restaurativa pauta seus conhecimentos em práticas realizadas por tribos aborígenes da Nova Zelândia e Austrália, além dos autóctones, os nativos canadenses. Eles resolviam conflitos e lidavam com a justiça por meio de rodas de conversa. Não se procurava um culpado, mas sim os danos causados para a comunidade. Questionavam os motivos para esses danos e identificavam o que não estava funcionando bem dentro da comunidade. Então se estabeleciam ciclos para conversa com o objetivo de resolver dilemas.

Quando você conheceu a justiça restaurativa?
Comecei a ter mais contato com a justiça restaurativa em 2005, quando participei da organização do Primeiro Simpósio de Justiça Restaurativa em Araçatuba. Atualmente estou fazendo minha tese de doutorado sobre justiça restaurativa. Baseio-me em um projeto piloto em uma Universidade do Canadá onde ocorreu uma situação muito interessante entre estudantes de odontologia. Eles formaram um grupo de Facebook da sala e, paralelamente, alguns rapazes montaram outro grupo onde faziam comentários pejorativos sobre as moças. Um deles deixou a página aberta e uma das colegas acabou descobrindo tudo o que diziam. As estudantes não quiseram mover ação ou ir para a justiça comum para pedir danos morais. Elas queriam poder falar sobre como se sentiram ao descobrir essas agressividades. Não queriam que fossem punidos, e sim compartilhar o sentimento. Então começaram um trabalho para construir um círculo restaurativo. Há um trabalho de pré-círculo que consiste em conversas individuais com cada integrante para que não haja vitimização.

Qual a vantagem desse tipo de abordagem?
Quando falamos de perdão, estamos falando de memória. Quando a gente perdoa a gente não esquece, precisamos revisitar e ter contato com o que aconteceu. Assim, há a possibilidade de se desligar desse fato e de se libertar, para que os sentimentos de vingança e dor sejam tratados e superados. Depois de 12 anos de experiência no Brasil, estamos tirando um pouco dos estigmas de vítima e ofensor, que não são bacanas. A mediação é um caminho para chegar em um círculo restaurativo, que envolve pessoas que foram afetadas diretamente ou indiretamente pelo conflito. Elas formam a rede de apoio. Além disso, quando me coloco como parte integrante de uma situação que não está boa para buscar solução, mais chances tenho de me desenvolver como ser humano e fortalecer esse senso de comunidade.

Como você trabalha com a mediação de conflitos?
Para a pessoa participar, ela precisa ter assumido a autoria por determinado ato. Na mediação, a gente trabalha com uma facilitação de diálogos e com caminhos que levam para responsabilização e autonomia. Trabalho com famílias e com conflitos do dia a dia dentro de empresas.

Você também oferece mediação individual, certo? Como funciona?
É um trabalho que faço individualmente com pessoas que estão em momentos de muitos conflitos, decisões importantes para tomar ou processos de mudança de vida. Parece um pouco com coaching e realmente tem algumas semelhanças, mas não é algo tão direcionado para vida profissional ou pessoal, é mais sistêmico.

Como assim?
É preciso entender a vida como um todo. Geralmente, se existe o conflito, há questões emocionais a serem trabalhadas. Faço um trabalho de dez encontros direcionados para os conflitos que vamos identificar, como angústias, dilemas ou o medo de tomar decisões. Faço esse trabalho como uma proposta de modificar modos de agir e repetições de padrão que pautavam a vida da pessoa. Não é uma terapia pois não vamos trabalhar questões do passado ou grandes questões terapêuticas. Vamos lidar com o que está sentindo neste momento e com os conflitos que se apresentam, para que ela tenha oportunidade de mudança e transformação.

Quais tipos de conflitos você tenta solucionar?
Conflitos de toda ordem. Um sentimento de angústia diante de uma escolha que deve ser feita, por exemplo. Há situações de pessoas que querem se divorciar e precisam se preparar para isso. Também já trabalhei com uma pessoa que tinha um cargo importante e iria desenvolver um projeto que envolvia muitas frentes e profissionais. Minha ajuda foi no sentido de promover a integração desse trabalho por meio do diálogo, abertura e reflexão conjunta.

Qual o papel do mediador?
O papel do mediador é promover a facilitação do diálogo e fazer emergir a potência de cada um para que se perceba e perceba o outro. Ele poderá enxergar pelos olhos do outro e construir uma verdade que faça sentido para todos os envolvidos. Isso gera autonomia e responsabilização. O mediador jamais diz quem está certo ou errado. A questão da imparcialidade é fundamental. Jamais pode existir o aconselhamento. O objetivo é permitir que os envolvidos se tornem seus próprios líderes e encontrem liberdade em seus processos de criação e desenvolvimento.

Você vem traçando uma relação entre mediação, direitos humanos e diversidade. Você é idealizadora do projeto “Ele por Ela por Todxs – Mediação e Justiça Restaurativa pela Diversidade”. Poderia falar um pouco sobre ele?
Há espaços, como comunidades ou associações, que me convidam para desenvolver o projeto discutindo a diversidade de pessoas que fazem parte desses locais. Pode ser do mais conservador ao mais revolucionário. Convido todos para fazer parte de um círculo restaurativo. Para que isso aconteça, preciso de uma oficina de duas horas com os participantes. A proposta é estabelecer a roda de conversa a partir de outro lugar que não seja antagonismo ou construção de argumentação. Partimos do diálogo e da sensibilização, para que os integrantes da roda que não tinham oportunidade de se manifestar em condições normais tenham seu espaço de fala e se sintam à vontade para expor o que sentem.