24 de novembro 2017

Maturidade rima com paternidade?

Maturidade rima com paternidade (1)
24 novembro 2017

Maturidade rima com paternidade?

São oito anos de uma vida que amadurece junto à minha, com escolhas e desafios
Sobre o autor: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

Texto por: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

O que mais me define ou me moldou como homem maduro é a paternidade, essa coisa de ser um exemplo, de sair do faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

Tempos atrás não me imaginava pai, minha namorada tampouco se imaginava mãe, veio uma gravidez inesperada, não planejada. Fazer planos é ser maduro, maduro é pensar no futuro. Tenho essa mania de focar mais no presente. “Eu quero agora”, coisa de guri imaturo.

Diante da possibilidade de ser ou não pai, pensamos - atenção, palavra forte, requer maturidade para seguir lendo - pensamos num aborto.

A futura mãe estava começando num novo emprego, o futuro pai não pensava muita coisa além do fato de que ser pai seria muito legal, mas desde cedo, salvo alguns deslizes, aprendeu a respeitar o corpo da mulher ou apenas o corpo que não é seu. Se não é meu, a escolha não cabe a mim.

Descobrimos um remédio e que ele pode ser comprado no centro da cidade. Acredito que em quase qualquer cidade.

A maturidade implica em escolhas, sempre imagino uma estrada que leva para dois ou mais caminhos. Um dia, sentado à beira de um caminho, digo, em frente ao meu computador, resolvi ler sobre o tal remédio que evitaria ou atrasaria a minha maturidade.

Tudo que li me deu medo: perder uma ou duas pessoas, uma que amo, outra que amaria assim que a conhecesse. Me informei e optei por um caminho.

Nós nos encontramos no fim do dia, sentamos na beirada de nossa cama e decidimos por ser pai e mãe. Só fiz isso com o apoio e o aval da pessoa que ia carregar o feto ainda sem nome por nove meses. Antes de impor minha vontade, pensei na vontade de quem tem o maior trabalho, trabalho de parto sendo bem específico, e sofre com as mudanças corporais.

Assumimos uma responsabilidade, responsabilidade que cabia em nossas vidas, repito, eu até posso ajudar na escolha, no entanto ela não é minha, afinal é mais fácil ser homem, bem mais fácil ser pai. As regras para os nossos corpos foram definidas a nosso favor.

A gente sabe que aborto não é legalizado porque o homem não engravida.

Olhando para o passado, vejo que fomos maduros em nossa escolha e não imagino um futuro sem minha filha, essa pessoa a quem finjo ter maturidade.

São oito anos de uma vida que amadurece junto à minha, tem escolhas e desafios já.

Nas histórias que conto para ela dormir, ela me faz revisitar meu passado. Dia desses tivemos uma ideia: eu começaria contando 1979 e mentalmente pensaria na sequência até 2017 e recomeçaria em 1979. Minha filha, nesse intervalo, teria que dizer “para” e, assim, eu contaria uma história do meu passado. Ontem foi o ano de 1985.

Quando eu tinha seis anos de idade, bem mais imaturo do que ela.

Contei que naquele ano havia mudado de cidade, mudado de escola, perdido velhos amigos e feito novos. Mas que todas essas mudanças me fizeram colecionar amizades.

A história de ninar foi para um lado triste da vida dela, recente: Alice possivelmente mudará de escola, porque houve mudanças em sua bolsa de estudo e o aumento ocasionará uma possível saída.

Um dia me deparei com o RH da escola e todos os questionamentos sobre o quanto eu ganho e uma pergunta que até hoje vem à minha cabeça:

“Mas não tem condições de você ganhar mais no seu trabalho?”.

Não tive maturidade para responder.

O choro da menina é de desespero, ela chora de soluçar, é canceriana e isso pode potencializar um pouco o pranto, mas ele é real e sofrido.

Nesse momento vem a maturidade de quem já passou isso tanto na vida própria quanto na dela e explico que mudar dói, porque implica em crescer e, sim, crescer dói.

Amadurecer é criar a casca, é cicatrizar.

Eu olho nos seus olhos e digo que eu e sua mãe, além dos amigos e da nossa família, estamos no mundo para fazer o dela mais tranquilo, seguro e para ela ter certeza de que tudo vai dar certo no final.

Nesse momento, o pai que é e se sente uma eterna criança, com boletos embaixo do braço em vez de uma bola, sabe que não precisa mentir para educar uma criança e conta a verdade sobre seu futuro. Talvez ele esteja diferente no ano que vem, em outra escola, com outros amigos, outra vida. O choro ainda continua, verdade também traz maturidade.

Ela é algo que a vida ensina todo dia, é normal querer fugir desses ensinamentos.

A morte de minha mãe me amadureceu muito cedo, preservando em algum canto, no entanto, minha infantilidade, o sorriso fácil de quem ri da mesma piada.

A maturidade às vezes parece a utopia, algo que a gente sempre persegue e parece que nunca vai conseguir alcançar, Afinal, quando a encontramos de maneira plena, pode significar o fim.

Sou imaturo. Tenho lampejos de maturidade. Lampejos da vida adulta, que envolve pagar contas, resolver problemas e assistir a desenhos animados comendo pipoca em frente à televisão sempre que possível.