27 de novembro 2017

Maturidade

maturidade
27 novembro 2017

Maturidade

É preciso acolher de forma integral a pessoa idosa, que ainda deseja produzir, ser ouvida e se manter integrada
Texto por: Julliane Silveira

O que é maturidade e como vivê-la de forma plena? É uma pergunta importante e cada vez mais presente na vida dos brasileiros, cuja longevidade só aumenta. Nas últimas oito décadas, a expectativa de vida no Brasil saltou dos 45 para os 75 anos.

A previsão é que 30% da população brasileira seja composta por idosos em 2050. Até 2060, a população com mais de 80 anos deve somar 19 milhões de pessoas, de acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “A França levou 145 anos para dobrar de 10% para 20% de idosos na população e o Brasil fará isso em 19 anos. Os países onde se vive mais enriqueceram antes de envelhecer e aqui faremos isso na pobreza”, diz o médico Alexandre Kalache, um dos maiores especialistas em longevidade do mundo.

Se antes o Brasil era conhecido como um país jovem, agora passa a enfrentar uma série de desafios para entender e acolher pessoas cada vez mais maduras em um cenário econômico pouco favorável. É claro que esse tema não ficaria de fora das conversas e discussões que aconteceram no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), com profissionais das marcas Molico, Itaú e Natura. As reflexões deram origem ao documentário “Quando Somos Quem Queremos Ser?”, idealizado e realizado pelo canal GNT e o coletivo Asas.

A partir desse encontro, constatamos que é preciso recriar o lugar onde vivemos, para acolher de forma integral ser humano mais velho, que ainda deseja produzir, ser ouvido e se manter integrado. Os idosos precisam ser ativos e produtivos não só para satisfação pessoal como também para garantir a sustentabilidade do planeta. Afinal, nenhum país do mundo vai dar conta de cuidar de tantas pessoas mais velhas. Mas a reinvenção da terceira idade ultrapassa os aspectos socioeconômicos: é preciso que pessoas nessa faixa etária consigam enxergar sentido na vida a longo prazo.

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Medos

Os maiores temores das pessoas sobre o envelhecimento são solidão e perda da saúde e da autonomia. Um levantamento realizado pelo Instituto Nielsen com 2.165 pessoas de sete países da América Latina mostra que os brasileiros são os que mais têm medo de ficar sozinhos na velhice (57% dos entrevistados, contra 35% na média latino-americana).

Esses receios relacionados à maturidade estão relacionados a uma percepção negativa da velhice. A dificuldade de encarar bem longevidade se deve ao fato de ser um destino que ninguém conhece e que não é certo – o envelhecimento pode ocorrer de forma tranquila ou envolver doenças e outros problemas ligados à idade. Apesar de a qualidade de vida na terceira idade melhorar cada vez mais, com o avanço da medicina, as pessoas projetam e incorporam muitos modelos negativos, ligados a possíveis declínios e à perda da autonomia “Outro grande medo que é ser excluído da sociedade porque é muito velho”, afirma Alexandre Kalache.

Solidariedade 

Com uma proporção de idosos nunca vista na história do país, a nova composição da sociedade brasileira só dará certo com uma forma de viver: por meio da solidariedade. Temos menos recursos financeiros que França, Japão ou Canadá, países que também veem os índices de pessoas idosas crescer. Por aqui, cada um terá a obrigação de cuidar e integrar os mais maduros em todas as áreas da vida.

A recíproca também deve acontecer. “Na medida em que temos mais idosos, temos mais pessoas que não estão preocupadas com seu umbigo, e sim em deixar um legado e inspirar as novas gerações”, analisa Alexandre. Isso quer dizer que essas pessoas, que já têm a preocupação de serem lembradas, transmitem uma energia de transformação muito forte, ajudando a criar um país mais harmônico e solidário.

O idoso também precisa aprender a usar suas experiências da melhor forma. Aí entra o conceito de resiliência, termo emprestado da física pela psicologia, que significa a capacidade de se adaptar a mudanças e de resistir a grandes pressões. No contexto da maturidade, quer dizer a capacidade de colher o aprendizado do passado e conseguir transformá-lo em algo positivo para o presente e o futuro.

Veja mais reflexões de Alexandre Kalache neste vídeo.