09 de outubro 2017

Manspreading

Manspreading (1)
09 outubro 2017

Manspreading

O hábito masculino de se sentar de pernas abertas no transporte público está sendo questionado em todo o mundo
Texto por: Julliane Silveira

O termo é recente, mas o hábito não é. Manspreading é o nome dado à forma como homens costumam se sentar nos transportes públicos: com as pernas bem abertas, sem se preocupar com os limites do assento e com a pessoa que está ao seu lado.

A mania é tão antiga que já aparecia nas regras de utilização de transporte público divulgadas em 1836 pelo jornal The Time of London, na Inglaterra. Também está em uma edição de 1947 do jornal “The Subway Sun”, que era distribuído nos metrôs de Nova York, nos EUA.

E faz parte de várias campanhas do século 21, o que mostra que pouca coisa mudou nesse sentido nos últimos séculos.

A palavra manspreading foi adicionada ao Oxford English Dictionary em 2015. Ela se popularizou depois de uma campanha realizada pelo metrô de Nova York, em 2014. Os cartazes diziam “Dude, please stop the spread”, algo como “cara, pare com essa perna aberta”, em tradução livre.

Em seguida, outras cidades norte-americanas, como Seattle e Filadélfia, também lançaram campanhas semelhantes. Em Seattle, a prática é representada por um polvo que ocupa bem mais do que seu assento no transporte público. Tókio, capital do Japão, e Seul, capital da Coréia do Sul, também fizeram apelos parecidos para os passageiros de transportes públicos.

Neste ano, foi a vez de Madri, capital da Espanha, lançar oficialmente uma batalha contra o manspreading. A Empresa Municipal de Transportes de Madri tomou uma atitude depois que o grupo feminista Mujeres en Lucha lançou uma petição na internet contra o hábito. A campanha viralizou rapidamente e conseguiu 11 mil assinaturas.

Mais do que má educação

Para muitas mulheres, lutar contra o manspreading vai muito além de combater um hábito invasivo e mal educado. Para elas, não é um fato isolado, e sim mais um ato dominador, que faz parte de todos os privilégios que o homem recebe de uma sociedade tradicionalmente patriarcal.

Simbolicamente, o homem acredita que todos devem abrir espaço para suas necessidades físicas. Esse posicionamento também sugere que a genitália dessa pessoa é grande – mais um estereótipo social de virilidade. Enquanto isso, a outra pessoa – isto é, a mulher -  aceita de forma passiva e se adequa à situação, cerrando suas pernas de forma defensiva.

A discussão não é nova: nos anos 1970, a socióloga francesa Colette Guillaumin estudou sobre as posturas de homens e mulheres no espaço coletivo. De um lado encontrou os homens que costumavam “se esparramar” e usar ultrapassar os limites que lhes cabiam em bancos e cadeiras. Para ela, o estilo cowboy de se posicionar em um local público é uma das maiores características que determinam a imagem da virilidade ocidental.

Do outro lado, ela constatou que as mulheres sempre se posicionavam de forma protegida, com as pernas cruzadas e se defendendo de uma possível agressão. Uma imagem que mostra bem mais do que a falta de educação do sexo masculino.

Para quem acredita que pequenas coisas podem mudar o mundo e dar espaço a minorias, combater o manspreading pode ser um bom começo.