04 de setembro 2017

Mais Compreensão por favor

Mais compreensão, por favor
04 setembro 2017

Mais Compreensão por favor

As redes sociais se tornaram palcos de guerras sem vencedores.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

Quem nunca ficou surpreso ao ler a opinião um amigo em uma rede social e descobrir que divergiam sobre um determinado assunto? E quando você se depara com comunidades que defendem ideias que considera absurdas? A polarização de opiniões nas redes sociais faz a internet ganhar ares de ringue – pronto para duelos entre amigos, conhecidos e até desconhecidos. Ou pior: batalhas que acabam com a exclusão e até bloqueio de pessoas queridas de sua página. As lutas, apesar de nem sempre épicas, acabam gerando desconforto e, em muitos casos, criam inimizades. A sensação de que conhecia tão bem aquela pessoa parece se desfazer a cada post sob olhos atentos à tela. Frustrante. Ou estaríamos dramáticos demais? Será que as diferenças são tão graves quanto parecem?

O psicólogo e educador José Ernesto Bologna, professor de ética para conselheiros na Fundação Dom Cabral, explica que, de tempos em tempos, a humanidade escolhe formas de extravazar o estresse do dia a dia. Para ele, na nossa era, a internet é esse lugar. “A chamada era da pós-modernidade é um mundo produtor de grandes insatisfações que acabam nas brigas virtuais”. Segundo ele, essa era gerou desejos artificiais nas pessoas. “Os modelos socioeconômicos e culturais da pós-modernidade estimularam meu olhar para aquilo que não tenho, ao contrário do final do século 19, quando predominava uma sensação mais na linha ‘olhe para aquilo que você tem’. Seja grato pelo que a vida te deu. A internet é o lugar para reclamar”, afirma Bologna.

Reclamar e opinar. Muito. Neste ano, por exemplo, as pessoas produziram longos posts, memes e indiretas sobre as mais variadas notícias e assuntos, desde estilo de vida, passando por preferência política e alimentação saudável. Manchetes como “Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank adotam criança africana” e “Bela Gil inclui batata doce, banana da terra e granola caseira em marmita da filha” causaram alvoroço nos juízes de plantão, que rapidamente pegaram seus escudos e espadas invisíveis e deram início às discussões. “Por que não adotar uma criança brasileira?”, diz um internauta enfurecido sobre a decisão do casal de atores da Globo; “Deixa a menina comer bolacha e salgadinho, ela precisa ser normal”, afirma outro, reagindo à apresentadora Bela Gil.

Em ambos os casos, as pessoas poderiam guardar suas opiniões ou adotar seus conselhos apenas para si. Mas em vez disso, optam por compartilhá-los com milhares de leitores, alimentando o Trending Topics no Twitter. A psicóloga Luciana Ruffo, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUC - SP, afirma que os comentários sobre fatos públicos ou sobre a vida alheia se multiplicam, principalmente, porque as redes sociais criam impressões que, embora contraditórias, alimentam o mesmo comportamento. Para alguns, parece ser um ambiente protegido pelo anonimato, para outros, gera uma sensação de pertencimento a um grupo – mesmo que o internauta esteja sozinho, sentado no sofá de sua casa. “É como se a pessoa pensasse: ‘Se um assunto está sendo debatido e eu me identifico com um lado, não vejo mal em repetir e reforçar uma opinião que está sendo dada’. No entanto, ela tende a não enxergar os impactos que isso pode causar em quem está sendo julgado e na amplitude que uma rede social dá a um comentário que seria logo esquecido se feito em uma roda de amigos em um bar”, diz.

O psicólogo Francisco Duarte, da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, chama a atenção para uma regra básica da convivência em sociedade: cada situação é única e ninguém tem o mandato para julgar o que é certo ou o que é errado. Em sua visão, as redes sociais possibilitam uma troca que pode ser saudável. “Mas para isso acontecer você precisa entender a sua singularidade. O que eu faço para o meu filho, por exemplo, não é necessariamente bom para o seu. O saudável está aí: poder ser diferente e criar uma identidade por meio da diferença”, considera.

Segurar o impulso de reagir a um comentário incômodo que alguém querido fez na internet pode exigir muito mais do que tolerância e compreensão. Coloque-se no lugar do outro, é o que sugere Luciana Ruffo. Dê uma pausa, respire e pense mais tempo antes de publicar. Para a psicóloga, é possível aprender com a situação na medida em que as pessoas estejam dispostas a refletir sobre o diferente.

O próprio funcionamento das redes sociais, porém, pode nos levar, com o passar do tempo, ao caminho oposto: o de unir-se apenas aos que pensam de maneira semelhante e editar, automaticamente, aqueles que têm opinião diversa. Luli Radfahrer, professor doutor de Comunicação Digital da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo, explica que as redes sociais como Facebook e Instagram funcionam conforme as interações do usuário com seus amigos e seguidores. “Há um algoritmo que comanda tudo. Esse algoritmo só permite que recebamos informações, posts e alertas de pessoas que têm posições e gostos parecidos com os nossos. Com isso, ele cria para mim um ambiente em que todo mundo que eu vejo e leio ‘concorde’ com o que eu penso. É uma bolha”, observa.

Com o algoritmo, o conteúdo é redirecionado a quem se interessa por ele. No Instagram, por exemplo, se o usuário postava uma fotografia, ele só teria curtidas de quem entrasse no aplicativo próximo da hora da postagem. Hoje, ao postar uma imagem, o seguidor que interage com seu perfil pode demorar dias até acessar o aplicativo novamente, mas, quando o fizer, a fotografia aparecerá em seu feed. Isso faz com que cada usuário se torne um produto de entretenimento para o outro, segundo Radfahrer. “A função da internet, das redes sociais, é o entretenimento. No meio publicitário, temos o jargão que diz ‘se você não está pagando por um produto, é sinal de que o produto é você’ e é o que ocorre nas redes sociais do Facebook.”

Esse mecanismo, na opinião de Radfahrer, tende a deixar as pessoas “mimadas e mal acostumadas”, com um mundo que parece só concordar com suas opiniões e reforçar comportamentos. Isso pode se refletir na vida fora das telas. “No trânsito, por exemplo, as pessoas estão mais intolerantes porque não querem ceder, já que raramente são contestadas nas redes sociais. Quantas horas o sujeito passa nessas redes? Muitas! Ele se acostuma”. O professor, no entanto, acredita que a tendência é que essas redes sociais percam a importância com o tempo e que os usuários percebam que essa bolha não é saudável.

Na opinião de Ruffo, a empatia, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro e respeitá-lo, pode ser o melhor mecanismo para apaziguar tempos de brigas na internet e driblar o automatismo e o descompromisso com aquilo que se escreve e posta. “Se uma pessoa é militante pela causa do parto normal, por exemplo, e a forma como ela se manifesta ofende quem não pode ter filho dessa forma, ela deve rever a forma de demonstrar sua opinião. O problema não é expressar o que penso. Mas esquecer que o outro tem direito a uma opinião diferente da minha”, diz. Mais do que aceitar, é possível aprender com a diversidade. É ela que ajuda alguém a se desenvolver e fortalecer seus pontos de vista. Nem que seja apenas para reafirmar suas crenças com mais consistência e maturidade.

 

Sobre a autora:
Jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2009), com mestrado em Estudos de Linguagens na mesma instituição (2011). Atuou como repórter da Folha de S.Paulo nas editorias Cotidiano, Cadernos Especiais e Ciência, Saúde e Equilíbrio. Foi assessora de comunicação do programa do MCTI “Rede Pró-Centro-Oeste”; da ONG Neotrópica do Brasil e da Fundação de Amparo à Pesquisa de MS, “Fundect”. É colaboradora nas empresas Atelier de Conteúdo, Folha de S.Paulo e revista Horizonte Geográfico.