03 de janeiro 2018

Janela da alma

SoulVox
03 janeiro 2018

Janela da alma

Start up usa doação de voz para personalizar comunicação de pacientes que perderam a fala
Texto por: Julliane Silveira

Um câncer de cabeça e pescoço levava embora a voz do pai da arquiteta Marina Vaz, em 2013, quando ela teve a ideia de gravar suas principais frases e bordões, para que ele continuasse a se expressar por meio desses áudios. Por causa dessa atitude, ele conseguiu se comunicar mantendo sua identidade e até mesmo trocar ideias no Whatsapp.

Desde então, Marina, 31, manteve a ideia de desenvolver uma alternativa de comunicação mais personalizada a pessoas que perdem a voz. Em geral, esses pacientes dependem de sintetizadores de voz, pranchetas com letras e frases e até de recursos bem complexos e caros, que identificam movimentos de rosto e de olho. Mas ainda que haja muita tecnologia envolvida, uma coisa segue igual: todos os meios de comunicação são bem pouco pessoais.

Nesse cenário, a proposta de Marina parecia bem promissora. O projeto só saiu do papel, no entanto, em um evento de inovação em saúde, realizado em um fim de semana de julho de 2016. Foi lá que Marina conheceu a fisioterapeuta Thais Romanelli, 36, que estava em sua equipe de trabalho. “Ela queria algo mais humanizado na área de voz e eu me lembrei de uma paciente que havia sofrido um AVC e só se comunicava pelos olhos”, conta Thais.

A proposta do evento era desenvolver um projeto para ser apresentado no domingo. Então, ambas foram visitar a professora e artista plástica Ana Amália Barbosa, 51, em busca de registros de sua voz. Encontram uma fita VHS com uma aula gravada. A partir desse material, extraíram frases e fonemas que poderiam ser aplicados a uma interface acessada por um clique, como o aparelho que Ana já usava, mas que não era nada pessoal.

O protótipo foi um sucesso e levou o prêmio máximo. A partir daí, nascia a start up SoulVox. O nome foi inspirado em um comentário de Ana ao ouvir a própria fala novamente: “A voz é realmente a janela da alma.”

Desenvolvimento

Além daquele prêmio, as empreendedoras já ganharam o Early Stage Desafio Pfizer, o Mulheres Tech in Sampa e o Big Hackaton ONU Campus Party 2017.

Insatisfeitas com suas carreiras, Marina e Thaís resolveram apostar totalmente na SoulVox. Investiram R$ 20 mil no projeto e começaram a desenvolver o produto com a ajuda de outros profissionais de saúde e de tecnologia.

Para encontrar pacientes e testar o protótipo, lançaram uma chamada nas redes sociais, em busca de pacientes que perderam a fala. Em 24 horas, receberam 150 e-mails. Essas pessoas fazem parte de um grupo de quase 2 milhões de brasileiros e quase 50 milhões de pessoas em todo o mundo que não conseguem falar, mas têm a parte cognitiva do cérebro totalmente preservada. São indivíduos que sofreram AVC, paralisia cerebral, tumores na cabeça e no pescoço ou doenças degenerativas, entre outros problemas.

Até o momento, o protótipo foi testado em 20 pacientes – o desenvolvimento do produto foi praticamente bancado pelas profissionais. As vozes foram colhidas de gravações antigas dos pacientes e tratadas em estúdio. A ideia é retirar os principais fonemas e frases, que são acionados em um software de interface muito amigável.

“Desenvolvemos o sintetizador que pode ser alimentado com a voz da pessoa ou com outra. Estamos conversando com pesquisadores, pacientes e fonoaudiólogos para chegar à melhor versão do produto”, conta Thaís.

Para aumentar a escala de produção, elas planejam buscar financiamento coletivo ou um fundo de apoio de programas públicos de fomento à pesquisa. A ideia é que o sintetizador custe cerca de R$ 500, quando estiver disponível para comercialização.

Doação de voz

“Algumas pessoas que nos procuravam não tinham gravação de voz ou tinham registros muito ruins e ficavam bem frustrados”, conta Thaís. Foi então que surgiu a ideia de receber vozes de pessoas saudáveis, que poderiam ser usadas pelos pacientes.

“A gente sabe que há vozes parecidas e pensamos que os pacientes poderiam escolher uma opção com que se identificasse”, explica Thaís.

O projeto já recebeu a doação de 900 vozes de crianças, jovens, adultos e idosos, por meio de cabines instaladas em eventos na cidade de São Paulo. Como montar esses espaços existe grande investimento - e a prioridade no momento é concluir o projeto do sintetizador -  a SoulVox deve disponibilizar um aplicativo de doação online a partir de outubro.

Primeiramente, é feito um cadastro rápido, com poucas informações do doador, como origem (para definir o sotaque), idade, sexo e altura – características que influenciam no timbre e na qualidade da voz. Em seguida, a pessoa grava algumas frases sem sentido, mas que abrigam os principais fonemas da língua portuguesa. São sentenças como “Mamãe namora um anjo” e “Papai trouxe pipoca quente”.

A amostra de vozes é apresentada para o paciente, que escolhe aquela que mais se assemelha à sua forma de falar. Então, o doador é contatado novamente para gravar cerca de cem frases e algumas letras que trazem todos os fonemas da língua. A partir desse material, é possível construir qualquer palavra em português.

Ainda não há previsão para a venda do sintetizador. Além da questão financeira, a sensibilidade da SoulVox com a causa parece não ter fim. Há ainda outro ponto importante, que requer ajustes: entonação de voz. “ Os sintetizadores não passam bem a emoção da voz. Estamos estudando como incluir a entonação em nosso software”, diz Thaís.