30 de agosto 2017

Islândia, o país da igualdade de gênero

Islandia (1)
30 agosto 2017

Islândia, o país da igualdade de gênero

A história explica por que a pequena ilha nórdica está tão perto de atingir a paridade plena entre homens e mulheres
Texto por: Julliane Silveira

Para marcar o dia das mulheres de 2017, a Islândia anunciou que suas empresas públicas e privadas seriam obrigadas a provar que oferecem salários iguais para as mesmas funções, independentemente de sexo, etnia, orientação sexual e nacionalidade. No mesmo dia, o país assumiu o compromisso de erradicar as diferenças salariais entre homens e mulheres até 2022.

Não que a Islândia seja iniciante no assunto. Faz tempo que a ilha nórdica figura no topo da maioria dos rankings sobre igualdade de gênero. Está há oito anos em primeiro lugar no relatório do Fórum Econômico Mundial e sempre aparece entre os primeiros na lista da revista “The Economist”.

Esses levantamentos consideram o perfil da população em várias áreas, como participação econômica, acesso a saúde e educação e empoderamento político.

Com 330 mil habitantes, a Islândia tem 80% de suas mulheres no mercado de trabalho – a média europeia é de 59%. A alta proporção não impede que a taxa de natalidade do país seja uma das mais altas da Europa, com dois filhos por mulher em média. A razão são as creches públicas, com vagas disponíveis para todas as crianças.

Um sistema de cotas faz com que sejam mulheres quase metade dos funcionários de instituições públicas e de empresas com mais de 50 funcionários. Elas são maioria nas universidades (65%) e ocupam 30 das 63 vagas do Parlamento.

Foi lá que uma mulher se tornou chefe de estado por meio de eleições diretas pela primeira vez na história. Divorciada e mãe solteira, Vigdís Finnbogadóttir assumiu o cargo em 1980 e só deixou a presidência em 1996, depois de três reeleições.

Oportunidades

Como a Islândia consegue estar tão perto de atingir a igualdade plena entre homens e mulheres? A explicação está na história do país.

Na ilha gelada, por séculos os homens foram responsáveis por cruzar os mares, enquanto as esposas ficavam em terra firme e assumiam todos os papéis. Eram agricultoras, arquitetas, caçadoras e responsáveis pelas finanças da família. Foi um cenário propício para que as mulheres entendessem a importância de seu trabalho para a prosperidade do país.

Com tanta força, elas somam conquistas desde 1850, quando a Islândia se tornou o primeiro país a garantir igualdade incondicional de gênero no recebimento de heranças. Lá, as mulheres passaram a ter direito ao voto em 1915, 17 anos antes das brasileiras e à frente das cidadãs do Reino Unido e dos Estados Unidos.

O que não foi suficiente para as islandesas. Ao longo do século 20, seus salários continuavam mais baixos do que os dos homens e elas sentiam que faltava reconhecimento de seu papel na sociedade.

Até que elas não aguentaram mais. Em 24 de outubro de 1975, 90% das mulheres do país fizeram protestos e atos públicos contra as diferenças de gênero. Não foram ao trabalho, não fizeram tarefas domésticas e saíram às ruas para mostrar sua importância na sociedade.

Esse dia é considerado o ponto de partida para aproximar ainda mais as oportunidades para homens e mulheres no país. Poucos meses depois, por exemplo, as islandesas conseguiram o direito à licença-maternidade.

Hoje, o afastamento dura nove meses – três para cada cônjuge e outros três meses que podem ser divididos entre o casal. A iniciativa diminui o preconceito na contratação, já que homens e mulheres ficarão ausentes do trabalho pelo mesmo período, caso tenham um filho.

Novas conquistas

Os passos são grandes no país, mas ainda há mais a fazer. Estima-se que o salário das islandesas seja até 17% menor do que o de homens que exercem as mesmas funções.

A partir dessa diferença, um cálculo realizado por sindicatos da Islândia sugere que elas trabalham de graça todos os dias a partir das 14h38.

Esse é o mote dos protestos que ainda ocorrem no país. Um dia por ano, as mulheres param de trabalhar no horário estimado pelas entidades trabalhistas. Em 2005, por exemplo, saíram do trabalho às 14h08. Em 2008, às 14h25.

Elas esperam cumprir todos os expedientes do ano até 2022.