03 de janeiro 2018

Instituto Projeto Sonhar

Projeto Sonhar
03 janeiro 2018

Instituto Projeto Sonhar

Ex-dependente químico está à frente de organização que resgata crianças e adolescentes do mundo das drogas
Texto por: Julliane Silveira

A história de Marcos Lopes, 34, tinha tudo para ser diferente. Foi expulso da escola aos 14 anos, depois de roubar a cantina com um revólver de brinquedo. Até os 17 anos, viveu em uma favela no Rio de Janeiro (RJ), onde aprendeu as artimanhas do tráfico de drogas. De volta à São Paulo (SP), retornou ao Parque Santo Antônio, um dos bairros mais violentos da cidade, para gerenciar um ponto de drogas.

Nessa época, viu morrer sua melhor amiga, vítima do sistema ao qual pertencia. Resolveu procurar ajuda em uma ONG que acolhe crianças e jovens em situação de vulnerabilidade e deixou o crime. Trabalhou no local por algum tempo e de lá foi atuar em outra ONG, onde deu os primeiros passos para criar o Instituto Projeto Sonhar.

“Em uma visita para o projeto onde eu trabalhava, um rapaz apontou um revólver na minha cabeça e perguntou o que eu estava fazendo na quebrada dele. Dias depois, voltei lá para conversar com ele, perguntar se ele tinha um sonho. Ele me disse que não dormia havia dois dias, que não conseguia sonhar”, lembra Marcos. Esse foi o primeiro menino que resgatou do tráfico e da criminalidade.

Marcos levou mais 26 pessoas para a ONG onde trabalhava, que encerrou as atividades em 2012. Foi quando precisou criar um espaço próprio para atender esses jovens. “Alugamos uma casa para receber essas pessoas e assim nasceu o Instituto Projeto Sonhar”, diz Marcos.

O Projeto Sonhar é uma instituição não governamental que tem como missão resgatar jovens e adolescentes de áreas de risco, retirando-os da dependência química e do crime, e procurando entender a situação de suas famílias, para ajudá-los de forma integral. Isso é feito por meio do acesso à cultura e cidadania, aproximando-os da escola e da família e motivando-os a ter sonhos e lutar por eles. A proposta é ampliar possibilidades de inserção sociocultural e criar caminhos para conquista de autonomia.

Novo foco

Durante esses cinco anos de experiência com os envolvidos no tráfico, a equipe percebeu algo em comum nas histórias que ouvia: a maioria dos atendidos havia passado por abuso sexual, moral ou psicológico. “Vimos que, em vez de tratar o problema, precisávamos cuidar da causa”, analisa Marcos.

Então, o foco do Instituto Projeto Sonhar foi ampliado. Além de atender pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, passou a acolher famílias em situação de vulnerabilidade, para evitar que as crianças pudessem encontrar na dependência química uma solução para seus problemas.

Hoje a organização atende 27 famílias de crianças do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, que foram encaminhadas pelo Conselho Tutelar, pela escola ou por outras ONGs.

A criança é acolhida pelo educador social, depois recebe uma visita em casa, para que o profissional entenda a fundo o que está acontecendo. É feita uma triagem com psiquiatra e psicólogo, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo e, então, as vítimas de violência passam por um processo terapêutico e pela reconstrução de vínculos entre os membros da família.

“Nesse contexto, tentamos entender o que levou a criança a ser violentada e essa informação aparece durante o acompanhamento”, afirma Marcos. O Instituto também identifica os principais problemas da família, para dar suporte e apoio: saúde, educação, renda, cidadania, habitação são os principais pilares para a reconstrução da vida da criança. “Às vezes tem um pai sem documentação. Como ele vai conseguir um emprego sem RG? Fazemos encaminhamentos para as crianças voltarem à escola e para os pais conseguirem um emprego, se necessário”, explica Marcos.

O projeto vive de doações de pessoas físicas e de empresas. Os patrocinadores podem visitar o projeto e conversar com os educadores. Também recebem mensalmente o plano de desenvolvimento do instituto.

“Para mim, tocar o instituto é uma forma de transcendência incrível. O resumo do projeto é: fazemos para eles o que já fizeram para nós”, conta Marcos.