22 de dezembro 2017

Instituto Papai

instituto papai
22 dezembro 2017

Instituto Papai

Conheça a ONG pernambucana que se dedica a discutir e atuar na construção social da paternidade
Texto por: Debora Stevaux

De acordo um estudo divulgado neste ano pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as brasileiras trabalham, em média, 7,5 horas semanais a mais que os homens por causa das múltiplas jornadas, além do trabalho fora de casa. Ainda de acordo com a mesma pesquisa, 90% das mulheres afirmaram realizar atividades “do lar”, enquanto somente metade dos homens revelaram ajudar com os afazeres domésticos. Isso reflete que, mesmo que vivamos no século 21, quando se discute abertamente sobre a divisão de papéis e igualdade de gênero, estamos longe de alcançar esses conceitos abstratos.

Enquanto a paternidade ainda é vista como facultativa por alguns, a maternidade ainda é obrigatória. Não é incomum ouvir pessoas estranhando ou achando ultrajante uma mulher que optou por não seguir os tradicionais rumos da maternidade. Você certamente já ouviu falar de instinto materno, mas já se perguntou por que nunca ouviu o termo “instinto paterno”?

Foi exatamente essa questão que inspirou o psicólogo baiano Benedito Medrado, 45, a criar o Instituto Papai. A entidade, localizada na comunidade da Várzea, em Recife (PE), recebe há duas décadas oficinas, ações e trabalhos de conscientização sobre diversos temas que abordam a igualdade de gênero sob o espectro do papel do homem como pai e ser atuante na luta contra a violência doméstica.

Ao lado de Jorge Lyra, 49, com quem é casado desde 1993, Benedito percebeu que as pesquisas realizadas no campo do gênero e da sexualidade da questão masculina eram temas muito recorrentes na graduação. Mas ambos sentiram a necessidade de fazer algo além da produção de artigos acadêmicos sobre o tema. “Passamos a desenvolver um trabalho com homens a partir de uma perspectiva feminista de gênero, ou seja, que questionasse o fato de as práticas masculinas terem relação direta com a forma de socialização dos homens. Então, nos debruçamos sobre a imagem masculina veiculada na mídia e sobre os conceitos tradicionais de paternidade com o objetivo de discutir o lugar dos homens no debate sobre gênero e sexualidade, a partir de uma perspectiva transformadora”, explica Benedito.

Pela urgência de modificar a realidade à sua volta, o primeiro programa idealizado pelo Instituto dedicou-se a trabalhar com pais jovens e adolescentes. “Percebemos que na comunidade não havia nenhuma ação dirigida à essa população e a gravidez na adolescência era colocada quase que como um sinônimo de maternidade”, relembra. A dupla fundou um programa de apoio ao pai, que depois se ampliou em outras temáticas como violência contra a mulher e a participação dos homens, além de promover discussões sobre diversidade sexual e sobre a saúde do homem. Em duas décadas de história, o que se manteve foi a perspectiva crítica em relação às masculinidades tóxicas e uma ressignificação simbólica do cuidado.

Menino não brinca de boneca

Para o psicólogo Benedito, a problemática que envolve a paternidade ausente ou facultativa se deve ao fato de que os homens são criados e educados não para cuidar, mas para serem cuidados. Já as mulheres são socializadas de forma compulsória e obrigatória ao cuidado, Muitas vezes elas não têm opção e precisam lutar contra esse mandatário que diz que para ser mulher é necessário ser mãe, que atrela o feminino à condição de cuidadora. “De algum modo, da mesma forma que a socialização feminina impulsiona as mulheres à experiência do cuidado como obrigação, os homens nem sequer cuidam  dos outros, quanto mais de si. Então, por isso, a dimensão do cuidado é fundamental, não só sob o espectro da paternidade, mas do cuidado com o outro de maneira geral”, esclarece Benedito.

A ONG atende a população do bairro da Várzea por meio de oficinas pontuais e outros projetos realizados tanto na sede quanto em praças e outros espaços públicos. O Instituto Papai atua em duas vertentes: a primeira é de trabalho direto com a população, com o objetivo de sensibilizar os homens a partir das próprias demandas da comunidade e do diálogo, fundamental para a construção de estratégias.

A segunda é de pesquisas sobre gênero, realizadas em parceria com o Núcleo Feminista De Pesquisa em Gênero e Masculinidades, da Universidade Federal de Pernambuco (GEMA). “Essas duas linhas têm por base uma atuação forte, sempre pensando a partir de campanhas e ações que buscam uma ressignificação simbólica. Isso sem deixar de lado uma atuação política a partir das intervenções de rede e do que definimos como controle social sobre a ação do Estado, isto é, a revisão de legislação, trabalhar coletivamente para a promoção e a garantia de direitos”, conta.

Benedito não é pai.  Mas, para ele, não é necessário ser pai para poder discutir sobre paternidade, para “não reproduzir aquilo que por muitas vezes foi considerado um mito, um tabu e ao mesmo tempo, uma obrigação para as mulheres”. De vinte anos para cá, muita coisa mudou, mas ainda há muitas transformações necessárias para que se alcance, minimamente, a igualdade de gênero, principal bandeira defendida pelo Instituto. “Felizmente, hoje, é mais comum ver outros exemplos mostrados na mídia, que ainda é um dos maiores referenciais culturais e sociais para os brasileiros. As redes sociais também têm um papel fundamental no que diz respeito a propor e ampliar as discussões sobre o assunto e é dessa forma que devemos caminhar, buscando transformações das práticas enraizadas há séculos”, pontua.

As sementes estão plantadas

As informações fornecidas pelo instituto ajudaram muitos homens a exercer seus direitos nesses 20 anos. Foi o caso de um homem que precisou insistir muito para acompanhar a mulher no parto, mesmo sendo um direito previsto na Constituição Brasileira. “Ele usou o material educativo desenvolvido por nós e se defendeu do hospital que não queria permitir, após assistir a uma entrevista que falava exatamente sobre o assunto. Nós os acompanhamos na maternidade e ele acabou conseguindo assistir o parto do filho”, relembra.

O rapaz não se contentou em apenas assistir ao nascimento do próprio filho como também agiu para tentar mudar a situação de outros futuros pais que estavam, na mesma sala de espera, sem a oportunidade de assistir a vinda de seus pequenos ao mundo. “Ele ficou realmente mobilizado com aquilo, e percebeu que não adiantava só mudar a vida dele, que era necessário que os homens se envolvam também em ações que promovam mudanças do ponto de vista de gênero. Pegou nosso material e saiu distribuindo para todas as pessoas que estavam na sala de espera, inclusive para o segurança. Isso me mostrou que somos apenas uma semente, que pode ter várias ramificações e gerar  mudanças semelhantes”, relata.