25 de setembro 2017

Igualdade nas cidades

Igualdade nas cidades (1)
25 setembro 2017

Igualdade nas cidades

Especialistas de todo o mundo estudam estratégias para que o local em que habitamos seja mais acolhedor
Texto por: Livia Deodato

O modo como mulheres e homens usufruem a cidade é diferente. E isso diz respeito a diversas questões, desde a mobilidade até a segurança pública (ou a falta dela). Um número cada vez maior de pesquisadores e especialistas de diversas partes do mundo vêm se dedicando a pensar em formas alternativas de arquitetura e planejamento urbano, que visem a igualdade de gênero e tornem as cidades mais acolhedoras. O objetivo é atender às demandas principalmente das mulheres, que têm de enfrentar problemas específicos, como medo de caminhar em ruas mal iluminadas à noite ou ainda ter de se locomover num curto espaço de tempo entre casa, escola e trabalho.
Em São Paulo, a engenheira e mestre pela Poli-USP Haydée Svab avaliou pesquisas “origem-destino” publicadas pelo metrô paulistano entre 1977 e 2007 (em intervalos de dez anos) e, a partir delas, chegou a algumas conclusões. O fato de as mulheres sempre terem andado mais a pé dos que os homens e, desde o ano 2000, usarem mais o transporte coletivo estão entre algumas das descobertas que causaram surpresa e que ela desenvolveu em sua pesquisa “Evolução dos Padrões de Deslocamento na Região Metropolitana de São Paulo: A Necessidade de uma Análise de Gênero”.
Outro dado interessante relatado por ela é que os homens sempre usaram mais o carro, enquanto as mulheres se desdobram entre diversos modais, como ônibus, metrô, carro e bicicleta. Isso porque são elas que, na maioria das vezes, precisam dar conta de cuidar da casa, dos filhos e das pessoas mais idosas ou com problemas de saúde, fazer compras e trabalhar.
Em Viena, na Áustria, uma série de pesquisas em torno desse assunto vem sendo desenvolvida especialmente a partir da década de 1990. Entre os projetos mais interessantes que surgiram está o Women-Work-City, conjuntos habitacionais cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida das mulheres, principalmente daquelas que têm filhos. Dentro desses conjuntos, há uma área com grama para as crianças brincarem, além de uma escola infantil, uma farmácia e um consultório médico. Eles foram criados em locais estratégicos, próximos a estações de metrô, pontos de ônibus e principais vias da cidade.

Igualdade de gênero significa mais mulheres na liderança

Faz toda diferença ter mais mulheres que participem dessa discussão. A cidade só vai se tornar mais receptiva e segura para todos quando as necessidades e preocupações das mulheres forem ouvidas. Isso significa atender às expectativas de cidade ideal de mulheres das mais diversas classes sociais, que morem desde o centro até a periferia. Afinal, os problemas enfrentados podem ser bem diferentes de acordo com a região.
Nesse processo, faz parte também sensibilizar os homens, que dificilmente questionam alguns de seus privilégios. Um encontro ocorrido em fevereiro chamado Cities for Everyone (“Cidades para Todos”, na tradução literal), idealizado pela UP[W]IT em parceria com o Coletivo Mola, discutiu o planejamento de cidades a partir de uma perspectiva de gênero com o auxílio da tecnologia. A partir dos principais desafios enfrentados pelas mulheres no uso dos espaços urbanos como, por exemplo, a violência e o assédio constantes, os participantes trouxeram ideias para tornar as cidades mais seguras e acessíveis para todos. Entre as boas ideias dadas estão a melhoria da iluminação pública, a extensão do horário de funcionamento do transporte público e até mesmo do comércio, e a substituição dos muros dos prédios por espaços que sejam comerciais e culturais no térreo.
Aplicativos que apontam e ajudam a mapear incidências de assédio em determinados locais da cidade, como o Safecity, o Nina e o Safetipin, também ajudam a devolver tranquilidade e segurança para mulheres, bem como campanhas como a Chega de Fiu Fiu, da ONG Think Olga, que alerta para a urgência dessa discussão e também mapeia casos de assédio e violência de gênero.