02 de outubro 2017

Humano

HUmano
02 outubro 2017

Humano

Documentário costura ideias e histórias de mais de 2.000 pessoas de 60 países
Texto por: Julliane Silveira

O que os seres humanos têm em comum?  E o que os diferencia tanto?  Em buscas dessas respostas (e de muitas outras), o fotojornalista francês Yann Arthus-Bertrand viajou por 60 países durante três anos.

O documentarista se encontrou com mais de 2.000 pessoas, para quem fez as mesmas 40 perguntas sobre temas densos, como religião, família, fracassos e ambições.
O resultado está no documentário "Humano". O filme é um mosaico de depoimentos honestos e sensíveis sobre temas como felicidade, amor, homofobia, guerra, pobreza e trabalho. Na versão final do filme, disponível em serviços de streaming, nenhum dos personagens é identificado. A proposta é trazer mais força às palavras do que à origem de cada pessoa, segundo o diretor.

De refugiados a presos, de crianças a idosos, o documentário apresenta realidades cruamente distintas e traz cenas pungentes do planeta Terra. As imagens aéreas ganham força em slow motion, que torna mais impressionantes situações de pobreza extrema no Haiti e na Índia e paisagens de desertos, mares, montanhas, festas populares e cidades.

"Eu sonhei com um filme em que o poder das palavras poderia ressoar na beleza do mundo. Colocando as doenças da humanidade no coração do meu trabalho, eu fiz algumas escolhas. Escolhas políticas. Mas as pessoas falaram de tudo: das dificuldades e do amor e da felicidade. A riqueza da palavra humana está no coração de 'Humano'", disse Arthus-Bertrand à época do lançamento.

Confira algumas dessas palavras aqui.

Felicidade

Há muitas formas de felicidade, mas ao mesmo tempo só tem uma: você está vivo, logo é feliz. (Elena - Rússia)

“Se Deus me dissesse hoje que daria minhas pernas de volta e me tiraria o que aprendi nos últimos 13 anos, eu diria a Ele: Fique com as pernas. (Bruno - Inglaterra)

Guerra

A garotinha ficou viva. Mas algo morreu em nós dois. Quando se dispara em uma criança, mata-se algo nela, embora eu não saiba o quê. Quando um adulto dispara numa criança, mata algo em si. Algo morre e outra coisa tem de nascer. (Zohar - Israel)

Não tenho medo de morrer pela Síria. Não tenho medo de morrer pelo meu pai. Se ele não estivesse morto, eu teria medo. Mas já perdi o medo. Até de ser degolado ou morrer numa explosão. O importante é eu reencontrar meu pai ou voltar para a Síria. (Yossef – Jordânia)

A gente só queria matar aquele cara. Tínhamos ouvido os gritos do meu amigo. Corremos o mais rápido possível. Cheios de ódio. A gente queria fazer de tudo para pegar o cara que feriu nosso amigo. De repente chegamos a uma clareira e eu me toquei daquele céu azul. Tinha um senhor idoso numa veste branca com uma criança, arando a terra. Aquilo me devolveu à realidade. O que estou fazendo? Sou um ser humano, e não um instrumento de vingança. (pessoa não identificada)

Amor

Estou casada há 18 anos. Meu marido nunca me disse “eu te amo”, mas sinto que me ama. Às vezes o olhar diz mais do que as palavras. Também me parecia impossível dividir a cama com alguém todos os dias por 20 anos. Mas eu penso: Ontem eu o amava menos. Hoje, é amor de verdade. Aí se passa um ano e o amor fica mais forte. (pessoa não identificada)

O momento mágico que tive com meu avô foi logo depois da morte da minha avó. Eu queria ir vê-lo. Ele estava sofrendo. Ele tinha vivido com ela por 65 anos. Fui lá e disse: Vovô, como você está? Ele disse: Você sabia que por 4 dólares eu posso andar por toda a cidade? E eu disse: Legal, vovô. E ele: Fui até a mercearia e disse à mulher do balcão que tinha uma lista e ela teria de me ajudar. Minha mulher acabara de se mudar para o céu. E eu disse: Você sempre me ajuda a enxergar a metade do copo cheio. Então ele se recostou, me olhou nos olhos e disse: É um copo lindo.(John – Estados Unidos)

Para ser sincero, nunca tive nenhuma (namorada). Não tenho. Eu ia às festas, mas não ia aos bailes porque nunca soube dançar. Tentei algumas vezes e nunca deu certo. Então desisti. (Camille - França)

Mulheres

Eu não teria gostado de ter nascido homem, porque os homens têm vida fácil. Demais. E uma vida fácil é entediante. É uma vida fácil do ponto de vista profissional e talvez até mais para capturar uma presa sentimental. Para a mulher é tudo mais difícil. Mas tem também o prazer de atingir metas apesar das dificuldades. Sem dúvida prefiro ser mulher. (Maria - Itália)

Minha mulher não pode dizer não. Tem de ser sempre sim ou não tem relação. Minha mulher é demais. É realmente única, é incrível! Ela foi educada para idolatrar seu marido. Isso não significa que não possa falar ou me dar conselhos. Mas, na minha casa, quem manda é o homem. (Frezno – Estados Unidos)

Estou presa porque fiz um aborto. Eu não poderia continuar estudando porque estava em internato. E eu não queria largar os estudos. Eu ia parar muito tempo com a gravidez, o parto, a amamentação. Estava fora de cogitação, então decidi abortar. Estou contente hoje porque amanhã saio da prisão e vou voltar a estudar e vou trabalhar. E talvez um dia eu tenha um filho e vou ser como as outras pessoas. (Chyntia – Ruanda)

Homofobia

Eu sou lésbica. Nunca disse nada para minha família. Um dia perguntei ao meu pai o que é gay e ele me disse que era “menina que ama menina e vai para o inferno”. E eu disse ok e me tranquei no meu quarto, sem nenhum ruído, e chorei embaixo do travesseiro. E eu rezava para Deus todos os dias para gostar de meninos e ser hétero, pois eu sabia que gostava de meninas. (Katie – Estados Unidos)

Um amigo, homossexual como eu, foi enterrado no cemitério de seu vilarejo. Mas o imame do bairro reuniu os membros para desenterrar o corpo. Eles tiraram, amarraram e arrastaram pelo bairro. A mídia registrou tudo. A família recuperou o corpo e enterrou novamente. E o corpo foi desenterrado mais três vezes. Finalmente, o corpo foi enterrado no quintal do pai. Porque dizem que na religião muçulmana não se pode velar o corpo de um homossexual, não se pode enterrar no cemitério muçulmano. (Djamil - Senegal)

Sou libanês e gay. Não tenho direitos lá e não tenho direito no mundo árabe em geral. O que posso fazer e já comecei é me mostrar ainda mais. Meus pais sabem, meus amigos e colegas de trabalho sabem. Eu quero encorajar outras pessoas como eu, que não têm nada a perder. Porque eu tenho meu salário, minha mãe sabe e sempre me mostrou que me amará de qualquer jeito. Meu pai e meus amigos também. Eu acho que, se você não contar para seus pais, as outras mães não saberão que é normal ser gay. (Noureddine – Irlanda)

Pobreza

Quando não tem mais o que comer, vamos catar grãos de arroz em um buraco de rato. Quando a gente acha um pouco, a gente coloca num cesto. Só vai para casa quando enche um saco. No dia seguinte, cozinhamos o arroz e vamos juntar mais. (Lalmati – Índia)

A pobreza me entristece, por causa da injustiça. Porque, se todo mundo tivesse pelo menos alimento em casa, podia raciocinar. Raciocínio é inteligência, poderia ser pobre, morar em barraco, mas teria inteligência para sair dali. (Zica – Brasil)

Família

Quem eu não poderia perdoar seria minha mãe. Porque ter me vendido não foi uma boa ideia. Se ela teve um problema, deveria ter aceitado. Porque somos seus filhos. (Ricardo – México)

Durante toda a minha vida eu quis ter um filho. Eu tinha filhas e queria um filho que me ajudasse fosse meu braço direito. Meu filho que dá muita coisa somente com o olhar. Quando fazemos algum trabalho eu tento explicar as coisas para ele e sempre digo o seguinte: Dizem que quando Deus deu um filho assim a uma certa família, os anjos perguntaram: porque dá um filho deficiente a esta família? Deus disse: Eu escolhi essa família para que ensinem a essa criança que eu existo, que eu estou em tudo, que estou nas folhas e no vento. Digo ao meu filho o tempo todo: Isso é uma folha. Isso aqui são flores. (Evgueny - Rússia)

Imigração

Eu estava com muito medo porque não via nada além da água. E o barco não era de qualidade. Éramos 110 pessoas no barco sem nenhum conforto. Nada para comer nem beber. E todos sentado naquela balsa. Destruiu meu corpo, foi muito duro para mim. Quando vi os italianos que foram nos resgatar eu agradeci a Deus, eu sabia que estava salvo. (Saikou -Itália)

Estou vivendo na selva de Calais. E a polícia vem e diz: Você tem que deixar a selva. Eu pergunto: Mas vou para onde? Mostre para onde e nós vamos. Eles dizem que temos de voltar para nosso país. Eu digo: Que país? Eu não tenho país. Aquilo é um campo de extermínio onde só se mata e se briga. Não é um país. O Afeganistão não é mais um país, 37 nações foram controlar aquele país, mas eles não podem controlar aquela gente. Como você pode me mandar de volta para aquele país? Eu perdi a minha família naquele país. Não quero nada de vocês. Não preciso de ajuda. Só me deixem viver. (Fazulheman - França)

Sentido da vida 

Eu tenho 15 anos e estou em prisão perpétua. Qual poderia ser o sentido da minha vida? (Jonathan – EUA)

A vida é como carregar a mensagem da criança que você foi um dia pro velho que você vai ser amanhã. E tentar não deixar essa mensagem se perder, se desfazer. (Argus - Brasil)

Trabalho

Muitas coisas são proibidas na fábrica: é proibido falar, é proibido falar ao telefone. Para ir ao banheiro, temos de pedir ao gerente. Temos uma cota horária e eles checam. Se não cumprimos, eles reclamam e às vezes nos insultam. É insuportável. Estou exausta. Não aguento mais. Mas não tenho escolha. (Yu-Qian – China)

Perder o emprego foi um choque enorme. E não achar outro foi um choque ainda maior. Fazia 27 anos que eu trabalhava. Quando tive de voltar para a casa da minha mãe, me senti acima de tudo humilhado. (Constantinos – Grécia)

Dinheiro

Eu sei que quanto mais dinheiro eu tenho menos feliz eu sou. Ainda assim, sei que quero mais. Gosto de adquirir coisas, mas essas coisas só me fazem feliz por um curto período. E aí tenho que enfrentar minhas dificuldades familiares e eu não sei como fazer uma pessoa deprimida ser feliz. Fico frustrado porque a cura não existe e não posso pegar uma varinha de condão e fazer o meu filho se sentir melhor. (Robert - Canadá)

Quando eu compro algo ou você, não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para conseguir esse dinheiro. Mas com uma diferença: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável gastar a vida para perder a liberdade. (José Mujica -Uruguai)