22 de dezembro 2017

Humanizar o uniforme

humanizar o uniforme
22 dezembro 2017

Humanizar o uniforme

A fonoaudióloga forense Mônica Azzariti ensina comunicação não violenta aos policiais militares do Rio de Janeiro
Texto por: Debora Stevaux

Em 2016, 146 policiais foram assassinados no Rio de Janeiro. Antes de serem estatística, são homens e mulheres que tinham família, quiçá filhos e esposas. O número, no entanto, eleva o estado da região sudeste a uma triste primeira colocação: o estado contabiliza mais mortes de PMs do que os cinco lugares mais violentos do mundo, que, juntos, somam cem fatalidades.

Qual é a causa de tanta violência? A resposta não é simples, tampouco pode ser pensada sob apenas uma ótica. As possíveis resoluções para o problema também envolvem argumentos e fatores bem complexos.

Foi por um misto de acaso com a vontade de promover mudanças positivas no meio em que vive que a fonoaudióloga forense Mônica Azzariti, 45, deu o pontapé inicial em seu projeto. Há três anos, a carioca ministra aulas de comunicação não violenta para os soldados das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas comunidades do Rio. Num trabalho de formiguinha que já atendeu cerca de 6.000 homens, Mônica ensina como a abordagem, que é calcada na observação e no diálogo, pode ser revolucionária e tornar as operações e o contato dos profissionais com a população mais humanizado.

O projeto faz parte da iniciativa Polícia de Proximidade, que visa aproximar moradores da comunidade dos policiais. Nesta entrevista, Mônica conta como é seu trabalho e fala dos desafios de transpor o estereótipo de violência e agressão frequentemente vinculado aos policiais brasileiros.

Quando você descobriu que gostaria de trabalhar com comunicação não violenta?
Em 2014 eu dava instruções no BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e o comandante, naquela época, foi transferido para a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP). Então, ele me pediu ajuda. "Professora, a senhora me ajuda? Nós precisamos de uma instrução diferente da que a senhora dá no BOPE. Precisamos de uma instrução que ajude o policial das UPPs a lidar com os conflitos diários com a comunidade. A situação é muito difícil". Então eu fiquei alguns meses pensando nisso, em como poderia ajudar. Buscando sobre o assunto, descobri o livro do professor norte-americano Marshall B. Rosenberg, “Comunicação Não Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais”. E logo pensei: é isso! Devo ter lido o livro umas quatro vezes. Mas mesmo assim senti a necessidade de ir atrás de pesquisas em seu site e complementar com outras leituras que me fizeram ter a certeza de que esse era o melhor caminho.

Como levou esse conceito à realidade da polícia?
Fiz uma adaptação para o contexto policial, para tornar a instrução mais próxima da realidade deles. Apresentei ao comandante e ele gostou muito da ideia. Em abril de 2015, marcou a primeira palestra, para que eu apresentasse o conteúdo aos comandantes das UPPs e oficiais envolvidos no projeto. As instruções começaram e não pararam mais: foram quase 6.000 homens em dois anos. A coisa extrapolou as UPPs e hoje ministro aulas para o corpo efetivo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, composto por mais de 40.000 homens, mas ainda tenho muito caminho pela frente.

Como funciona a metodologia aplicada para os policiais?
Cada aula tem duas horas de duração. Eu ensino o método de forma bem prática e dou exemplos da rotina deles. As turmas têm entre 50 e 60 alunos. Dou aula sempre que me pedem, mas não há uma rotina. Depende da possibilidade de retirá-los da rua. Mas tenho dado aula também para as turmas que estão se formando. Isso é muito bacana. Eles já saem da escola com esse conteúdo.

Por que é importante que a abordagem policial não seja violenta e de que forma a violência na forma de se comunicar é capaz de gerar mais violência?
Eu acredito no meu trabalho, de que uma comunicação não violenta é capaz de evitar e resolver conflitos. Todos nós estamos suscetíveis ao estresse diariamente. Multiplique pelo estresse de trabalhar em condições inapropriadas e com baixos salários, quando recebem. Agora some esse estresse ao medo de perder a própria vida. É uma profissão difícil e admirável. O policial é um ser humano e esse estresse todo pode afetar sua comunicação e torná-la mais ríspida e endurecida. Quando você chega emocionalmente alterado em uma situação, seja por qual motivo for, isso pode impactar de forma negativa esse processo de interação que está se iniciando. E é possível que o interlocutor reaja da mesma maneira.

Você acredita que a comunicação não violenta pode ser decisiva para a verbalização dos sentimentos pelos homens e a desconstrução da masculinidade tóxica?
Eu digo para eles que, ao verbalizar sentimentos, eles estão ajudando a humanizar o uniforme. Muitas vezes, a sociedade vê o policial como uma figura inanimada, sem angústias, medos, família, alguém que está ali e pronto. Não vi nenhum artista fazer um show em homenagem aos policiais que foram assassinados. Essa imagem de "fortaleza de farda" é irreal. Muitos são pais de família, maridos dedicados e homens delicados, que vestem aquela roupa. Eles precisam mostrar isso.

De que forma a violência afeta as famílias daqueles que entram diariamente em combate?
É enorme o número de policiais que cometem suicídio. Essa é uma questão que precisa sair da gaveta. O dia a dia é extremamente estressante para todos. Não sou casada com um policial e meus filhos, que têm 25, 23 e 18 anos, não são policiais, mas eu fico nervosa e arrasada quando tenho notícia da morte de um policial. Porque acho que posso ter uma pequena ideia de como uma mãe ou uma esposa se sente toda vez que seu filho ou marido vai trabalhar. Sem falar do perigo que eles correm até mesmo na folga. Policiais já foram mortos apenas por terem sido reconhecidos como policiais, saindo da igreja num domingo. Isso é triste demais. Com certeza todo esse estresse traumático vai afetar o desenvolvimento das crianças.