12 de julho 2017

Homem na agulha

Homem na Agulha2
12 julho 2017

Homem na agulha

Artista plástico se destaca com projeto que ensina homens a fazer crochê
Texto por: Livia Deodato

Thiago Rezende poderia ter inventado uma história romanceada em torno do seu aprendizado com o crochê. Poderia ter dito que sua avó lhe ensinou todos os segredos da arte de fazer tramas com uma só agulha. Ou que sua mãe lhe mostrou como fazer um par de meias quentinhas para enfrentar o inverno.

A verdade é que Thiago aprendeu os pontos básicos assistindo a diversos vídeos no YouTube. “Sempre fui meio autodidata, gosto de ir fuçando e experimentando as coisas."

Sua avó foi, sim, uma inspiração. Trabalhava diariamente no quartinho de costura de sua casa, no Butantã, bairro da zona oeste de São Paulo. E o pequeno Thiago sempre a observava de longe, principalmente durante as férias. Ele não imaginava que aquele pequeno universo de fios e tecidos, com que sua avó estava acostumada a lidar, se transformaria em seu principal trabalho anos depois.

No mesmo ano em que a avó faleceu, Thiago entrou para a faculdade de artes plásticas. Quando entrou em contato com obras de artistas como Leonilson e Bispo do Rosário, especialmente com os bordados, ele se deu conta da sensibilidade latente que existe em todos os gêneros e que pode ser explorada com linha e agulha. “Os trabalhos deles são pequenos, delicados e me chamaram bastante a atenção por eles serem homens. Eu me identifiquei rapidamente”, conta.

Não apenas para mulheres

O primeiro trabalho manual que Thiago fez com fios foi um bordado bem grande no lençol de sua avó. Um trabalho bem simbólico, que ele guarda até hoje. “Mas eu não tinha técnica nenhuma, não conhecia os pontos. Guardo-o com carinho, mas o resultado é bem tosco”, diz, aos risos.

Do bordado passou para o crochê – e foi aí que se encantou. O fato de ver rapidamente a peça crescer e, a partir dela, ser capaz de criar o que a imaginação permitisse fez com que Thiago transformasse o crochê em sua arte, meio de expressão e trabalho.

A base de sua carreira foi construída a partir de uma exposição de artesanato que teve curadoria de Renato Imbroisi no Sesc Pompeia, em 2012. Artesãs de todo o Brasil vieram expor suas obras e dar oficinas de suas técnicas. Naquela época, Thiago era supervisor da equipe educativa da exposição e sentiu que os visitantes poderiam se envolver mais com aquelas artes expostas se a eles fossem ensinadas algumas das técnicas.

Resolveu, então, junto aos demais supervisores e educadores, aprender para poder mais tarde multiplicar o conhecimento. “Lembro-me de ser o único homem no meio de 200 pessoas aprendendo a fazer crochê. E depois me perguntei: quantos homens não teriam desistido só por vergonha?”

Nessa trajetória de apenas cinco anos, Thiago quebrou pelo menos dois preconceitos: o de que crochê é apenas para fazer tapetes e acessórios de gosto duvidoso e o de que apenas mulheres – e necessariamente mais velhas – têm a arte como hobby ou trabalho. “É muito legal notar que a minha figura masculina atraiu outras. E hoje tem uma porção de homens que acompanham o meu trabalho. Já fiz três oficinas de crochê só para homens e reunimos, em média, 20 participantes em cada um desses encontros”, conta. “Eles se sentem representados ali, aprendem e gostam. Vêm contar que não têm mais vergonha de fazer crochê no ônibus, na rua.”

Thiago Rezende

O seu projeto, intitulado Homem na Agulha, não tem por intenção segregar, mas sim ampliar cada vez mais o alcance da arte de criar peças das mais variadas usando apenas as mãos, um fio e uma agulha. “É muito fácil se apaixonar pelo crochê. Na verdade, é um vício. Você começa com um fio e, de repente, tem uma peça tridimensional. Hoje vejo o quanto o crochê tem relação com as artes plásticas.”

Thiago atualizou a arte do fazer crochê e, mais do que criar as próprias peças, dá nova vida a elas. Na foto de sua página no Facebook, por exemplo, usa como máscara tapetes criados por ele. “Enquanto artista plástico, criei obras de arte com diversos tipos de material, como madeira, papelão. O crochê também entrou nisso. É versátil e possibilita a criação de diversos objetos e peças.”

O trabalho manual também traz à tona a discussão sobre consumo consciente, na opinião de Thiago. Faz pensar sobre as condições de produção em torno de cada peça comercializada no mercado atualmente. “Muita gente ainda acha cara uma peça feita à mão. Mas temos de levar em consideração o tempo, a dedicação e a mão de obra envolvida. Essa produção em série, realizada por pessoas em situações análogas ao trabalho escravo, precisa ser repensada. Eu não quero consumir esse tipo de produto, nem contribuir com esse mercado de consumo.”