03 de janeiro 2018

Heroínas negras

Jarid Arraes
03 janeiro 2018

Heroínas negras

Escritora e cordelista cearense une a paixão pela literatura com a própria história
Texto por: Debora Stevaux

Dandara, Carolina Maria de Jesus, Laudelina de Campos e Tereza de Benguela. O que as quatro têm em comum além de serem nomes desconhecidos para a maioria das pessoas? Assim como outras onze, o quarteto faz parte de uma parte da história brasileira que se perdeu entre as linhas da história contada com racismo e machismo, que costuma exaltar somente figuras masculinas como heróis da pátria..

Foi pensando em retomar os elos perdidos da própria história que a escritora e cordelista cearense Jarid Arraes, 26, usou da paixão pela literatura para produzir biografias sobre os nomes femininos e negros que ficaram por séculos presos no apagamento histórico. Jarid tem grande influência do avô Abraão Batista e do pai, Hamurabi Batista, ambos cordelistas e xilogravadores.

O sucesso veio rapidamente: foram vendidos em um ano 20 mil cordéis separados. “Senti a necessidade de espalhar essas histórias e o interesse das pessoas por elas eram muito evidentes, muito fortes. Pensei então em transformar o material em livro, até mesmo para ter mais resistência na hora de ser usado em sala de aula, já que a maioria das pessoas que compravam e compram meus cordéis é formada por professores”, conta.

Então, as histórias foram reunidas no livro “Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis”, lançado em maio deste ano pela editora Pólen Livros.

Foram quatro anos se debruçando no projeto que se materializou em 176 páginas e hoje está até na Biblioteca do Congresso de Washington D.C., nos Estados Unidos. “Toda essa busca pelas Heroínas Negras começou da minha própria busca pessoal pelas origens da minha negritude, por compreender a história das pessoas negras, sobretudo das mulheres negras no Brasil. Eu nunca ouvi falar nenhuma mulher negra na escola, faltavam-me referências, mulheres em quem eu pudesse me espelhar e inspirar”, conta Jarid. “Esse livro tem esse papel para muita gente, é um resgate de um legado que nos foi escondido, mas que existe e é profundamente importante e pulsante.”

Antes de lançar a coletânea, Jarid já se debruçava sobre os estudos da trajetória feminina negra e escreveu o livro “Lendas de Dandara”, que revive, de forma mítica, a figura da guerreira colonial Dandara dos Palmares, companheira de Zumbi, o último dos líderes do Quilombo dos Palmares. “As pessoas estão muito habituadas a pensar que as mulheres negras não contribuíram com nossa história”, lamenta Jarid. Para ela, é por isso que ninguém vai atrás de informações sobre essas pessoas. “As informações não estão acessíveis, não estão nos livros que temos disponíveis nas escolas, os professores não passam por formações que apresentem a história do Brasil com a honestidade devida, a mídia não transforma essas mulheres em protagonistas. É um ciclo terrível.” Resgatar essas histórias e contá-las é uma forma de romper esse ciclo e mostrar que as mulheres negras tiveram grandes conquistas ao longo da história. Para Jarid é fazê-las parte de todo o povo brasileiro.

Foram muitos obstáculos pelo caminho de reconstrução, porque a história dessas mulheres também careciam de informações confiáveis e dados registrados. Jarid fez pesquisa intensa em trabalhos acadêmicos, por meio de conversas com pesquisadores e com moradores das regiões dessas heroínas, para tentar compreender o que se falava popularmente a respeito delas.

Além da dificuldade em obter informação, Jarid também sofreu pelo fato de ser mulher e negra. “O machismo é muito forte na indústria cultural, no mercado editorial e no próprio cordel e está nas ausências impostas. Na falta de convites, na dificuldade de ser reconhecida tanto quanto um homem que escreve”, diz. “É publicado quem já é conhecido, quem tem os contatos específicos, quem se encaixa num perfil de aparência física. E esse perfil é, na maioria das vezes, a imagem de um homem branco”, acrescenta.

Jarid lembra que há pesquisas acadêmicas que comprovam essa sensação, como um estudo da Universidade de Brasília: mais de 93% dos autores publicados são brancos. Para ela, isso se reflete nos eventos e feiras literárias, nas prateleiras das livrarias, que dão destaque a quem paga mais. “Ser uma mulher escritora no Brasil é um desafio gigantesco, porque grandes editoras não publicam mulheres brasileiras; quando mulheres são publicadas, são escritoras de outros países, sobretudo da América do Norte e da Europa.”

A cordelista vê em seu trabalho uma forma de apoiar outras mulheres que escrevem. “Acredito que podemos criar algo importante, diverso, plural e que seja representativo da nossa complexidade e diversidade brasileira.”