29 de dezembro 2017

Grafiteiras Minas de Minas

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29 dezembro 2017

Grafiteiras Minas de Minas

Inconformadas com o número reduzido de mulheres que se dedicam ao grafitti, quatro mineiras decidiram fomentar a arte de rua em MG
Texto por: Debora Stevaux

Um número incontável de cores e formas toma forma em painéis gigantescos espalhados pela capital mineira. Elza Soares, Taís Araújo, Carmen Miranda, Audrey Hepburn e outras figuras femininas são projetadas com latas de tinta e a força, talento e paciência de quatro mineiras que formam o primeiro coletivo de grafiteiras de Belo Horizonte: as Minas de Minas.

Na ativa há cinco anos, o grupo é formado por Krol, apelido de Carolina Jaued, 28 anos; Viber (Lídia Soares), 31 anos, que também atua como tatuadora; Nica (Nayara Gyssica), 30 anos, que além de pintar os muros, pinta rostos e Musa (Louise Líbero), 30 anos. "Percebemos que tinham pouquíssimas mulheres pintando e vimos na união uma forma de ter maior visibilidade”, explica Krol, que viu o número de grafiteiras mineiras triplicar de sete para 20 nesse período.

Entre latas de spray e discussões sobre a importância de assumir os cachos com adolescentes que participam das oficinas dadas pelo grupo, Krol viu os projetos idealizados pelo quarteto deslanchar em apenas cinco anos de história. “Um dos nossos maiores projetos é o evento Dela, feito duas vezes por ano, em que reunimos todas as grafiteiras da cidade e da região metropolitana e montamos um painel coletivo."

Além da falta de verba e da criminalização da prática artística, encabeçada por algumas autoridades e parcela da população, Krol acredita que o machismo é uma das maiores dificuldades enfrentadas. “Todas nós pintamos há pelo menos uma década e sempre tivemos um período em que duvidamos de nós mesmas, porque as mulheres não acham que estão capacitadas a fazer isso. Além disso, muitas desistem porque se sentem sozinhas, desamparadas, sem respaldo e reconhecimento algum”, analisa.

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O grafitti como libertação e autoaceitação feminina

Dedicar dias inteiros para registrar nas ruas imagens de mulheres fortes é revolucionário. “Acredito que pintar na rua seja mais que somente uma forma de expressão, porque quando uma garotinha ou uma mulher vê essas figuras espalhadas, pode se sentir representadas. O grafitti feito por mulheres também é uma forma de resistência por ocupar o espaço público, que muitas vezes nos é negado o acesso”, esclarece.

Para ela, a postura adotada pelas mulheres e meninas que fazem arte de rua é combativa para não deixar brechas para o preconceito. "Às vezes dizem que é muito arrogante, mas não achamos isso, porque é muito difícil fazer um grafitti bem feito e ser respeitada ao mesmo tempo”, diz Krol.

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Para além das latas de tinta: a função social do grafitti

As oficinas dadas para crianças e adolescentes consta como uma das áreas mais atuantes do grupo, que não se limitam somente à técnica e prática. “Nós fazemos roda de debate com meninas de 13 a 16 anos que moram em comunidades daqui de Belo Horizonte. A última contou com 12 alunas e durou cinco meses. Aos poucos, fomos percebendo que a necessidade delas era muito maior do que simplesmente pintar. Elas foram propondo conversas sobre racismo, ideal de beleza, sobre o motivo pelo qual elas alisavam os cabelos, por exemplo”, recorda.

O grupo também ensina outros tipos de técnicas artísticas como customização de outros materiais, aulas de trabalhos manuais, artesanato, aulas de desenho, pintura etc.

Dentre os objetivos futuros estão fortalecer uma identidade – tanto visual, quanto social –, além de criar novas oficinas, dessa vez, com o apoio da prefeitura local. “Queremos registrar também duas mulheres de comunidades mineiras, que não são famosas, mas também são poderosas e resistentes. Elas não estão na mídia, mas lutam pelo bairro, criam dez filhos e trabalham fora. Nosso objetivo não é somente apoiar as famosas, mas também reconhecermos as histórias das guerreiras espalhadas por aí. Hoje, o que nos move é o amor pelo grafitti, que por si só representa uma resistência tremenda.”  


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