16 de agosto 2017

Gênero ou prática?

genero ou pratica
16 agosto 2017

Gênero ou prática?

A sociedade está se transformando, mas ainda lida de forma reticente com os transgêneros que querem ser pais
Texto por: Livia Deodato

A medicina reprodutiva já evoluiu bastante quando o assunto é maternidade. Neste caso, ela considera mães as mulheres doadoras de óvulos, as que adotaram seus filhos e as que os gestaram na própria barriga. Hoje existe uma quarta categoria que está em discussão e ainda causa muita polêmica: a mãe transgênero.
Isso pode significar muitas possibilidades. Um homem transgênero pode ter o desejo de gerar filhos. É uma pessoa que nasceu com órgãos femininos, mas que se identifica como sendo do sexo oposto e realiza uma transição hormonal ou cirúrgica para obter uma aparência masculina, mas interrompe as terapias com hormônios para poder engravidar.
Outro caso possível é o de uma pessoa do sexo masculino, que se identifica com o feminino e, com procedimentos como os já citados, reivindica o reconhecimento social e legal como mulher. Quando deseja ter o próprio bebê, embora não possa gestá-lo, opta por utilizar seus espermas previamente congelados.
Isso quer dizer que a maternidade não é mais definida pelos cromossomos e órgãos sexuais com os quais as pessoas foram atribuídas no nascimento, mas pelo gênero com o qual escolhem se identificar.

Preconceitos

A aceitação dessa nova categoria de maternidade está ganhando cada vez mais espaço, de acordo com artigo publicado no site Aeon. Pelo menos nos Estados Unidos, alguns casos mostram a transformação e a adaptação na sociedade. Meghan Stabler, executiva de negócios americana e mulher transgênero, é um exemplo de como essa realidade está conquistando aceitação. Ela foi nomeada Mãe Trabalhadora do Ano pela revista Working Mother em 2014. Foi a primeira pessoa trans a receber o título.
A Midwives Alliance of North America (MANA), uma associação norte-americana de parteiras, também mostrou que está alinhada aos novos conceitos. Em seu estatuto, substituiu as palavras mulher e mãe por outras mais flexíveis, como pessoa grávida.
Existem, porém, pessoas e instituições radicalmente contra essas possibilidades ou terminologias. Outra aliança de parteiras do país reagiu de maneira negativa às mudanças feitas nas diretrizes da MANA. Em uma carta aberta, a organização se manifestou contra o que considera a negação da realidade biológica material e a desconexão da natureza e do corpo.
Sheila Jeffreys, uma feroz crítica do movimento transgênero e autora do livro “Gender Hurts: A Feminist Analysis of the Politics of Transgenderism”, lançado em 2014 e ainda sem tradução em português, segue essa corrente. Ela considera que a maternidade é exclusivamente feminina. Ainda argumenta que as mulheres trans estariam repetindo padrões masculinos de controle sobre o corpo da mulher.

O significa ser mulher e mãe?

A transgênero e ganhadora do título de mãe trabalhadora do ano, Meghan Stabler, por exemplo, diz se sentir como qualquer outra mãe, em um artigo publicado no Huffington Post. Para ela, a prioridade é fazer malabarismos domésticos ao mesmo tempo em que gerencia um emprego de alta pressão. Sua afirmação suscita a questão do que seria a maternidade. Um processo inato ligado às transformações causadas pela gravidez e pelo parto? Ou algo que pode ser aprendido?
Para os ativistas, a gravidez não é mais uma questão feminina, mas algo para quem tem útero. Já a ligação da maternidade a um processo extremamente santificado e associado ao feminino vem sendo questionada, pois a própria fluidez das concepções atuais de gênero mostra que o sexo com o qual se nasce não é mais o principal determinante do que torna uma pessoa realmente mulher.
No livro “The Good Mother: Contemporary Motherhoods in Australia”, a professora australiana Susan Goodwin ainda sustenta que a maternidade não é algo necessariamente associado ao parto e à amamentação. Essa prática é mais recente e até o início do século 20 contratar amas de leite era algo muito comum.
Acreditar em uma sociedade atual sem gênero e preconceitos ainda parece um pouco distante. Mas um mundo de gêneros fluidos pode ajudar a mudar as expectativas anteriormente rígidas de quais papéis e responsabilidades cada pessoa deve desempenhar e, consequentemente, melhorar as relações familiares e a forma de criar os filhos.