01 de novembro 2017

Futurista

Lala Deheinzelin
01 novembro 2017

Futurista

Lala Deheinzelin, criadora da Fluxonomia 4D, apresenta maneiras de tornar o mundo mais sustentável
Texto por: Livia Deodato

Lala Deheinzelin é futurista. Isso significa que o seu trabalho se baseia em sempre pensar o novo, e não em focar no presente para poder planejar o futuro. Uma das pioneiras da Economia Criativa no Brasil, Lala desenvolveu uma série de ferramentas, linguagens e maneiras de ser, como ela mesma define, para ajudar um número cada vez maior de pessoas a encontrar uma nova realidade desejável e agradável a todos. “Toda a minha filosofia de vida – que se reflete no meu trabalho – é mostrar que precisamos abrir a forma de pensar, viver e se relacionar. Se todos nós queremos um mundo legal, por que não fazemos? Por que tem que ser aquilo que não desejamos?”, desafia.

O seu trabalho como futurista é mostrar que é possível fazer muito mais do que imaginamos. É fazer com que as pessoas percebam que, muitas vezes, o impossível é possível. Para desenvolver este trabalho, Lala passou por diversas áreas ligadas a instituições públicas e privadas. Trabalhou bastante tempo no setor cultural – no cinema, no teatro, na dança e na realização de eventos e publicidade. Sempre enxergou na cultura uma ferramenta de transformação. Nos anos 1990, Lala ganhou uma bolsa da Fundação Vitae, uma organização de fomento à arte e à cultura que existiu entre 1985 e 2005, que permitiu que ela iniciasse sua pesquisa sobre como trabalhar o intangível de forma tangível.

O intangível é basicamente tudo aquilo que sabemos que têm valor, mas não é possível medir com as ferramentas tradicionais. “Uma coisa que já está sendo bastante discutida é uma forma de mudar a forma de medir a riqueza das nações. O PIB é uma forma de medir completamente estúpida. Todo desastre ecológico, guerra, tráfico de drogas… tudo isso aumenta o PIB. E ele não leva em consideração elementos qualitativos”, diz.

Nas empresas, áreas como a comunicação e o RH, que costumam trabalhar com fidelidade, valorização da marca e relacionamento, não têm métrica compatível como o comercial, responsável pelas vendas. “É urgente a reinvenção da economia com essas métricas em torno do que qualifica”, afirma Lala. “A riqueza econômica financeira é bastante volátil e pouco segura. Cabe aos governos e às empresas lidar com aquilo que é seguro, que tem lastro, que não borbulha.”

As saídas apontadas por Lala Deheinzelin

Para acompanhar a velocidade com que tudo vem acontecendo, Lala Deheinzelin propõe uma maneira de trabalho exponencial, que só será possível quando a visão setorial chegar ao fim e todos trabalharem em conjunto. “Notei a importância de desenvolver ferramentas para trabalhar na Economia Colaborativa com foco na sustentabilidade e combinada com processos colaborativos em rede. Dessa forma, a gente consegue realmente resultados extraordinários”, diz.

Trabalhar com menos burocracia, mais relações de confiança e pouca estrutura hierárquico-burocrática é o caminho mais rápido para avançar num futuro próximo, que Lala aposta que vá acontecer daqui a 20 anos, aproximadamente. Quem não for capaz de se adequar durante a transição de modelos será rapidamente ultrapassado por todos que tiverem uma estrutura mais flexível. “Se não mudarmos a nossa forma de gestão, de produção de riqueza e de organização social para uma sociedade que priorize os intangíveis como forma de gerar riqueza, não temos futuro”, afirma.

Desde 2004, quando a Economia Criativa ganhou importância para a ONU, Lala vem trabalhando em um modelo de atuação e adequação ao desenvolvimento e sustentabilidade de países emergentes, inclusive atuando como assessora da Unidade de Cooperação Sul-Sul do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Foi naquela mesma época que Lala começou a desenhar o que viria a ser a Fluxonomia 4D, uma visão de futuro combinada à sustentabilidade e às novas economias.

“O fascinante é que isso já está acontecendo, embora os meios de comunicação de massa não falem disso. Vivemos possibilidades extraordinárias que já resultam dessa combinação das novas economias. E aí dá pra perceber que um futuro de abundância é possível, sim”, afirma. A abundância é um dos vetores do trabalho de Lala e há muitas maneiras de fazer com que ela tome o lugar da escassez de uma vez por todas. “Em vez de carro elétrico, quem sabe usar menos carro? Em vez de prédio verde, quem sabe construir menos prédios, já que há tanto espaço construído ocioso que poderia ser mais bem aproveitado? Quando a gente é criativa, amplia o campo de possibilidades. Afinal, o futuro é uma ficção.”