15 de setembro 2017

Força, meninas

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15 setembro 2017

Força, meninas

Criadora de escola de liderança para garotas conversa sobre a importância de estimular as mentes femininas desde cedo
Texto por: Julliane Silveira

Em busca de um novo rumo para a carreira, a jornalista Deborah de Mari, 35, percebeu que suas melhores habilidades tinham conexão com sua infância. Foi o ponto de partida para a criação da Força Meninas, escola de liderança para garotas de seis a 18 anos, aberta em julho de 2016.
Deborah estima que o projeto tenha impactado até agora cerca de 32.200 garotas por meio da internet. Mais de 70 mães e 110 meninas já participaram dos eventos de liderança. “Nossa principal missão é o desenvolvimento é capacidade de relacionar-se com o outro”, diz.
Para formatar o projeto, realizou cursos na Europa e nos Estados Unidos. Sua experiência de mais de dez anos em conectar marcas a pessoas no ambiente digital, à frente de equipes em grandes empresas, também ajuda a entender como meninas e mulheres devem se posicionar no mundo.

Qual foi a inspiração para criar o Força Meninas?
O Força Meninas nasceu de uma pesquisa sobre liderança feminina. Depois de dez anos em grandes empresas, decidi dar uma pausa na carreira e buscar aperfeiçoamento profissional. Descobri que a maior parte do que buscava estava na minha inteligência emocional e a peça fundamental dessa habilidade estava na minha infância. Com este insight, iniciei a pesquisa para identificar o que as meninas têm em mãos hoje e quais são as habilidades cruciais para o futuro, para que possamos criar um mundo mais igualitário.

Como está sendo a aceitação e a adesão ao projeto?
A cada edição recebemos mais meninas, participantes anteriores que trazem amigas, familiares e também mães e meninas que chegam à nossa comunidade digital. Além disso, recebemos convites para ir a outros estados. Neste momento, vivemos a transição de projeto para negócio de impacto social, então chegaremos a um número muito maior de meninas em todo o Brasil.

Você se identifica com as histórias que conhece por meio do projeto?
Muito, lembro de todas as etapas que passei como menina. Sempre digo que este projeto nasceu de uma pesquisa profunda, mas também da experiência de muitas mulheres que resgataram suas meninas com o objetivo de ajudar as meninas de hoje. Sempre fui uma garota questionadora, mas essa característica na infância e adolescência nunca foi vista como uma qualidade.  Encontro muitas meninas no Força Meninas com o mesmo problema que eu tive. Sobretudo no ambiente escolar tradicional, meninas que questionam são muitas vezes classificadas como problematizadoras e de difícil relacionamento. Eu sempre tive um base familiar sólida, aberta ao diálogo e ao pensamento crítico. Eu tinha nos meus pais o apoio necessário para que eu soubesse a importância de ser ouvida e de colocar minhas opiniões.


Quais são os principais gargalos que envolvem criação e educação de meninas no Brasil, na sua visão?
No Brasil temos duas questões importantíssimas que comprometem o potencial das meninas e de que ainda falamos pouco. A “adultização” e sexualização precoce. Cada vez mais cedo, meninas são conduzidas à vida adulta, desrespeitando etapas essenciais do seu desenvolvimento. Por exemplo, começam a pintar as unhas com três anos de idade, alisam os cabelos e já usam maquiagem com seis, sete anos. A princípio consiste apenas em uma imitação dos hábitos das mães, mas a brincadeira, na verdade, estimula meninas a focar apenas em sua aparência. O processo que se inicia com uma “questão estética”, sobretudo na passagem da infância para a adolescência, leva as meninas à sexualização precoce. É praticamente impossível comprar roupas para pré-adolescentes e adolescentes que não sejam curtas e apertadas, todos os estímulos que elas recebem na mídia e nas redes sociais indicam que seu valor está na aparência e na possibilidade de ser reconhecida como atraente pelo outro. Este processo desvia a menina de uma missão importantíssima para o seu desenvolvimento: conhecer-se, reconhecer seus talentos e aptidões, desenvolver autoconfiança e explorar a sua sexualidade com tempo e maturidade, sem traumas.


Esses problemas são diferentes de outros países?
O Brasil tem a discussão mais ativa sobre questões relacionadas a igualdade de gênero e necessidade de revisão de questões culturais que comprometem o desenvolvimento de meninas. Contudo, os passos lentos quando refletimos sobre políticas públicas efetivas que coloquem meninas nas escolas, diminuam as taxas de violência, o casamento infantil e atuem de forma preventiva para evitar a gravidez precoce. É urgente ressignificar o que é ser mulher e menina no nosso país. Na Suécia, a taxa de casamento meninas menores de 18 anos é zero e 97,5% das meninas frequentam a escola pelo menos até os 16 anos. As mulheres representam mais de 43% dos cargos governamentais. Estes dados são do relatório de 2016 da organização norte-americana Save the Children, no qual o Brasil está na 102ª posição e a Suécia, na 1ª posição do Índice de Oportunidades para Garotas.


Por que é importante estimular liderança e autoestima das meninas desde a primeira infância?
Estudos mostram que, quando as condições para o desenvolvimento durante a primeira infância são boas, maiores são as probabilidades de a criança alcançar o melhor de seu potencial, tornando-se um adulto mais equilibrado, produtivo e realizado. Com base nisso, a fase do nascimento aos dois anos é a etapa do desenvolvimento em que a principal necessidade da criança é sentir-se segura  e amada, é o início da construção de autoestima. Dos três aos cinco anos, a criança desvenda o mundo e cria as bases de sua capacidade de aprendizado, etapa também totalmente relacionada a autonomia.

Como gerar o espírito de líder nas meninas? O que pode ser feito na rotina da família?
Meninas e mulheres carregam naturalmente o estereótipo de que nascem mais guiadas pela emoção, mas que isso não tem relação direta com a inteligência emocional. Pelo contrário: a empatia e capacidade de expressar emoções das mulheres muitas vezes é interpretada como fraqueza pela sociedade. Por isso, acredito que o primeiro pilar que devemos trabalhar com as meninas todos os dias é a liderança de si mesma, ajudá-las a desenvolver autoconhecimento, para que aprendam a gerenciar suas emoções e sintam-se protagonistas de suas histórias. O segundo ponto é a autonomia. Infelizmente, o forte sentimento de insegurança que vivemos faz com que muitos pais temam e adiem o desenvolvimento de autonomia de suas meninas. O estabelecimento de uma relação de confiança que possibilite avançar de forma autônoma é crucial para a preparação adequada para os desafios da vida adulta. A tolerância ao erro também é importante. Meninas são criadas como bonecas de porcelana e desistem antes mesmo de encarar um desafio. Ajudá-las a encarar os erros como parte de suas trajetórias é essencial para que ela desenvolvam um espírito de líder. Por fim, a empatia, a capacidade de colocar-se no lugar do outro, ouvi-lo e compreender suas necessidades é uma característica essencial da liderança e também pode ser trabalhada todos os dias no ambiente familiar, na escola e na comunidade.


O que pais e educadores têm feito nesse sentido?
Infelizmente apenas uma parte pequena da nossa sociedade é consciente sobre como é urgente a mudança os padrões estereotipados de gênero na educação nas escolas e em casa. Acredito que os pais estejam mais engajados do que as escolas em promover uma nova geração criada de forma mais igualitária. Acompanhamos um movimento forte dos pais em busca de propostas educativas inclusivas, literatura e brinquedos que desmitifiquem os territórios tradicionais de meninos e meninas. Por exemplo, meninos que aprendem a cozinhar e meninas que aprendem a construir. No Brasil, acompanhamos a crítica à questão de gênero, estigmatizada de forma parcial e restrita à sexualidade. A questão de gênero deve ser discutida no âmbito dos direitos humanos, focada no respeito entre as pessoas.


A gente sabe dos problemas de autoestima das meninas. Como ajudar sem cair no clichê nem estigmatizá-las?
Acredito que o primeiro passo é as mães aprenderem a se relacionar melhor com o seu próprio corpo, pois servem de exemplo. Todos devem ajudar a menina a desenvolver um olhar críticos sobre mídia, redes sociais e padrões de beleza. Quem sabe questionar modelos pré-estabelecidos conseguirá refletir sobre o que faz sentido em sua vida. Não eduque sua menina para agradar todo mundo, ajude-a a demonstrar sua opinião e colocar sua voz. A comunicação é fator essencial de confiança. Respeite seu estilo, é importante deixá-la descobrir como gosta de se vestir e como o estilo a ajuda a expressar sua personalidade. Incentive atividades que a ajudem a desenvolver outras habilidades que não estão relacionadas à aparência. Uma atividade que ajude a menina a descobrir o seu valor além da aparência possibilitará um desenvolvimento mais saudável.


Sua carreira é marcada por cargos de liderança em comunicação para marcas. Ao planejar estratégias de comunicação e consumo, as marcas consideram as mulheres da mesma forma que considera o perfil dos homens?
Acredito que a maior parte das marcas ainda está em um processo de descoberta sobre como conversar com mulheres e meninas de forma menos estigmatizada. Vejo com bons olhos o caminho que percorremos, mas acredito que, com exceção de marcas que já falam essencialmente com públicos femininos, as empresas precisam revisitar a sua forma de planejar iniciativas de comunicação e experiências de consumo que realmente agreguem valor às mulheres.