26 de julho 2017

Flores para refugiados

flores para refugiados
26 julho 2017

Flores para refugiados

Adolescente funda empresa para ajudar expatriados na ilha de Lesvos, na Grécia
Texto por: Camila Luz

Desde 2015, a paulistana Gabriela Shapazian viaja com frequência a Lesvos, na Grécia, para dar apoio a milhares de refugiados que deixam o Oriente Médio só com a roupa do corpo. Com apenas 17 anos, a adolescente sabe que o trabalho social que realiza é seu presente e futuro.

Em 2016, o deslocamento de pessoas causado por guerras, violência e perseguições atingiu o número mais alto já registrado, segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O mundo vive a pior crise humanitária do mundo desde a Segunda Guerra Mundial.  

Se não fosse o trabalho de voluntários do mundo todo que se propõem a ajudar como podem, a situação poderia ser pior. Desde dezembro de 2015, Gabriela faz parte desse time e ganhou notoriedade entre ONGs, instituições e ativistas que lutam pelos direitos dos refugiados.

Sempre que fala sobre o projeto Flores para os refugiados, criado em parceria com sua mãe, Kety Shapazian, Gabi mostra que é uma adolescente doce, altruísta e muito forte. Ela conta que a escolha por Lesvos vem das estatísticas: em 2015, mais de um milhão de pessoas entraram na Europa em busca de abrigo. Desse total, mais de 80% entraram pela Grécia.

Transformação

No final daquele ano, Gabi e Kety viajaram a Lesvos para ajudar os refugiados que chegavam à ilha em barcos improvisados e superlotados. A travessia entre a Turquia e a ilha grega é uma das mais curtas dentre as percorridas pelos refugiados, o que não significa que seja segura. Muitos morrem afogados ou de frio no meio do caminho. A viagem custa US$5 mil, mas fica mais barata quando o tempo está feio, chuvoso ou a temperatura está baixa.

A adolescente nunca havia feito uma viagem como voluntária, mas ela e a mãe sempre guardavam dinheiro para fazer passeios pouco convencionais. “A gente basicamente não fazia nada durante um ano para conseguir passar um tempo juntas e fazer coisas diferentes. Quando eu tinha oito anos, alugamos um trailer e viajamos por uma parte do Canadá. Só nós duas”, lembra. A crise humanitária em Lesvos levou mãe e filha a optar por essa viagem, quando Gabi acabara de completar 16 anos.

A ilha grega chegou a receber mais de cem barcos por dia, com cerca de cem pessoas em cada. Em 2015, a principal tarefa de Gabriela e Kety foi ajudar os refugiados a sair dos barcos e auxiliá-los na chegada, levando-os para um abrigo, oferecendo comida, roupas quentes e o que mais fosse necessário.

Flores para refugiados

Quarenta e cinco dias depois, Gabi voltou transformada para o Brasil. “Foi muito difícil voltar de Lesvos pela primeira vez. Eu não queria, poderia ter ficado lá para sempre. Minha mãe basicamente me obrigou a voltar”, conta. “Fiquei muito triste com tudo isso e minha vida perdeu todo o sentido que tinha antes. Passei 45 dias recebendo barcos o dia todo. E aí voltei para o Ensino Médio”, completa.

A adolescente não se sentia bem com toda a segurança e conforto que tinha no Brasil. Em Lesvos, ela e a mãe dormiam em um quarto de pensão que não tinha água quente. Para o banho, usavam o quarto de uma amiga. Ainda assim, diz ela, estavam em condições melhores do que os refugiados que atravessam a Europa a pé carregando apenas uma sacolinha plástica.

“[Voltar] Foi muito complicado, ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo. Minha mãe foi basicamente uma das únicas pessoas que respeitou o meu espaço, pois estava triste e abalada”, explica. “Os meus valores mudaram muito. Ninguém entendia isso e eu só conseguia pensar no que estava acontecendo aqui. Minha mãe brinca que quando voltei para o Brasil, eu estava ou dormindo ou chorando”, diz.

Novos caminhos

No Brasil, Gabriela mora em Pinheiros, um bairro de classe média alta na cidade de São Paulo. Antes de viajar para Lesvos, era orientada pela mãe a estudar bastante para passar em uma boa faculdade e manter o mesmo padrão de vida no futuro. Hoje, suas prioridades são outras.

Ao ver o sofrimento da filha, Kety decidiu montar um negócio para financiar novamente o trabalho voluntário na Europa. Começou a vender flores nos semáforos do próprio bairro. As belas plantas são entregues em garrafas de vidro customizadas com imagens que recorta de livros de arte. Para a empreendedora, vender flores em garrafas é simbólico, pois passa uma mensagem de paz, empatia e compaixão.

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Com o dinheiro da venda das flores, Gabriela pode voltar à Europa, em junho de 2016. No entanto, com o coração apertado, precisou retornar ao Brasil para terminar o Ensino Médio no mesmo ano. Quando concluiu os estudos, no final de 2016, decidiu que não iria prestar vestibular e que sua vida deveria, finalmente, seguir o caminho que desejava.

De volta à Grécia, a adolescente criou uma logística de distribuição de roupas e mantimentos para os refugiados.  Há cerca de 60 mil pessoas na Grécia que esperam por uma entrevista de pedido de asilo - em Lesvos, são 5.000 refugiados. Eles não podem trabalhar ou ir para a escola e vivem em condições precárias.

Os que estão na ilha grega entram em contato por WhatsApp e passam seu nome, tamanho de roupa que vestem e o que estão precisando. Gabriela e outros voluntários separam os itens em caixas de papelão, colocam a identificação de cada um e combinam um dia para entrega do pacote.

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“Eu sou uma voluntária independente. Cem voluntárias independentes não abrem fronteiras, não mudam nada. A gente trabalha 24 horas por dia há dois anos, mas não vamos mudar a política. E tudo o que está acontecendo aqui é política”, declara.

Para arrecadar dinheiro e financiar sua permanência na Grécia, a voluntária recebe doações, dá palestras em escolas e eventos e é sócia de Kety na empresa Flores para os Refugiados. Gabriela tem um orçamento diário de US$ 40 para acomodação, transporte e alimentação.

O negócio criado pela mãe cresceu e ganhou espaço em um mercado de orgânicos do bairro Vila Madalena. Os lucros da venda de flores são revertidos para o projeto de Gabi na Grécia.

“Hoje eu não faço ideia de quando vou para a faculdade. Eu vou quando quiser, se eu quiser e onde eu quiser”, afirma. “Estou fazendo tanta coisa com a minha vida. Além de estar fazendo o que quero e amo, que é estar aqui trabalhando, tenho 17 anos e sou sócia em uma empresa. Não estaria fazendo nada disso se estivesse em uma universidade”, completa.

Hoje, Gabi passa a maior parte do tempo na Grécia e só vem ao Brasil para promover os eventos e arrecadar fundos para o projeto.

Abrir fronteiras

Gabriela diz que não entende por que não há mais jovens envolvidos com os refugiados ou com outras questões humanitárias que mereçam atenção e ajuda. Ela tem apenas um amigo brasileiro que faz um trabalho parecido, o jornalista e voluntário André Naddeo.

Em seu perfil pessoal no Facebook, Gabriela compartilha informações, fotos e vídeos sobre a situação dos refugiados. Às vezes recebe mensagens de pessoas pedindo que ela pegue mais leve. Para ela, é esse tipo de ignorância voluntária que permite que guerras continuem acontecendo.

A adolescente não tem planos concretos para os próximos cinco anos. Mesmo tão nova, sempre foi muito organizada e gostou de planejar o que faria com seu tempo. Mas tudo muda muito rápido em Lesvos.

“Não dá para planejar algo e falar que vou estar em outro lugar daqui a dois meses, porque esse lugar talvez não exista mais daqui a dois meses. Todo mundo que trabalha na crise dos refugiados já passou por isso. É uma situação muito instável”, conta.

Ela reforça que não sabe se vai para a faculdade, mas que tem certeza de que vai continuar trabalhando com refugiados pelo mundo. “É isso que quero fazer da minha vida. Não sei onde, não sei como. Mas tenho certeza absoluta.”