03 de janeiro 2018

Felicidade Feminina

Felicidade Feminina
03 janeiro 2018

Felicidade Feminina

Renata Abreu, autora do livro "Felicidade Feminina", diz que a ideia de que o sexo feminino é multitarefa pode gerar sensações de infelicidade entre as mulheres
Texto por: Camila Luz

Ao longo dos séculos 20 e 21, a mulher vem conquistando seu espaço, ganhando relevância e mais liberdade. Mas para Renata Abreu, autora do livro “Felicidade Feminina”, o sexo feminino está menos feliz e realizado do que poderia.

Publicado este ano, o livro discute os motivos que geram tanta insatisfação entre as mulheres, mesmo em tempos de grandes avanços. Renata se baseia na psicologia positiva, uma ciência que surgiu recentemente, para sugerir ferramentas ao sexo feminino. A ideia é que a mulher saiba reconhecer o que está errado dentro de sua rotina para ficar bem consigo mesma.

Você se baseou em experiências pessoais para escrever o livro “Felicidade Feminina”? 
Eu sempre atuei na área de desenvolvimento humano, estive atenta e gosto muito do tema. Há alguns anos, fiz uma descoberta que mudou minha vida. Eu tinha o que a maioria das pessoas considera uma vida de sucesso: três filhos maravilhosos, um bom casamento, uma boa casa e, na época, um cargo de diretoria em uma das melhores empresas do Brasil. Era uma empresa de consultoria e eu gostava muito do que fazia.

Apesar de ter tudo isso, descobri que na verdade estava cansada, estressada e muito menos feliz do que poderia. Percebi que existem pressões internas, feitas pela sociedade, para atingir certos objetivos que não necessariamente têm a ver com nossos valores pessoais. Quando você começa a alcançar essas metas, não sente um bem-estar genuíno, e sim uma sensação de vazio.

Então resolvi aprofundar meus estudos na psicologia positiva e descobri que havia várias mulheres na mesma situação que eu. Por isso, quis fazer o recorte na situação da mulher e lançar o livro. Foi em função da minha vivência e também pela possibilidade de levar esse conteúdo para mais pessoas.

Por que você escolheu a abordagem da psicologia positiva? 
A psicologia positiva é um campo novo da ciência que surgiu no final da década de 1990. Foi proposta nos Estados Unidos como campo de pesquisa por Martin Seligman. Ele sugeriu que as pesquisas começassem a ser endereçadas mais para os aspectos saudáveis e positivos das pessoas. Então a psicologia positiva busca potencializar as qualidades humanas e emoções positivas, assim como a construção de modelos mentais mais otimistas. Assim, as pessoas poderiam de fato desenvolver uma vida de maior bem-estar e florescer.

Eu enxergo a psicologia positiva como um caminho muito prático, de fácil aplicação, para tornar o dia a dia mais saudável e feliz. Todo mundo pode usar: homens, mulheres e crianças, de forma individual ou em grupo.

A mulher está em um processo de conquista: conquistou mais autonomia, liberdade, espaço no mercado de trabalho e tantas outras coisas. Mas, segundo seu trabalho, não está tão feliz quanto poderia. De onde vem essa sensação de mal-estar?
Quando comecei meus estudos, a primeira impressão que tive foi a de que o mal-estar era causado pelos múltiplos papéis que a gente exerce. Depois comecei a observar que a causa não está nos papéis, e sim na forma pela qual estamos os desempenhando.

No meu trabalho, trago dez hipóteses para a infelicidade, estresse, cansaço e altos índices de depressão e doenças cardíacas. Sem dúvida, o primeiro está relacionado com a nossa cultura. A mulher ainda exerce a maioria das atividades domésticas. Em média, ela gasta 2,6 horas a mais do que o homem nessas tarefas – mesmo trabalhando fora e adotando a mesma jornada de trabalho.

Também há a questão do preconceito velado que a gente enfrenta. Em teoria, a mulher pode praticamente tudo. Mas não somos tratadas da mesma forma e não somos remuneradas igualmente aos homens. Isso gera a famosa "síndrome do impostos".

Depois fui caminhando para outras hipóteses. Por exemplo, há a vontade de dar conta de tudo. Em algum momento passamos do “eu posso” para o “eu preciso fazer tudo ao mesmo tempo com perfeição”. Acabamos caindo na armadilha da Mulher Maravilha, muito em parte pela cobrança da sociedade e imagem da mulher na mídia. Precisamos ter a carreira perfeita, casamento, filhos... mas quantas de nós realmente desejam tudo isso?

Quais são as consequências de assumir esse ritmo “multitarefa”?
Isso compromete o nosso bem-estar e saúde, diminui nossa memória, produtividade e cognição. Tem um custo alto. Além disso, passamos a viver no automático. Você acorda e segue uma série de tarefas que estão na agenda, sem se dar conta das coisas. Isso gera uma sensação de vazio e vai diretamente contra os princípios de uma vida de bem-estar. Para vivermos bem, precisamos prestar atenção nas nossas escolhas.

Como a mulher pode buscar uma vida de maior bem-estar?
Há duas formas de fazer isso. A primeira é mudar as circunstâncias, quando possível. Por exemplo, deixar um emprego no qual o chefe é machista e não é valorizada. A segunda é interpretar as coisas de forma diferente e mudar suas crenças. Nesse ponto, entra um aspecto chave da psicologia positiva. Existem três fatores que determinam o bem-estar:

- 50% é genético;

- 10% está relacionado às circunstâncias da vida;

- 40% está relacionado às atividades intencionais.

Essas porcentagens estão em discussão e poderemos ter novidades sobre isso em breve. Mas por hora, precisamos nos ater aos 40% que podem ser transformados.  São atividades intencionais que escolhemos fazer para aumentar nosso nível de bem-estar. Isso ocorre por meio de exercícios e práticas.

Quais são esses exercícios e práticas?
Tudo o que aumenta o bem-estar está ligado com a busca de significado para a nossa vida. Os objetivos e metas que estabelecemos devem estar alinhados com significados e propósitos. Precisamos entender qual é o nosso papel do mundo e quais são nossas reais aspirações.

Também precisamos reconhecer nossas qualidades e explorá-las. Quando as utilizamos, temos melhor desempenho e, por consequência, níveis maiores de bem-estar.

Outro ponto importante é a potencialização das emoções positivas, como orgulho, esperança e gratidão. Para potencializá-las podemos fazer alguns exercícios, como acessar memórias antigas que nos fazem bem. Viajar é ótimo pois gera registros que podem ser acessados quando quisermos.

Também podemos escrever cartas de gratidão para outras pessoas. Revisite o ano e pense em quem fez a diferença na sua vida. Escreva uma mensagem explicando qual foi o papel dela e agradeça.

Outro exercício ótimo para fazer com crianças ou individualmente é refletir sobre o dia que passou e registrar três coisas boas que aconteceram. Pode ser um almoço agradável, um encontro inesperado com um amigo ou uma ligação que recebeu.

São as pequenas coisas do nosso dia a dia que trazem bem-estar e felicidade, e não algo maior, que talvez será conquistado no futuro. A nossa rotina deve ser transformada para melhor.