23 de outubro 2017

Família = respeito e amor

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23 outubro 2017

Família = respeito e amor

Criar boas pessoas é o mais importante e, por isso, todas as configurações familiares devem ser acolhidas
Sobre o autor: Eliane Dias

É mulher, negra, esposa, mãe, empresária e política. É sócia da produtora Boogie Naipe, que cuida da carreira de Mano Brown, seu marido, e dos grupos Racionais, RZO e 5pra1. Sua história foi construída por conta da sua essência feminista de nunca desistir de buscar o que acredita ser dela.

Texto por: Eliane Dias

É mulher, negra, esposa, mãe, empresária e política. É sócia da produtora Boogie Naipe, que cuida da carreira de Mano Brown, seu marido, e dos grupos Racionais, RZO e 5pra1. Sua história foi construída por conta da sua essência feminista de nunca desistir de buscar o que acredita ser dela.

Nas periferias, a maioria das famílias que conheço não são convencionais. Há mães com filhos, pais com filhos, avós que cuidam dos netos, irmãos que dividem a responsabilidade da casa e até mesmo crianças que vivem com seus padrastos, depois da separação da mãe. Até existe a família tradicional – mãe, pai, filhos e bichinho de estimação -, mas não é a regra.

Então eu fico muito brava quando ouço ou vejo a exaltação da família padrão, essa coisa apelativa e fundamentalista. Eu fico incomodada porque todos se sentem mal com esse tipo de mensagem. As crianças, principalmente.

Elas acabam por seguir um dos dois caminhos: ou se tornam rebeldes, porque não veem em casa o que os meios de comunicação dizem ser a forma perfeita de viver, ou ficam pedindo para pais separados voltarem, ficam questionando o responsável sobre a falta do outro – seja a mãe, seja o pai. Essa pressão toda faz com que essas crianças cresçam achando que sempre está faltando algo.

Eu considero a minha família de origem muito saudável. Nós nos amamos, nos respeitamos, moramos perto e convivemos intensamente. Nós nos defendemos e, se alguém mexer com um dos meus irmãos, eu vou ficar doida. Minha mãe teve quatro filhos, cada um de um pai diferente. Eu só fui falar com meu pai depois de adulta e percebi que foi melhor para a minha família que ele ficasse afastado mesmo.

Em casa, todo mundo estudou. Com muita luta, todos nos formamos: uma irmã é pedagoga, outra é socióloga. Eu fiz direito e meu irmão fez administração e hoje estuda direito também. Todos têm casa própria.

Hoje eu sou casada e tenho dois filhos jovens. Vivemos em uma família teoricamente tradicional. “Teoricamente” porque família de artista é sempre fora da casinha. Ma posso afirmar que vivo os mesmos desafios de ser feliz e criar pessoas felizes que minha mãe viveu. E que eu sei amar, respeitar, conversar com os filhos e educá-los porque minha mãe me ensinou.

Minha experiência me mostra que é muito melhor viver em uma família saudável, que se entende e se comunica, que se ama dentro dos limites de seus membros, do que viver em uma família “quadradinha” que não condiz com a felicidade.

Em vez de ficar batendo na tecla da importância da família heteronormativa, a sociedade precisa exaltar a necessidade de os familiares se respeitarem e serem felizes. Se tivéssemos um trabalho em massa de que família é a união de pessoas que se amam, a aceitação de crianças e jovens de orientação sexual diversa seria bem mais fácil.

É a mensagem de que só existe uma forma de configurar uma família perfeita que faz com que muitas pessoas não queiram aceitar homossexuais em suas casas. Há muitas famílias que não aceitam uma relação inter-racial. Quando a mulher é negra, então, nem se fale. Dá para contar nos dedos as mulheres negras que são casadas com homens brancos.

Toda a sociedade precisa enxergar que, além de famílias formadas por casais heterossexuais, há também famílias de divorciados, de pais solteiros, de mães solteiras, de casais homossexuais, todas buscando respeito e amor. Essas famílias precisam ser ovacionadas, repeitadas e amadas. Precisam ser acolhidas e não apanhar do mundo, como vemos acontecer tantas vezes. Eu vejo chamadas na TV como “O programa da família brasileira” e penso: De que família estão falando?

O número de lares brasileiros chefiados por mulheres saltou de 23% para 40% entre 1995 e 2015, segundo informações da pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça. São considerados chefes de família, com a obrigação de cuidar da casa, dos irmãos mais novos e de contribuir com o orçamento familiar, 132 mil crianças de 10 a 14 anos e 661 mil adolescentes de 15 a 19 anos, segundo dados do IBGE.

Ser família não é se encaixar no modelo padrão que muitos querem impor. Quem configura uma família, na verdade, tem a obrigação de colocar no mundo pessoas saudáveis, com mente sãs, cidadãos bons que possam fazer diferença no mundo. E pouco importa quem faz parte dela.