05 de julho 2017

Família, substantivo feminino

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05 julho 2017

Família, substantivo feminino

Grande nome da dança brasileira contemporânea, Ismael Ivo fala da importância das mulheres de sua vida em sua carreira
Texto por: Livia Deodato

Ismael Ivo é um homem alto, forte, negro, expressivo. Mede cada palavra que sai de sua boca e acerta em cheio os olhos, a mente e, principalmente, o coração de quem conversa com ele. Gesticula para tornar sua comunicação ainda mais eficiente, mas não deixa de imprimir seu jeito poético que leva um charmoso sotaque de quem mora fora do país há mais de 30 anos. O brasileiro, nascido e criado na Vila Ema, zona leste da cidade de São Paulo, é um dos maiores nomes da dança contemporânea de todo o mundo atualmente. Ele está de volta ao Brasil para dirigir o Balé da Cidade de São Paulo, a companhia de dança do Theatro Municipal.

No início da entrevista, Ismael conta os detalhes do novo espetáculo que a companhia foi convidada a montar pelo departamento lírico do Municipal. Chama-se “Winterreise” (em português, “Viagem de Inverno”) e será um concerto-dançante sobre a composição homônima de 1827 do austríaco Franz Schubert. “Oito bailarinos são chamados para dentro dessa memória, mas eles não são reais. A solidão profunda do canto daquele barítono é a única coisa real que se vê no espetáculo”, conta, com paixão. “Tudo é branco nessa ‘viagem de inverno’. Menos as gralhas negras e o espantalho, que vão se materializar para logo depois desaparecer.”

Esse é o segundo espetáculo que o Balé da Cidade de São Paulo monta sob a direção de Ismael (o primeiro foi “Risco”). E mais parece até uma alegoria de sua trajetória pessoal e profissional. Para que sua carreira como bailarino, coreógrafo e diretor conhecido internacionalmente deslanchasse, Ismael teve de enfrentar rigorosos invernos, no sentido literal e metafórico da palavra. Afinal, não é comum um negro, vindo de um país e de um bairro periféricos, alcançar com louvor os mais altos cargos dentro de uma arte de elite. “Por muitos anos, eu me sustentei com bolsas de estudo, que garantiam o que eu ia comer”, conta.

Família matriarcal

Ismael foi diretor da companhia German National Theater, em Weimar, na Alemanha, entre 1997 e 2000, e da Bienal de Veneza de 2005 a 2012. Criou o ImPulsTanz – Vienna International Dance Festival, considerado um dos mais expressivos festivais de dança da atualidade. Foi bailarino, dividiu os palcos, foi dirigido e acabou se tornando amigo pessoal de grandes nomes do gênero, como Pina Bausch (1940-2009), Alvin Ailey (1931-1989), Jirí Kylián, William Forsythe e o brasileiro Klass Vianna (1928-1992).

Personalidades de outras artes, como a papisa da arte performática Marina Abramovic e o escritor Heiner Muller (1929-1995), também fizeram e seguem fazendo a diferença na vida de Ismael. Amizades que rendem muitas trocas de experiências profundas e acabam resultando em frutos que se materializam em forma de belos movimentos.

Hoje, aos 62 anos, Ismael tem a certeza de que não teria sido capaz de conquistar nem metade de todos esses méritos sem as mulheres de sua família. Caçula de três irmãs e único homem, ele se emociona ao dizer que o caminho foi aberto pelas irmãs mais velhas, a mãe, a avó e até mesmo a bisavó, que viveu até os 103 anos.

“Minhas irmãs começaram a trabalhar cedo, quando tinham cerca de 14 anos. Arranjaram um emprego numa fábrica de costura”, relembra. “O dinheiro que ganhavam era todo entregue para a minha mãe, que pagava as despesas da casa. Durante a vida toda, elas abriram mão de um certo privilégio para que eu pudesse escolher e trilhar o caminho que eu desejasse.”

Os valores femininos, principalmente os que remetem aos laços afetivos que Ismael aprendeu tão bem a tecer, sempre estiveram presentes na família matriarcal do bailarino. “Minha avó materna Maria de Campos foi uma grande heroína. Ela regia a família, era a referência, responsável por todas as decisões dentro da casa. Propunha atitudes e soluções. Estruturou a vida dos sete filhos aqui em casa, pois administrou os ganhos e comprou terrenos para que todos tivessem onde morar quando se casassem”, conta.

Graças à sua avó, sua mãe e sua bisavó, que visitava com bastante frequência nos fins de semana junto a outros 40 netos e bisnetos, Ismael entrou em contato com suas emoções e deixou seus sentimentos falarem por si. As bases do artista genial que ele viria a se tornar, enfim.