02 de janeiro 2018

Explicador Profissional

RodrigoGeribello
02 janeiro 2018

Explicador Profissional

Rodrigo Geribello é um dos explicadores profissionais do Abre Aspas, uma consultoria de comunicação para quem precisa ser entendido
Texto por: Camila Luz

Ser entendido é uma das necessidades básicas do ser humano. O processo parece simples: basta formar umas frases e expor o pensamento. Mas para deixar o outro interessado e causar a impressão que você deseja, é preciso se colocar no lugar dele e escolher bem o que vai dizer.

Rodrigo Geribello é sonoplasta, administrador de empresas e explicador profissional. Ele faz parte do Abre Aspas, uma consultoria de comunicação que presta auxílio para quem precisa ser entendido: seja em uma palestra, apresentação ou em qualquer outra situação.

Rodrigo contou um pouco sobre o processo do Abre Aspas e como preparar uma boa apresentação:

Como você se tornou um explicador profissional?
Estudo piano clássico há 30 anos, desde o sete. Sou músico, mas acabei fazendo administração de empresas. Sempre ficava com um pé no mundo artístico, e outro no dos negócio. Para mim, o melhor caminho é o do meio.

Durante a faculdade, eu fazia as apresentações dos trabalhos em grupo. Comecei a me especializar em Power Point, na ferramenta mesmo. Me aprofundei muito e virei um craque. O meu pai estuda o Egito Antigo e me pediu para fazer uma exposição sobre o assunto. Montei as aulas para ele e isso se tornou meu cartão de visitas. Quando fui trabalhar em empresa, mostrei essa apresentação e comecei a trabalhar com apresentação corporativa.

Então entendi que o Power Point era só uma ferramenta. Comecei a olhar para a parte de roteiro e condução de raciocínio. Até que entendi que as pessoas confundem apresentação com Power Point. Meu negócio não era esse. Era explicar as coisas.

Como vocês prestam apoio a quem precisa aprender a explicar no Abre Aspas?
A explicação cabe em vários formatos, como vídeo, infográfico, desenho, foto… não importa qual você vai usar. A gente nasce explicando, desde o nosso primeiro choro. O difícil é a outra pessoa entender. Para isso, é preciso desapegar, inverter o processo. Em vez de se aprofundar no assunto, precisa se afastar dele.

Quando a gente entendeu que a própria explicação era um meio, e não um fim, começamos a construir várias teorias em volta disso, como a nossa Escala do Entendimento. Elas envolvem a preparação para o momento da explicação e olhar para o outro, para transformar o assunto em uma mensagem que vai gerar algum significado para aquela pessoa.

Então o processo começa pela escuta. Para a gente, a ignorância vale ouro. Quando alguém pede a nossa ajuda, eu digo que preciso entender o mínimo possível sobre o tema e o contexto: quando ela vai apresentar, quem é o público e quais os recursos disponíveis.

O mais difícil é escolher o que falar sobre aquele assunto. Quem sabe muito sobre um tema tem muita dificuldade para selecionar apenas o que interessa àquele público. Perguntamos quantas pessoas estarão na platéia, qual o entendimento prévio delas e qual impressão que gostaria de causar. Quais são as três lembranças que devem ficar na mente delas no fim da apresentação? Assim podemos transformar em uma mensagem interessante.

Também precisamos pensar em quem é você. Qual sua experiência com o palco, qual seu entendimento do assunto.

Vocês também precisa entender um pouco sobre o assunto para ajudar o cliente?

Sim, isso é fundamental. No nosso fluxo, a gente escuta e entende. Sem isso não conseguimos caminhar. Quando entendemos um pouco, conseguimos organizar os elementos e tematizar a mensagem. Ai desenvolvemos e decidimos o formato, como um vídeo ou apresentação.

A gente trabalha uma explicação simples e elegante. Simplicidade é fundamental por causa da audiência, e elegância é usar a arte. São as ferramentas que temos para transformar a apresentação em algo bacana e organizado e deixar o outro atento.

E a parte psicológica de se apresentar em público, vocês também trabalham?

Sim, é uma parte importante. Mas não dá para planejar tudo, às vezes você chega no local da apresentação e a luz acaba. Semana passada isso aconteceu em um evento de startups onde fui dar mentoria. O cara se preparou o final de semana todo para fazer um pitch de quatro minutos para jurados e 100 pessoas. Caiu uma chuva enorme, precisaram mudar o lugar e a luz acabou na hora da apresentação. Mas ele escolheu continuar, segurou super bem a onda e foi ovacionado no final. Então é preciso ler o ambiente e estar preparado para o que pode acontecer.

Uma amiga minha, a Lu Lopes, diz que precisamos pensar em algumas coisas para a explicação. A primeira é exercitar a presença de espírito. Ter presença é fundamental para explicar qualquer coisa. A segunda é reconhecer o momento. Veja onde você está, olhe para a sua audiência e para o que está acontecendo. Saiba a melhor hora de falar e decida quando mudar o discurso no meio do caminho. 

Você pensa em desenvolver algum projeto de explicação para a área de educação?

Absolutamente sim. A gente tem uma relação muito próxima com a área de educação, que está precisando de muita ajuda hoje em dia. Veja o formato das escolas. É muito antigo, não exercita a criatividade dos alunos. Estou pegando a minha experiência de 20 anos em comunicação para construir teorias, métodos e jogos para explicar qualquer coisa para as crianças.

Tenho muita vontade de desenvolver algo para explicar assuntos complexos para crianças de sete anos. Certas coisas precisam ser entendidas, como as mudanças climáticas e o racismo.

Por que as pessoas têm dificuldades para serem entendidas?

Na minha opinião, é excesso de conhecimento. Quando a pessoa sabe muito sobre o assunto, tem mais dificuldade, pois a explicação depende de uma escolha. Não importa qual é o assunto e o quanto você sabe dele. Se não escolher, não vai conseguir explicar.

Essa dificuldade de escolher parte da dificuldade de se colocar no lugar do outro. É isso que você precisa fazer e é para isso que a gente existe.