04 de setembro 2017

Eu e Pepeu

toscani
04 setembro 2017

Eu e Pepeu

Sobre o autor: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

Texto por: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino.

Entender a música de Pepeu Gomes levou tempo.

Ainda mais crescendo no Rio Grande do Sul em 1986.

A música veio me acompanhando a vida toda.

Quando assisti à primeira versão de “Carrossel” na televisão.

Quando fiquei longe de meus pais pela primeira vez.

Quando assisti a “Ghost” e um nó tomou conta de uma garganta.

Eu conhecia esse nó, sempre me acompanhou, normalmente eu conseguia dominar, até alguém olhar nos meus olhos e dizer:

“Tá chorando! Mulherzinha!”

“ Viadinho, chorão!”

Normalmente isso vinha do meu irmão mais velho. Era sua função, de certo modo isso ajudou na minha educação e na construção do meu caráter.

Eu fui dos poucos meninos que brincou de casinha e levou isso a sério.

Também é verdade que brinquei com os ursinhos carinhosos junto à minha vizinha, pra disfarçar escolhia o Zangadinho e o Boa Sorte - azul e verde, respectivamente.

Evitava cor-de-rosa.

Já era muito mal falado pela vizinhança, até meu pai se questionava.

Por que esse menino é tão chorão?

Homem não chora.

Parecia ser a quarta lei de Newton no Rio Grande do Sul.

A gente inclusive aprendia isso na escola.

Homem não chora.

Vi meu pai chorando escondido quando minha avó estava morrendo.

Choramos juntos quando morreu minha mãe.

Homem chora.

Aos 12 anos, a música de Pepeu já fez mais sentido.

Ainda é confortável fazer isso escondido, mas chorar já não é mais um problema, agora é necessidade.

Quando a gente perde a maior figura feminina da nossa vida, aquela com quem teve uma conexão física, um fio de carne quase de umbigo a umbigo, a gente perde a bússola, o referencial. Minha mãe morreu de câncer em 1992.

Fui criado pelas minhas irmãs, pelas minhas tias. Fui criado por meu pai que, uma vez despido seu machismo pelas lágrimas em minha frente, permitiu-se ser minha mãe, cuidar de mim e meu irmão apenas tendo ela em mente e pensando o que ela faria.

Demorou pra se reerguer esse homem.

A fusão dói, o macho que não chora caminhava de manhã bem cedo pra chorar sozinho na rua e dar espaço para o feminino, a força de assumir seu sentimento e construir um caminho novo.

Meu pai não quis mais dormir sozinho. Passamos a dormir juntos. Algumas vezes, de noite, ele me abraçava.

Tinha um súbito e me desvencilhava, com um "que viadagem é essa", depois entendia.

Era muito fácil entender.

Agora entendo muito mais: casado há 16 anos, não sei mais dormir sozinho.

Ele chorou muito quando deixei o Rio Grande do Sul.

Nasceu minha filha, eu sempre quis uma menina.

Brincava que eu queria me incomodar no futuro, usar um bigode e assustar seus pretendentes.

Hoje não penso nisso, penso apenas que ela ame quem quiser e que isso seja maravilhoso, sou feliz por ter uma menina linda que trouxe o meu brincar de casinha na infância para realidade, pro cotidiano.

Trocar fraldas, cozinhar, banhar, ninar, vestir. Foi assim que minha mãe voltou para mim.

Essa rotina trouxe lindas lembranças.

Enquanto isso fora de casa, dentro do trabalho, uma mulher que troca o chuveiro e tem caixa de ferramentas trazia o sustento da casa.

Pagava a maioria das contas.

Uma vez, num churrasco, quando eu contava a todos um pouco do meu estilo de vida, agora em São Paulo como "dona de casa", um amigo indignou-se e bradou, batendo na mesa, que isso não era coisa de homem.

Ri e a música fez muito mais sentido pra mim.

Se eu tiver que me privar dos meus sentimentos para ganhar um título de homem de verdade, prefiro viver a mentira.

Um mundo de faz de conta onde ser feminino é apenas ser humano.

"Ser um homem feminino não fere meu lado masculino."