03 de janeiro 2018

Escola de Ser

Escola de Ser
03 janeiro 2018

Escola de Ser

Premiada por sua atuação na defesa dos direitos das crianças e adolescentes, a entidade prioriza a afetividade, a responsabilidade e o cuidado com o outro
Texto por: Julliane Silveira

Há dez anos, crianças da periferia de Rio Verde, em Goiás, têm a oportunidade de serem protagonistas de seu aprendizado. A cidade abriga a Escola de Ser, fundada pelo Instituto Cores com inspiração na Escola da Ponte, de Portugal, que aplica a metodologia democrática, em que crianças e adultos constroem juntos a escola e o processo de aprendizado.

Lá não existe hierarquia. Isto é, os professores não são superiores aos estudantes no que diz respeito à montagem do currículo e atividades propostas. Aluno e educador, juntos, traçam metas de acordo com as potencialidades e habilidades da criança.

Também juntos cuidam do espaço: uma ampla casa cercada de verde, com pomar, redes de descanso, cinema, cama elástica e sala de informática. É comum ver meninos regando as plantas ou ajudando a preparar o café, por exemplo. Todos os dias, as tarefas são cumpridas de forma coletiva, a fim de manter o ambiente escolar organizado e limpo. Meninos, meninas e professores se dividem em atividades, como guardar brinquedos, varrer o lixo dos recortes, organizar os livros da biblioteca e lavar os utensílios do lanche. Até mesmo os visitantes entram na roda, se estão no local no horário da organização. Dessa forma, as crianças aprendem a dividir de forma justa as obrigações diárias, sem distinção de gênero ou de cargo.

Apesar do nome, a Escola de Ser é uma ONG que oferece disciplinas complementares aos alunos, no período contrário ao da escola regular. Há aulas de teatro, artes, inglês, projetos de pesquisa (cujo tema é escolhido pelo aluno) e as aulas das possibilidades. “Somos um projeto social criado para abranger as disciplinas de outras formas”, explica a psicóloga Nathália Borges, coordenadora do projeto de relações de gênero da escola.

A ONG atende 60 crianças de seis a 14 anos de idade, que chegam ao local às 8h, tomam o café da manhã com os professores e participam de uma assembleia e de um momento de leitura. O recreio dura uma hora – em resposta à solicitação dos próprios alunos. No final, contam um pouco de suas vidas em um momento de partilha e deixam o local às 11h30, a tempo de se arrumarem para a escola regular, que frequentam no período da tarde.

Aulas das possibilidades

Entre as aulas ministradas na escola, a chamada "das possibilidades" é a que chama mais atenção. Nessa disciplina, são tratadas questões de gênero focadas no empoderamento das meninas. “Percebemos que é sempre mais fácil falar sobre esse tema com as meninas e que os meninos sempre eram mais resistentes, porque eles entendiam que iriam perder privilégios, como o direito de dominar e de mandar”, explica Nathália.

Para tornar as discussões mais fáceis para os dois sexos, a escola criou um material específico, “O Livro das Possibilidades – Princesas de Capa, Heróis de Avental”. “Usamos os recursos das princesas e dos super-heróis porque estão presentes no imaginário social, nos filmes e esses personagens sempre passam um estereótipo do que é ser menino e menina. Conseguimos acessar o mundo das crianças de forma mais lúdica”, diz Nathália.

O nome da publicação propõe aos alunos uma inversão dos papéis socialmente colocados para homens e mulheres, para gerar reflexão e discussão em sala de aula. Um exemplo é a história da Ariel. A sereia se casou muito jovem e abandonou o dom de cantar para viver um grande amor. A partir do conto, os alunos estudam as leis de casamento no Brasil, questões relacionadas ao casamento infantil e conversam sobre mulheres que precisam deixar de fazer coisas de que gostam para ficar ao lado do marido. “Ao mesmo tempo, mostramos um super-herói mais humano, um Batman que cozinha para filhas, por exemplo”, complementa Nathália.

O projeto deu tão certo que deu origem a um curso online, voltado para educadores que buscam novas ferramentas para trabalhar questões de gênero com os alunos. Para as coordenadoras do projeto, os espaços educativos precisam estimular a emancipação e o pensamento crítico de meninas e meninos, para que estejam aptos a fazer escolhas conscientes no futuro.

“Tentamos retirar o machismo das práticas. Além das aulas das possibilidades, todo mundo brinca do que quiser, não tem essa de que boneca é coisa de menina. Nosso futebol é misto, jogos clássicos são para todos e os alunos se respeitam. Quando chega um novo colega cheio de ideias estereotipadas e preconceituosas, as próprias crianças se corrigem”, conta Nathália.

Na Escola de Ser, meninas podem sonhar em ser cientistas, engenheiras, esportistas, cozinheiras e até mesmo princesas. Desde que o direito delas seja sempre respeitado: de ter a liberdade de ser o que quiserem.