29 de setembro 2017

Escambo para resgatar o que há de mais essencial em nós

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29 setembro 2017

Escambo para resgatar o que há de mais essencial em nós

Num mundo em que treinamos para consumir de forma mais sustentável e significativa, o que temos de mais valor para trocar?
Sobre o autor: Coluna Green Park Content - Livia Deodato

A Green Park Content é uma empresa global especializada em produção de conteúdo e responsável por este site. Neste mês, escreve nesta coluna a jornalista Livia Deodato. Livia é ex-editora do site e passou por algumas das maiores redações do país, trabalhando como repórter e editora. Também aplica Reiki, estuda o Sagrado Feminino e acredita em um mundo mais amoroso e cuidadoso.

Texto por: Coluna Green Park Content - Livia Deodato

A Green Park Content é uma empresa global especializada em produção de conteúdo e responsável por este site. Neste mês, escreve nesta coluna a jornalista Livia Deodato. Livia é ex-editora do site e passou por algumas das maiores redações do país, trabalhando como repórter e editora. Também aplica Reiki, estuda o Sagrado Feminino e acredita em um mundo mais amoroso e cuidadoso.

Tem uma coisa que sempre me intrigou ao longo da vida: pessoas que passam grande parte de seu tempo fazendo o que não gostam, apenas por dinheiro. Que, muitas vezes, passam mais de oito horas por dia trancafiadas em salas sem janelas, cumprindo tarefas que nada têm a ver com aquilo que mais lhes dá prazer. Já parou para pensar em como a vida seria diferente se não precisássemos de dinheiro? Se isso fosse possível, você estaria fazendo o que faz?

Todos temos características e capacidades diferentes e, juntos, poderíamos construir uma rede mais forte de cooperação em que todos sairiam ganhando. Nesse mundo ideal, mais colaborativo e solidário, em que cada um pudesse entregar ao outro o que tem de melhor, teríamos espaço para usar todas as nossas potencialidades, que há muito foram sufocadas por motivos rasteiros, como "isso aí não vai dar dinheiro, esqueça".  

Afinal, como criar esse mundo ideal em que acordaríamos felizes e com disposição todos os dias? Será que tem um jeitinho especial para trabalhar na construção dele?

Eu sempre me encantei pelas histórias de vida das pessoas. Ficava com o coração apertado quando eu não ganhava espaço suficiente no jornal ou na revista para contar histórias valiosas das pessoas que tinha acabado de conhecer. Ao final de cada entrevista que fazia, eu agradecia aos deuses por aquela oportunidade e sempre me perguntava o que eu poderia fazer com tudo aquilo que ouvi e que não cabia na publicação.

Lembrava de amigos e parentes que adorariam estar ali ao meu lado e que tinham tudo a ver com aquelas pessoas que eu tinha acabado de entrevistar. E me perguntava: será que pode haver uma forma de conectar todas essas pessoas? Eu acredito que todo mundo cruza o nosso caminho por um motivo e que podemos fazer a diferença na vida de cada uma delas.

O Escambo de Talentos surgiu em janeiro deste ano como resultado dessa e de algumas outras reflexões que eu fiz e continuo fazendo ao longo da minha vida profissional e também pessoal. Mas, veja bem, o escambo nada tem de novo ou original. Ele data de tempos remotos, quando a moeda ainda não tinha sido inventada. Era a forma encontrada para trocar uma mercadoria ou um bem por outro, sem o uso do dinheiro.

Se pararmos para pensar sobre os valores das coisas hoje em dia, a que conclusão chegamos? Estamos pagando um preço justo para morar, vestir, comer, fazer cursos, viajar? E se pensarmos no salário que recebemos pelo nosso trabalho? Faz sentido um jogador de futebol ganhar mais de um milhão por mês, enquanto um gari ganha pouco mais de um salário mínimo? Você conseguiria viver sem o trabalho de um jogador de futebol? E sem o trabalho de um gari?

A partir dessas questões, podemos começar a pensar: quanto vale e para quem serve o nosso conhecimento?

Num mundo em que estamos treinando para consumir de forma mais sustentável e significativa, o que temos de mais valor para trocar? Se você já faz isso no seu dia a dia com o seu trabalho, não tenho dúvidas sobre a sua felicidade. Mas conheço muita gente que procura fazer essas trocas valiosas em seu tempo livre, porque o trabalho remunerado em si, infelizmente, não agrega muito nesse sentido.

Acredito que foi nessa boa onda que o Escambo de Talentos surgiu e está crescendo a cada dia, a partir da disposição de pessoas que têm muitas habilidades e gostariam de trocá-las por puro prazer. De quebra, ainda ganham novos amigos. Ao entrar no grupo do Facebook, você diz o que pode oferecer e o que busca em troca. Outras pessoas, que se identificam com os talentos postados, podem comentar e pronto! É só agendar dia e hora para que o escambo aconteça.  

Dezenas de trocas já aconteceram ali: um corte de cabelo por reparos domésticos, uma massagem ayurvédica por uma consultoria em marketing digital, uma tatuagem por aulas de cerâmica. A ideia do grupo mexeu com o brio de algumas pessoas, que se viram cheias de dúvidas e começaram a se perguntar se tinham realmente algum talento para trocar. E a boa notícia é que todos temos muitos talentos. Eles às vezes só estão um pouco escondidos, esquecidos em meio à correria do cotidiano. Um bom exercício é começar pensando naquilo que sempre lhe deu prazer em fazer.

Talvez o Escambo de Talentos seja uma maneira de repensar sobre as nossas relações com as pessoas, com os objetos, com os serviços, os valores que tudo isso tem e os ganhos que estamos acumulando a longo prazo – e que nada têm a ver com o dinheiro. O valor que o Escambo de Talentos agrega, assim como diversas outras iniciativas de economia colaborativa, é intangível e imensurável.  

As pessoas ali estão ganhando novos amigos, novas habilidades. Elas estão descobrindo que são capazes de fazer coisas que antes apenas sonhavam (ou nem sequer imaginavam). Elas estão resgatando valores caros a todos nós, como a confiança, a empatia, a solidariedade, o altruísmo, o amor.

Mais de uma pessoa já veio me contar que soube pelo grupo que o melhor amigo tinha habilidades que nem ela fazia ideia. É notável também a felicidade das pessoas quando encontram um bom parceiro para fazer um escambo, sem contar a melhora da auto-estima. Aquilo que você sempre sonhou é possível fazer acontecer imediatamente e na base do escambo, ou seja, sem custo algum.

John Lennon e Raul Seixas já cantaram um dia: "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade". Eles já sabiam que um novo mundo só seria possível se todos fôssemos capazes de colaborar uns com os outros.

Eu arriscaria dizer que a era da competição está bem próxima do fim.