06 de fevereiro 2018

Emoções não são inconvenientes que você pode ignorar

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06 fevereiro 2018

Emoções não são inconvenientes que você pode ignorar

Sobre o autor: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Texto por: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Dizem que mulheres são sentimentais e que homens são mais racionais. Paralelamente, quando mulheres demonstram emoções inconvenientes para os outros são tidas como loucas. Por que essa imagem negativa dos sentimentos femininos? E será que existe mesmo isso de sentimentos intrinsecamente femininos ou será que somos ensinados a acreditar que sim? Será que tem alguém de fato se beneficiando com essa crença? Adianto que não. 

Talvez a maior dificuldade de relacionamento entre homens e mulheres -- e isso não se limita aos afetivo-sexuais -- é que homens e mulheres são criados de maneiras muito diferentes. Por mais que muitas vezes a família tente transgredir a norma, a sociedade como um todo estimula que mulheres sejam mais ligadas à emoção e homens à razão, como se fossem duas áreas distintas que não se misturam. Isso é tão básico que chega a passar a impressão de que homens e mulheres são naturalmente, biologicamente, diferentes nesse quesito, quando, na verdade, somos nós como sociedade que construímos esse modo viver. Essa construção se dá desde a infância, com brinquedos que estimulam habilidades diferentes, e segue por toda a vida, de formas variadas, repetidas e reforçadas.

Aquilo que se entende por gênero no senso comum é baseado em uma dicotomia (homem x mulher), composta por dois polos essencialmente diferentes. Na lógica dos binarismos, o primeiro polo é sempre o dominante e o segundo é o submisso. Isso se vê em outros pares como razão x emoção, praticidade x indecisão, assertividade x insegurança, e assim por diante. Também no senso comum, as características do primeiro polo (as que são consideradas positivas) são aquelas associadas ao masculino, assim como as do segundo polo (consideradas negativas) são associadas ao feminino. Em suma, ensinam mulheres a ser tudo que está no segundo polo dos binarismos e depois dizem que mulheres são inferiores exatamente por causa dessas características.

É dessa forma que ensinamos a reprimir emoções -- homens desde cedo e mulheres com o tempo, pela carga negativa que aprendemos que as emoções têm. Criamos uma sociedade composta por pessoas que não sabem reconhecer os próprios sentimentos, lidar com eles e muito menos estar em convivência com os dos outros. Acontece que emoções não são um inconveniente que a gente possa simplesmente deixar de lado e afastar. Emoções são humanas e, não importa o quão atrofiada esteja nossa capacidade de lidar com elas, elas existem em todos nós, independente de gênero.

A questão mais complicada nisso tudo é não reconhecer o problema e deixar pra lá, tentar resolver por medidas que não têm como resolver. No segundo episódio da quarta temporada de Bojack Horseman, uma mulher não consegue lidar com a morte do filho na guerra. É uma série dramática, mas também de humor, de modo que a reação do marido diante da depressão dela é dizer: “Sendo um homem americano moderno, tragicamente não estou preparado para lidar com as emoções de uma mulher. Nunca fui ensinado e não vou aprender.” A solução que encontra é fazê-la passar por uma lobotomia, o que era comum na época em que a cena se passa.

Embora lobotomias para lidar com “as emoções de uma mulher” não sejam mais algo comum como foi no passado, o estereótipo da mulher histérica persiste, bem como o homem padrão que simplesmente não tem saco pra aturar isso. O homem padrão é esse que não sabe o que fazer com emoções e nem se dá o trabalho de se esforçar pra aprender. Quando uma mulher começa a demonstrar sentimentos demais, o homem padrão oprime, reprime ou foge. Como consequência ou precaução, há também mulheres com medo de demonstrar o que sentem. No fim das contas, o que temos é um monte de indivíduos despreparados, emocionalmente imaturos e para sempre tendo problemas pessoais, interpessoais e até profissionais decorrentes disso.

Precisamos aprender a valorizar as emoções, se não pelo que elas são, ao menos pelo fato de que ignorá-las só nos faz mal. Emoção reprimida não desaparece, ela só sai de vista e acaba transbordando por pequenas coisas, quando você menos espera, das piores formas e às vezes trazendo consequências negativas irreversíveis. Não ter aprendido a lidar com emoções não é desculpa para ainda não saber. Se não nos ensinaram, vamos buscar aprender. Isso funciona tanto para o nosso próprio bem, internamente, como para o bem de nossas relações interpessoais.

Emoções não são uma chatice que você pode escolher se vive ou não. Mesmo que você não se responsabilize por elas e não as trate explicitamente, elas estão lá. Também não são uma coisa ruim que devemos abafar. Somos feitos completamente de emoções e, quando não cuidamos delas, não cuidamos de nós mesmos.