02 de janeiro 2018

Emily Lima e o futebol feminino

Foto: Lucas Figueiredo/CBF - Divulgação
02 janeiro 2018

Emily Lima e o futebol feminino

Para a ex-jogadora e ex-técnica da seleção brasileira, o país está dando os primeiros passos para valorizar esse esporte, mas ainda há um longo caminho a percorrer
Texto por: Camila Luz

O futebol feminino brasileiro ganhou espaço nos últimos anos e uma das responsáveis pela valorização da modalidade por aqui é Emily Lima. A ex-jogadora tomou gosto pela gordinha quando era criança e jogava com os primos no sítio dos avós. Na adolescência, jogou no SAAD, um dos times pioneiros, e no São Paulo.

Passou por outros clubes no país e jogou por cinco anos na Europa. Aos 29 anos, encerrou sua carreira como atleta na Itália, por causa de várias lesões no joelho. Mas isso não a impediu de continuar apoiando o futebol feminino. Atuou como auxiliar técnica em Portugal, comandou o Juventus e o São Caetano do Sul, onde ficou até assumir o São José.

No final de 2016, Emily fez história se tornar técnica da seleção brasileira de futebol feminino - a primeira mulher no Brasil. A CBF foi elogiada pela escolha, considerada um grande passo na valorização da modalidade. Seu início à frente do time foi um sucesso, marcado por uma série de vitórias. No entanto, foi demitida em setembro deste ano, após sofrer derrotas consecutivas.

Na opinião de Emily, o Brasil está abrindo espaço para as mulheres no futebol, mas ainda precisa evoluir muito para superar os obstáculos criados pelo machismo.

Como o futebol se tornou uma opção de carreira na sua vida?
Tudo começou com a minha família. Desde novinha eu ia para o sítio dos meus avós e jogava com meus primos. A gente praticava vários esportes, mas o futebol chamava mais a minha atenção. Quando fiz 13 ou 14 anos, participei de uma peneira no SAAD. A partir daí tive certeza de que gostaria de ser uma profissional.

Muitas meninas que sonham em jogar profissionalmente não recebem o mesmo apoio da família que você recebeu. Qual conselho você daria para as adolescentes que gostariam de seguir carreira profissional?
Hoje as coisas estão mais fáceis do que quando comecei. Basta elas correrem atrás e procurarem um dos diversos clubes que têm futebol feminino. A CBF e o Conmebol estão obrigando os clubes a criar times femininos, então temos que levar isso pelo lado positivo e acreditar que vai dar tudo certo. Eu sou um pouco suspeita porque sempre acreditei, apesar das dificuldades. Mas chegamos ao patamar onde estamos hoje e vamos evoluir mais ainda no futuro. Então digo que tenham força de vontade e acreditem no seu sonho de serem jogadoras profissionais.


Você jogou futebol por times da Espanha, Itália e em Portugal. Notou alguma diferença entre a forma como o futebol feminino é encarado na Europa e aqui?
Muita. É como água e vinho. O futebol feminino na Europa é tão valorizado quanto o futebol masculino no Brasil. Isso entre 2003 e 2004, quando me mudei. Hoje a modalidade deve estar ainda mais desenvolvida por lá.

Por que existe essa diferença?
Acho que é cultural. Nosso país é machista, não só com o futebol feminino. Em todas as áreas que a mulher tenta se envolver, o machismo está lá para dificultar as coisas e não deixar acontecer.

Aos 29 anos, você se aposentou precocemente por causa de uma série de lesões no joelho. O que mudou na sua vida depois disso?
Fiz minha primeira cirurgia aos 21 anos, mas só me aposentei com 29. O impacto foi profundo e atingiu todas as áreas da minha vida. Deixei de ser atleta para ser dirigente, gestora, treinadora. O profissionalismo continuou o mesmo, até porque já conhecia as dificuldades pelas quais as atletas passam. Para quem vai assumir cargos como o de treinadora, há uma grande vantagem em já ter experiência prévia como atleta.

Na sua opinião, qual a importância de uma mulher treinar um time feminino?
Acho que quem estiver capacitado para assumir a função, independente do gênero, vai corresponder às expectativas. É claro que fora do campo, em uma conversa, um jantar ou no vestiário, as jogadoras se abrem mais e se sentem mais confortáveis quando a treinadora é mulher. Mas, em relação a treinamento, não faz muita diferença. Basta estar capacitado.

Ter mais mulheres trabalhando como treinadoras estimularia meninas a se tornarem jogadoras?
Não sei se isso especificamente estimularia. Acho que precisamos de pessoas que se interessem pela modalidade, homens ou mulheres, para ajudar as meninas a se interessar mais. Temos muitas ex-atletas que poderiam ser treinadoras, mas perderam a vontade por causa do desrespeito que o futebol feminino sofre no Brasil. É importante termos mais pessoas que realmente estejam a fim de ajudar.

O que falta para o futebol feminino ser valorizado no Brasil?
Acho que o Conmebol, a Fifa e a CBF já estão dando os primeiros passos ao obrigar os clubes a criar times de futebol feminino. Eles estão começando a se movimentar a favor da modalidade. Basta as pessoas entenderem que o futebol feminino vai virar uma realidade no país e trabalhar em cima disso.

E quais são os planos para o seu futuro?
Vou dar sequência na minha carreira. Vou terminar as licenças da CBF e devo definir para onde vou em 2018 até o final de dezembro. O Rodrigo, meu empresário, está estudando as possibilidades e em breve vamos definir.