10 de julho 2017

Em voz alta

Leitura
10 julho 2017

Em voz alta

Pessoas de diversas faixas etárias e profissões se encontram para ler juntas clássicos da literatura
Texto por: Livia Deodato

Há quanto tempo você não lê um livro clássico, daqueles de mais de 200 páginas? Falta foco, tempo ou motivação? Um grupo de Porto Alegre (RS) resolveu esse problema de uma maneira coletiva e colaborativa: toda semana, pessoas se reúnem para fazer uma leitura em voz alta de uma grande obra.

No momento, eles estão lendo “Cem Anos de Solidão”, o clássico de Gabriel García Márquez, que completa em 2017 50 anos da primeira edição. É com ele que muita gente ali está redescobrindo o prazer da leitura em grupo.

Luiza Milano foi a fundadora do grupo de leitura em voz alta. Formada em fonoaudiologia e com pós-graduação em letras, ela sempre se questionou a respeito dos “limites e possibilidades do encontro entre a palavra, a voz e a escuta na relação entre as gentes”.

Luiza é professora de letras e fonoaudiologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e foi em sala de aula que surgiu a ideia de fundar o grupo. No final de 2014, ela e seus alunos decidiram ler em conjunto a obra clássica da literatura brasileira “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa. E assim foi durante todo o ano de 2015. “Uns quantos queridos me acompanharam nesta aventura”, relembra.

A experiência de troca que nasce a partir do encontro e da relação entre o texto escrito, a voz e a escuta é algo único, segundo a professora. “A leitura em voz alta compartilhada é quase um gesto de resistência ao ritmo louco do ‘eu não tenho tempo de…’. Ali a gente para, sai de casa ou do trabalho e se reúne com gente que tem um compromisso puro e simples de compartilhar voz e escuta”, diz. “Na roda de leitura, a gente sente falta da voz de um participante que não veio, a gente segura a onda de uma voz que está cansada e a gente ri ou se emociona com certas entonações dadas. Enfim, trata-se de uma experiência que acaba gerando uma certa parceria ou solidariedade. Diria até que a gente se torna cúmplices uns dos outros!”.

Trocas

“Grande Sertão: Veredas” foi lido em nove meses. Os encontros geralmente acontecem uma vez por semana por duas horas (atualmente, às quartas-feiras, das 18h às 20h). Nos dois primeiros anos do projeto, o grupo se reuniu no Instituto de Letras da UFRGS. Como o número de interessados aumentou, tiveram de pensar em um novo lugar para os encontros. Foram acolhidos pelo bar Parangolé, localizado na Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre.   

O grupo atual de leitura em voz alta é bem heterogêneo: há estudantes, professores, psicólogos, psicanalistas, jornalistas, escritores, atores, donas de casa, aposentados. A frequência varia entre 14 e 40 pessoas presentes. Quem não consegue ir fica chateado e depois desabafa com Luiza, que levou um tempo para entender a lástima, já que os encontros são livres. “Venho me dando conta de que talvez estejam lastimando não conseguirem frear a correria do dia a dia para estar com o outro, para escutar o outro. E é simplesmente isso que vivenciamos lá: compartilhamento da voz e da escuta do outro. Percebo que isso não é pouco nos dias de hoje."

Outro ponto interessante notado por ela é a cumplicidade que naturalmente surgiu entre os participantes nesses encontros e “uma necessidade de estarmos juntos para prosseguir na travessia”. A escuta, artigo cada vez mais raro principalmente nas cidades grandes, tornou-se moeda valiosa novamente. “Escutar o outro é também ser suporte para que a voz dele tenha tanto espaço quanto a minha, ou seja, essa construção coletiva de interpretação de uma obra literária funciona também uma metáfora de um jeito menos individualista de estar no mundo.”