05 de outubro 2017

Em busca das raízes

coletivo abebe
05 outubro 2017

Em busca das raízes

Coletivo Abebé enaltece a cultura afro-indígena brasileira
Texto por: Debora Stevaux

Livros de história estimam que, quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, existiam até cinco milhões de índios por aqui. Hoje, há 220 etnias indígenas no país e a maioria possui um número ínfimo de representantes. De acordo com o último censo, pouco menos de 900 mil indígenas vivem no território brasileiro.

Assim como a população indígena, que foi reduzida significativamente pela ação violenta dos colonizadores, os negros também sofreram um apagamento histórico. Estima-se que um milhão e setecentos mil africanos foram trazidos para cá como escravos. Mas o que se sabe hoje sobre os milhões de índios e negros que viveram nestas terras? Que línguas falavam? De que forma viviam? Como se comunicavam? Quais eram seus hábitos alimentares? Seus traços culturais? Os estudos existem, mas são poucos pelo número de indivíduos que, por séculos, carregaram nas costas largas o país, que aqui construíram, a duras penas, suas histórias.

Foi pensando na necessidade de valorizar a cultura afro-indígena e de refazer os caminhos perdidos da própria história que os irmãos Charles Borges, 24, e Thays Borges, 20, criaram juntos, há poucos meses, o Coletivo Abebé. É uma ferramenta pública para apresentar, enaltecer e discutir sobre as raízes indígenas e afrodescendentes da cultura popular brasileira.

Thays é influenciadora digital e possui mais de 60 mil seguidores no Instagram. Ao publicar conteúdo sobre como é importante para as mulheres negras se reconhecerem como autoras de suas próprias histórias, percebeu na reação de suas seguidoras a necessidade de falar mais sobre isso. Começou a pesquisar sobre empoderamento feminino e a se debruçar sobre questões como a objetificação do corpo da mulher negra; “Comecei a falar sobre isso, sobre como as mulheres negras e periféricas estão no posto de maior inferioridade, passei a questionar isso. Sempre fui muito didática e via que as meninas estavam gostando, que se interessavam pelo assunto.” Então, ela viu a necessidade de reunir todas essas ideias e experiências. “Assim criamos o Abebé com o intuito de trazer nossa ancestralidade, que não é vista nem ouvida, para ser evidenciada”, explica.  

Filhos da mãe solo, Charles e Thays possuem ascendência indígena baiana da tribo dos tupinambás por parte da mãe e negra do estado de Minas Gerais pelo pai. A dupla se divide na produção de conteúdo para o site, que reúne artigos sobre temas diversos como empoderamento étnico, feminismo negro, filmes, fotojornalistas, além de uma agenda cultural e ensaios fotográficos produzidos pela própria equipe do Coletivo. O portal é acessado, principalmente, por jovens com idades entre 15 a 30 anos e de diversas regiões do Brasil.

Abebé significa, em Nagô Yorubá, um espelho em formato de leque, utilizado pelas orixás Oxum e Iemanjá, entidades sagradas de matriz africana, alocadas ao lado do Divino Criador. Suas vibrações energéticas representam a criação, o amor, a prosperidade, as águas sagradas e a fertilidade. O Abebé possui um significado engrandecedor, pois simboliza o poder do autoconhecimento para a resistência das pessoas. “Desde 2015 conversávamos sobre a importância de levar essas informações para as pessoas, sobre a história do negro, do índio no Brasil, as discussões que cerceiam a miscigenação do negro com o índio. O nosso objetivo é fazer isso por meio da  arte”, explica Charles.