27 de novembro 2017

Educação sexual para crianças

educacao sexual
27 novembro 2017

Educação sexual para crianças

Especialistas explicam como e por que o diálogo é a melhor saída para ajudar o filho no processo de reconhecimento do próprio corpo e identidade
Texto por: Debora Stevaux

Segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, sexualidade é a qualidade do que é sexual. O substantivo feminino também aparece definido como o modo de ser próprio do que tem sexo. Isto quer dizer que todos os seres humanos devem estar conscientes de sua sexualidade - crianças e adultos. Mas muitos preferem se esquivar do assunto com os mais pequenos, ainda considerado tabu para alguns pais e responsáveis.

É na primeira infância, no entanto, que ocorrem as descobertas mais importantes da vida, incluindo as que dizem respeito ao próprio corpo, e não somente ligadas ao órgão genital feminino ou masculino. Nessa fase da vida, até os três anos de idade, são constituídas as primeiras noções das diferenças entre feminino e masculino: “Portanto quanto mais rígidas forem vivenciadas estas diferenças, maior dificuldades os indivíduos terão de compreender sua complementaridade ao longo da vida. Todos nós somos constituídos por atributos femininos e masculinos com maior ou menor intensidade, seja na combinação deles, seja na negação de uns em detrimento dos outros”, explica a antropóloga feminista Ana Laura Lobato, pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Nem mesmo entre adultos o tema é tranquilo. A sexualidade é tratada somente em momentos de muita intimidade ou em forma de deboche. Não se fala naturalmente de prazer e desejo e, com isso, ocorre a falta de tato e aptidão para introduzir o tema às crianças.” Por um lado há uma forte representação de que a sexualidade está reduzida ao ato sexual entre duas pessoas, preferencialmente de sexos opostos. Algumas pessoas também creem que as crianças são sujeitos desprovidos de desejo e prazer. O que acaba por tornar a sexualidade absolutamente interditada para os pequenos”, analisa Ana Laura.

O pais, como primeiros educadores das crianças,  precisam buscar uma postura ativa, pois é na omissão que o tabu sobre essas questões se sustenta. É a opinião de Julieta Jacob,  educadora sexual e uma das idealizadoras do projeto Clitóri-se, que busca apresentar a anatomia e a fisiologia da mulher de forma simples, afetiva e descomplicada.“Precisamos reconhecer nossa parcela de culpa e também o nosso poder para mudar a forma como encaramos a educação sexual”, alerta. “Essa dificuldade se deriva da ideia equivocada de que a sexualidade é algo inato, e não um processo de aprendizagem no qual pais e mães têm papel ativo”, completa.

Se não ocorre um diálogo a partir das curiosidades das crianças sobre o corpo, a diferença entre os genitais, de onde vêm os bebês e por que as pessoas se apaixonam, a conversa na adolescência não terá sucesso e não fluirá de forma natural. “É imprescindível a criação de um vínculo anterior, formado a partir de conversas tranquilas e esclarecedoras ainda na infância. É a melhor forma de preparar o caminho para as orientações sobre sexobe sexualidade típicas da adolescência”, aconselha Julieta.

O medo das perguntas e as histórias mirabolantes

O curta-metragem britânico What's Virgin Mean?, com mais de sete milhões de visualizações, apresenta, de forma cômica uma dessas situações embaraçosas. O vídeo foi utilizado pela neuropsicóloga Deborah Moss, para elucidar que, na maioria das vezes, as perguntas nem são tão cabeludas assim. Mas o simples fato das crianças questionarem já deixam os pais ou familiares nervosos.

Geralmente, essas dúvidas surgem por volta dos quatro anos de idade, ou seja, quando a criança começa a se perceber como indivíduo. “Por que eu tenho um pipi e a minha irmãzinha não tem? Da onde vêm os bebês? São dúvidas recorrentes dessa faixa etária, de quem começa a perceber a própria sexualidade. A melhor forma de lidar com isso é responder apenas à dúvida - não é necessário falar nada além do que foi perguntado. Outra estratégia eficaz é sempre tentar destrinchar melhor a pergunta, da onde veio, o que exatamente seu filho quer saber. Veio de uma situação próxima ou é uma hipótese? Na maioria das vezes, uma resposta simples e objetiva basta para aquele momento. “O constrangimento surge quando os pais começam a tentar transformar uma informação do universo adulto para o infantil”, explica Deborah.

A escola também cumpre papel fundamental quando o assunto é educação sexual. Entretanto, no Brasil, a situação é preocupante: de acordo com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), a forma de abordar a sexualidade e a prevenção da gravidez na adolescência sofreu um retrocesso inegável a partir do ano de 2011, em âmbito nacional, em decorrência da polêmica com o material educativo Escola sem Homofobia, conhecido de forma pejorativa como “kit gay”, que foi recolhido em todas as escolas em que havia sido distribuído.

Atualmente, não há iniciativas no âmbito de políticas públicas de educação sexual, tampouco dispomos de uma diretriz nacional para realizá-las. O que vemos são educadores sem preparo e incentivo que têm receio de abordar o assunto em sala.  “Tanto em casa quanto na escola é fundamental abordar aprendizagens sobre diversidade e sobre consentimento. Quanto antes, melhor. São conteúdos amplos que tangenciam de forma crucial as vivências sobre sexo e sexualidade, sobretudo no que se refere à prevenção às violências sexuais e aos relacionamentos abusivos”, conta Julieta.

A diferença na educação sexual perdura entre meninas e meninos

Se para os meninos se tocar é algo normal, para as garotas, ainda é considerado algo feio, “não é coisa de menina”. A noção de mundo e do próprio corpo é construída socialmente. “A dificuldade das meninas não é natural assim como não é a facilidade dos meninos. Tanto uma situação quanto a outra retratam a forma como nossa sociedade encara as permissões sexuais para cada gênero. Para os meninos, livre acesso; para as meninas, a interdição. Uma abordagem claramente machista e que revela como a construção discursiva da sexualidade ao longo da história sempre teve um referencial masculino”, pontua Julieta.

Independentemente de ser do sexo feminino ou masculino, o intuito da educação sexual deve ser apenas um: orientar jovens para fazer escolhas sexuais de forma inteligente e autônoma, o que envolve a segurança e a saúde sexual, o uso de camisinha e a prevenção à gravidez não planejada e também sobre como se relacionar com outras pessoas. “O que envolve aprender sobre respeito e consentimento. Envolve também, desde a base, falar sobre relações de gênero e entender que elas não são naturais, mas construídas num processo de negociação desigual em que um polo (masculino) ocupa o lugar de privilégio sobre o outro (feminino)”, esclarece Julieta.

O incentivo da autoexploração sexual masculina é não só aprovada como legitimada com um grau significativo pela sociedade como um todo. Para além das construções sociais, a anatomia feminina e masculina também influencia nessa situação. Se, por um lado, o pênis é externo, um facilitador para a exploração da intimidade do garoto com o próprio corpo, a genitália das garotas não fica à vista. Isso pode ser facilmente constatado quando, em uma roda de amigas, pouquíssimas dizem que se tocam que faz isso tem vergonha de dizer. Já entre eles, quase a totalidade dos homens revelam, sem maiores problemas, que se masturbam.

O primeiro passo é reconhecer essa desigualdade e compreender o cenário em que se instala. Dessa forma, é imprescindível oferecer às meninas uma educação sexual sem tabus, mitos nem preconceitos baseados no gênero. “Estimular as meninas a pegarem um espelhinho para conhecerem a anatomia de sua vulva é uma atitude simples e também revolucionária. Já para os meninos, é fundamental trazer a discussão sobre masculinidades para além do padrão heteronormativo de hipersexualidade e agressividade”, diz Julieta.                    

Pornografia e o acesso irrestrito à internet

Uma pesquisa realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), apontou que, em 2015, 66% dos jovens com idades entre 9 a 17 anos confessou acessar a internet ao menos duas vezes por dia

O acesso irrestrito à internet representa um problema grave tanto para crianças quanto para adolescentes e representa riscos graves para meninos e meninas.O boom da internet também afetou a forma como as crianças se comportam, por causa do excesso de informação que também atinge os pequenos. Por isso, é fundamental que os pais e responsáveis sejam responsáveis pela filtragem do tipo de conteúdo que as crianças acessam. “Antes, para um garoto assistir pornografia, ele precisava ir acompanhado de uma pessoa maior de idade até a locadora. Hoje, uma criança pode assistir tranquilamente até mesmo no Youtube. Um exemplo que aconteceu comigo: minha filha digitou a letra “P” de Peppa na busca do site e foi direcionada para um vídeo fazendo analogia da personagem com um pênis. Ela não sabe escrever, mas já identifica as letras e por isso nem me chama para assistir ao desenho”, relata Deborah.

O fácil acesso à pornografia por crianças é só mais um dos pontos preocupantes nessa discussão: pesquisadores da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, comprovaram que, quanto menor for a idade em que o homem entra em contato com fotos ou vídeos de sexo explícito, maiores são as probabilidades de sentir necessidade de exercer poder durante a relação sexual sobre as mulheres. Portanto, é importante que os pais repensem o que a naturalização da agressividade em peças pornográficas pode significar na construção da masculinidade tóxica. “Toda a abordagem de educação sexual deve se basear numa prática dialógica, reflexiva e democrática. Os direitos sexuais e reprodutivos são direitos humanos fundamentais e devem ser garantidos para todos e para todas, sem restrições ou privilégios com base no gênero ou na sexualidade”, diz Julieta.  

A vulnerabilidade das crianças e o assédio sexual

Somente no ano de 2014, o governo federal contabilizou mais de 180 mil denúncias, feitas pelo disque 100, de violência contra menores de idade. Deste número, 26 mil eram de abuso sexual — uma média de 70 por dia. Mais da metade das agressões, ou seja, 64,5% ocorrem na própria casa da criança e grande parte dos autores são pessoas que convivem com vítimao que consequentemente aumenta as chances de reincidência: pais, familiares próximos e até mesmo amigos e vizinhos.

Crianças que não têm noção alguma sobre consentimento têm mais chances de sofrer abuso sexual. Os pequenos, por si só já são mais suscetíveis, mas é fundamental que eles saibam que existe algo de errado se um adulto deseja mexer no corpo delas. Afinal, essas pessoas escolhem as crianças justamente pela vulnerabilidade e inocência, valores inerentes à infância. “É possível falar sobre abuso ou consentimento sem ser explícito. Os familiares podem dizer: O corpo é seu, não quero ninguém mexendo nele. Se acontecer, conte para a mamãe. Antigamente, os responsáveis diziam para não aceitarmos bala de estranhos, sem nenhuma explicação, sem nem ao menos dizer que isso é errado. Há crianças que sofrem abuso e não sabem, acham que é uma forma de afeto. Não se sentem violentadas, porque nem todas as formas de abuso têm dor. Não é alarmista. Os pais podem aproveitar algumas perguntas e situações e colocar essas orientações”, orienta Deborah.

Duas palavras são a chave para a educação sexual: o diálogo e a sinceridade. Os pais e familiares devem acompanhar as pequenas mudanças e transformações dos pequenos e agir com naturalidade, porque se perceber como indivíduo não é algo de outro mundo. Adequar o vocabulário e as informações que devem ser disponibilizadas durante as fases da vida de cada um é também um dos pontos cruciais, além de orientá-lo para cuidar da sua privacidade e não se expor a pessoas desconhecidas ou em situações constrangedoras.

“Estimular os canais de diálogo é fundamental, a criança deve se sentir segura para fazer todo tipo de pergunta para os pais sem temer repressão. Dependendo da idade, ou do momento da pergunta os pais pode se sentir surpreendidos e não saber como responder, é super normal. Devemos ter humildade de admitir pros filhos que não sabemos tudo, que vamos pesquisar para eles ou com eles, e depois darmos uma resposta”, aconselha Julieta. Se a resposta estiver pronta, deve ser oferecida com naturalidade. “O diálogo precisa ser construído desde cedo, não adianta os pais acharem que porque os filhos alcançaram a puberdade, é hora de falar sobre isso. A educação sexual é uma construção, que deve ser feita, tijolinho por tijolinho, desde a mais tenra idade”, finaliza Julieta.