06 de setembro 2017

Educação pelo útero

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06 setembro 2017

Educação pelo útero

Sobre o autor: Dora Ehrlich

É estudante do ensino médio e milita principalmente pela educação, pela igualdade de gênero e pela democracia. Nasceu em São Paulo, mas também é dos mares e das cachoeiras. Borda, dança, pula carnavais, escreve, viaja e luta.

Texto por: Dora Ehrlich

É estudante do ensino médio e milita principalmente pela educação, pela igualdade de gênero e pela democracia. Nasceu em São Paulo, mas também é dos mares e das cachoeiras. Borda, dança, pula carnavais, escreve, viaja e luta.

Outro dia, vi um vídeo muito inteligente e bem humorado de uma professora transgênero, que respondia a comentários de internet sobre sua profissão e sua condição. Não preciso ir fundo à minha memória para constatar que nunca tive um professor transexual e que quase nenhum amigo meu teve. Também não é difícil concluir que, até a reta final do ensino fundamental, só tive professoras e coordenadoras mulheres, com poucos homens como auxiliares ou estagiários.  

Essa quantidade avassaladora de mulheres nos educando não pode ser ruim, pois elas sabem tanto quanto os homens sobre métodos pedagógicos. As faculdades de pedagogia são mistas há muito tempo, assim como as escolas de qualquer nível de ensino. Então, como podem as mulheres serem maioria na educação de crianças pequenas e os homens só participarem da educação dos adolescentes, geralmente?

Segundo dados da Sinopse do Professor da Educação Básica, divulgada pelo MEC no final de 2010, 81,6% dos professores da educação infantil, fundamental e de ensino médio são mulheres. Especificamente nas creches, elas ocupam 97,9% das vagas de professor. Nos ensinos técnico, profissional e superior, as mulheres são 45,8%.

Mulheres professoras e de qualquer outra profissão sabem tanto quanto os homens. Acontece que a sociedade enxerga na professora da educação infantil o papel de mãe, da mesma forma que ela enxerga na mãe e mulher a única pessoa que pode cuidar dos filhos pequenos.

Faz parte do senso comum a ideia de que mulheres têm os valores necessários para criar crianças. Parece que os homens nunca tiveram esses valores e não precisam ter. É exatamente por isso que vemos milhões de mulheres trabalhando duplamente, como se isso não fosse um problema.

Chegando ao ensino médio e à universidade ou curso técnico, as pessoas não vão ser educadas por tantas mulheres. A impressão é a de que a educação realmente importa a partir desse momento. Agora, o estudante precisa de homens pra dar certo.

Voltando ao meu ponto principal, eu me pergunto: como grande parte da sociedade consegue achar que só um homem e uma mulher podem formar uma família, se esse homem não precisa cumprir nenhuma função (como fazer comida, trocar fralda e se informar sobre a vida escolar da criança) que o caracterize como familiar da criança? E como pode ainda tudo isso se refletir no sistema educacional?

E quais são esses tais valores necessários para criar e educar uma criança que os homens nunca conseguem alcançar? Serão eles carinho, disciplina, respeito, criatividade, sensibilidade, atenção, delicadeza, senso de organização? É sério mesmo que estamos supondo que os homens são incapazes disso tudo? Dessa forma, estamos dizendo que os homens, que constituem a sociedade civil há tanto tempo quanto as mulheres, são incapazes de conviver coletivamente. E será mesmo que eles são?