27 de dezembro 2017

Duas mães, duas filhas

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27 dezembro 2017

Duas mães, duas filhas

Casal homoafetivo fala do processo de adoção de suas meninas
Texto por: Debora Stevaux

Segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), em parceria com o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Acolhidos (CNCA), existem no Brasil cerca de 47 mil crianças e jovens aguardando por um lar nos abrigos nacionais. Pouco mais de 7.000 delas, porém, estão judicialmente aptos para serem adotados. Entre dados e estatísticas estão nomes, sonhos e uma história em comum: a de abandono.

Era o caso de Karlene, de 10 anos e de Camila, de 9, que foram adotadas depois de cinco anos de espera em abrigos. As irmãs biológicas têm um perfil geralmente preterido pelos pais adotantes— são negras e mais velhas, bem diferentes do bebê branco procurado pela maioria. As meninas que optaram por não mudar seus nomes de batismo ganharam recentemente duas mães: a professora universitária Flávia Lages de Castro, 47, e a advogada Luciana Mendanha de Carvalho, 45.

A jornada das duas cariocas casadas há quatro anos não foi fácil, tampouco rápida. “Decidimos adotar ‘desde sempre’ porque sempre foi um desejo das duas. Então, entramos com a solicitação na justiça para sermos adotantes em 2014”, recorda Flávia. A aproximação com as duas meninas começou em 2016, mas que foi somente em junho de 2017 que elas deixaram o abrigo.

Como a lei funciona

Qualquer cidadão que tenha ao menos 18 anos de idade, seja 16 anos mais velho que a criança e não possua nenhum tipo de vínculo sanguíneo com o pequeno pode adotar hoje no Brasil. Se o pedido partir de um casal, o quarto pré-requisito determinado pelo artigo 42 do Estatuto da Criança e do Adolescente é de que os parceiros estejam em uma reunião estável, independentemente de orientação sexual de ambos.

Flávia atribui à sorte o seu encontro e o da sua companheira com as meninas. Antes, o casal havia passado por algumas frustrações e candidaturas à adoção que não deram certo. “No que diz respeito ao trâmite oficial, tivemos uma experiência muito positiva, pois passaram pelo nosso caminho pessoas que não fizeram nenhuma diferença ou distinção. Mas, antes da nossa experiência com elas, tivemos momentos ruins, em que ficou claro que as pessoas viam problemas porque somos um casal homoafetivo”, explica ela. “Eles preferiram que a criança ficasse de qualquer jeito no abrigo e não tivesse uma família porque somos duas mulheres. Hoje, tenho consciência que fomos a exceção, e não a regra. No nosso caso, desde a psicóloga até o juiz, todos foram maravilhosos”, elogia.

A partir da própria vivência e de informações trocadas em grupos criados nas redes sociais para pessoas que estão interessadas ou até mesmo já integram a fila de pretendentes à adoção, Flávia concluiu que a incompatibilidade de existir 40 mil pretendentes para 7 mil crianças não se dá somente pela diferença de perfil nas buscas encabeçadas pelos adotantes. “A criança só está apta para ser adotada quando o poder da família biológica sobre ela está destituído completamente, e, enquanto o juiz não faz esse processo, o pequeno está no meio do caminho, num limbo entre ser adotada e não ter condição nenhuma de voltar para a família biológica. Há muitos juízes que são biologicistas e ficam tentando colocar essa criança na família biológica. Com isso, a criança vai crescendo. E conforme ela cresce, vai tendo menos pretendentes à adoção. Você percebe a crueldade disso?”, indaga.

Adotar é um gesto de amor, não de caridade

Quem quer adotar deve ter apenas um objetivo principal: constituir uma família. Depois que há a aprovação do cadastro, os participantes fazem um curso de preparação jurídica e psicossocial que dura dois meses, em que passarão por avaliação psicológica para que os profissionais entendam os reais motivos que os levaram à essa decisão. Aqueles que são instigados por outros fatores, como a perda de alguém próximo ou por caridade, são descartados. “Parece que adotar é puramente uma ação de fundo social, mas é um processo de mão-dupla. Se a família que adota não é adotada, é uma roubada, um tiro n’água.  Então, se você faz porque quer salvar uma criança, você está adotando pelo motivo errado. Eu não adotei crianças carentes, eu tenho filhas. Ganhei da vida filhas, por um processo que juridicamente é chamado de adoção. É tão importante quanto ter filhos biológicos, amar a mãe etc.”, dispara Flávia.

Mesmo com a espera angustiante, a professora acredita que foi um momento importante para organizar tudo perfeitamente para a chegada das pequenas. “A adoção começa quando você decide e vai para os cursos preparatórios que precisam ser feitos. Até mesmo a espera, que é extremamente angustiante e pode atrapalhar seus planos. A espera é esse processo de adoção”, diz Flávia.

Cada caso de adoção é único. E Flávia acredita, pela sua experiência, que a adoção de uma criança mais velha é um processo mais difícil, a depender de onde veio, do tipo de relação que tinha com a família biológica e como absorveu o tempo no abrigo. “Temos pequenos desafios no dia a dia. Outros casais e outras pessoas têm outros desafios da adoção tardia, porque, obviamente, a criança traz seus problemas, suas questões, por ser um indivíduo como qualquer outro. Não é uma coisa de só você querer, a criança também precisa desejar ser sua filha. Então, essa adaptação e esse encontro tem que fluir bem, e é muito bonito quando acontece”, conta.

Como vencer o preconceito

Antes mesmo de irem para suas casas, as duas irmãs, que são conhecidas pela sua união e parceria, perguntaram ao casal se poderiam chamá-las de mãe. “Percebi que elas nos adotaram nesse momento, quando pediram permissão para isso. Elas me chamam de mãe Flávia e a Lu, de mãe Lu, o que é muito fofo”, diz. A dupla-dinâmica brinca de boneca, é muito criativa e possui grandes pretensões de crescer rápido. Sobem em árvore e se esforçam bastante para acompanhar os estudos, bem mais puxados do que os que tinham no abrigo. “Fazem ballet e capoeira, adoram um gibi. Viram a casa de pernas para o ar e dormem de conchinha com o Leon, nosso Golden Retriever, que já está velhinho. É uma paixão recíproca”, diz Flávia.

Neste ano, em uma aula de ciências, um dos coleguinhas da sala de uma das irmãs disparou que ela era adotada. “Somos uma família interracial: eu sou branca, a Lu, embora se identifique como negra, é lida como branca por outras pessoas e nossas duas filhas são negras, é algo bem nítido mesmo”, caracteriza Flávia, que elogia a ação da escola por ter promovido conversas com os alunos. “É uma instituição pequena, tudo foi conversado com os pequenos, eles se posicionaram frente à isso, o que é muito positivo”, explica a professora.

Entre as atitudes positivas, ainda há muito preconceito. Flávia já ouviu de mães de colegas que deixariam as crianças brincarem juntas “porque não há problema nenhum problema em ser adotada” e também já foi questionada se as meninas eram “muito gratas” a ela por causa da adoção. “Essas bobagens podem ser coisas que passam imperceptíveis pelas pessoas, mas machucam. Eu tenho duas filhas e ponto”, diz.

A licença-maternidade de Flávia termina agora - desde 2016 a lei determina que a licença seja igual para mães adotivas e biológicas. “Esse tempo foi primordial para o nosso início de convívio”, conta sorridente.