11 de julho 2017

Dois sexos

Dois sexos
11 julho 2017

Dois sexos

Crianças hermafroditas estão sujeitas a cirurgias que podem violar seus direitos
Texto por: Livia Deodato

As pessoas tendem a presumir que todos nascem simplesmente homem ou mulher. Mas a própria natureza mostra que esse caminho é muito reducionista. A cada 2 mil bebês, pelo menos um nasce hermafrodita, isto é, apresenta tanto o órgão genital masculino quanto o feminino. Ainda existem diversas formas sutis de desenvolvimento de sexo que são mais comuns. Uma em cada cem pessoas pode ter um outro tipo de desenvolvimento de sexo, diferente do convencional masculino e feminino, embora muitos nunca terão a oportunidade de descobrir isso, de acordo com um estudo da Universidade de Rhode Island (EUA).

A discussão em torno do tema tem se mostrado cada vez mais profunda, como mostra esta reportagem do site Aeon. Muitos médicos acreditam que não há nada que as pessoas possam fazer em relação a esta âncora cultural. Eles defendem a ideia de que, para o bem das crianças, às vezes é necessário aplicar cirurgias “corretivas” para fazer com que aquelas que nasceram hermafroditas se encaixem nos padrões masculino ou feminino.

Não são somente os genitais que variam nesses casos. Hormônios e órgãos reprodutivos internos também fazem parte dessa conta e, consequentemente, há mais do que uma dúzia de modos diferentes que o desenvolvimento, chamado em inglês de “intersex”, pode ocorrer. Detectar alguns desses casos em um estágio avançado pode ter uma vantagem: dá a chance de a pessoa ser informada e fazer a escolha de mudar de corpo. Quando bebês, normalmente essa escolha é tomada por eles. Desde os anos 1960, a medicina pediátrica costuma realizar cirurgias externas e internas de acordo com os padrões culturais vigentes.

A violação dos direitos humanos

Controvérsias em torno de tais atitudes médicas estão crescendo ao longo dos últimos 20 anos e agora parecem ter alcançado o ápice. Ativistas dos direitos de pacientes hermafroditas acusam essa “normalização” realizada por meio das cirurgias como violação dos direitos humanos. Eles argumentam que crianças devem ter o direito de crescer e decidir por si mesmas se desejam passar por esses procedimentos de trocas de sexo.

Cirurgias “corretivas” de genitais são comuns, mas isso não significa que não ofereçam riscos. Ao escrever para colegas em 2015, um urologista pediatra disse: “Por anos, nós urologistas subestimamos os problemas rotineiros que nossos pacientes experimentaram por meio de cirurgias chamadas de hipospadia [malformação genética que se caracteriza pela abertura anormal da uretra em um local por baixo do pênis ou pela abertura da uretra da mulher na vagina].” E algumas das cirurgias são muito mais invasivas que a hipospadia. Historicamente, cirurgiões trabalham mais para que crianças intersex pareçam mulheres do que homens. Isso porque, segundo eles, é mais difícil “construir” um pênis do que uma vagina.

A grande maioria das pessoas nascidas com diferenças de desenvolvimento sexual e que hoje são ativistas não são infelizes com suas próprias atribuições de gênero desde o nascimento. Pelo contrário, eles criticam o sistema porque partes de seus corpos foram cortados ou alterados; porque, em alguns casos, médicos mais tarde mentiram para eles sobre suas histórias e porque foram tratados como se fossem inaceitáveis quando deveriam ter sido aceitos e terem os mesmos direitos de que gozam os outros.

No entanto, os médicos que praticam essas intervenções acreditam que têm o direito de fazê-las a pedido dos pais. Eles dizem – embora admitindo que eles não têm evidência de apoio – que os pais podem ter dificuldade de ligação com uma criança cujo corpo parece atípico para uma menina ou um menino e que a cirurgia poderia, portanto, promover a ligação entre pais e filhos.

Em vez de esperar que essas crianças sejam mudadas para se adequarem às normas corporais, sugere-se que as pessoas mudem suas expectativas em termos de comportamento alheio. Os pais costumavam ser autorizados a fazer o que eles achavam certo para seus filhos. Mas, quando se trata de questões como trabalho e abuso infantil, o mundo mudou de opinião sobre os direitos dos pais. A melhor abordagem para essas crianças é minimizar os danos e maximizar a aceitação da variação natural do desenvolvimento sexual. É tempo de os pediatras entenderem o intersexualismo como uma questão de direitos humanos e ajudar os pais a compreendê-lo também.