03 de janeiro 2018

Doação de gametas

doacao de gametas
03 janeiro 2018

Doação de gametas

O avanço das técnicas de reprodução tem possibilitado a um número cada vez maior de pessoas realizar o sonho de ser pai ou mãe
Texto por: Julliane Silveira

O avanço das técnicas de reprodução tem possibilitado a um número cada vez maior de pessoas realizar o sonho de ser pai ou mãe. O número de embriões congelados para reprodução assistida dobrou de 2012 para 2016 – no ano passado, mais de 66 mil embriões foram congelados no Brasil nos Bancos de Células e Tecidos Germinativos, mais conhecidos como clínicas de Reprodução Humana Assistida, segundo relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Uma parte desses embriões é gerada com a doação de gametas, isto é, com óvulo ou espermatozoide de um doador. Isso se faz necessário quando um dos parceiros não produz gametas de qualidade para gerar um bebê. Estima-se que, a cada ano, cerca de 5.500 procedimentos de reprodução assistida no Brasil façam uso de gametas doados.

Diferentemente do que ocorre em outros países, no Brasil é proibido o comércio de óvulos e espermatozoides, as doações devem ser anônimas e não podem ser realizadas por parentes. Há ainda o cuidado para que cada doador gere até dois filhos a cada um milhão de habitantes. Isso ocorre para evitar que meio-irmãos biológicos se encontrem em algum momento e acabem se relacionando. Sabe-se que um bebê gerado pela relação amorosa entre parentes de primeiro grau tem risco maior de sofrer de doenças genéticas e, por isso, a doação de sêmen é controlada – caso o material seja enviado para um estado do país, é feito um registro e o banco de esperma é avisado se a gravidez for bem-sucedida, a fim de evitar que material de um mesmo doador seja enviado para essa localidade novamente.

A doação de sêmen é simples e não traz nenhum risco ao homem. O voluntário tem o esperma colhido depois de se masturbar. Em geral, pede-se abstinência de ejaculação de 3 a 7 dias antes da coleta, que deve ser repetida cerca de seis vezes, a cada semana ou a cada 15 dias, para realização de exames e captação do material. O doador deve ter de 18 a 50 anos de idade.

O voluntário realiza exames sorológicos, de tipagem sanguínea e cariótipo, espermograma e espermocultura, além de se consultar com um urologista da clínica. Seu perfil com altura, peso, cor de olhos e de cabelo, entre outras informações, fica à disposição dos médicos, que sempre procuram um doador com características físicas semelhantes às do futuro pai da criança.

Doação de óvulos

Já a doação de óvulos é mais complexa: para doar os óvulos, a mulher passa por uma terapia hormonal que dura de dez a quinze dias, período em que recebe injeções diárias na barriga. A coleta dos gametas é feita na clínica, com sedação. Por essa razão, o Conselho Federal de Medicina proibiu a doação altruística dos óvulos e entendeu que a doadora também deve estar passando por um processo de reprodução assistida para doar parte dos óvulos colhidos, em um processo chamado de doação compartilhada de óvulos. “São mulheres que desejam guardar óvulos para engravidar futuramente ou pessoas que precisam dividir os custos de sua fertilização in vitro, que não conseguem arcar com tudo”, explica Adelino Amaral Silva, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e presidente regional da Rede Latinoamericana de Reprodução Assistida (RedLara).

Buscam óvulos doados mulheres cujos ovários não funcionam por causa da idade ou de alguma doença, pessoas com problemas genéticos que podem ser transmitidos aos descendentes, pacientes que não respondem às medicações de estimulação dos ovários e aquelas cujos óvulos não têm qualidade para gerar um filho.

Do outro lado, há mulheres que passam pelo processo de estimulação ovariana para gerar óvulos que serão usadas na fertilização in vitro que contrataram na clínica. Nesse processo, alguns gametas são descartados – é aí que entra a doação compartilhada. “A pessoa com óvulos saudáveis ajuda na doação e a receptora banca parte dos custos do procedimento realizado na outra mulher”, explica Paulo Gallo, diretor-médico da Vida - Centro de Fertilidade. Em geral, o procedimento de fertilização custa de R$ 15 mil a R$ 20 mil. Quando ocorre a doação compartilhada, a receptora paga cerca de 30% a mais e a doadora, cerca de 30% do valor. “Equivale a um procedimento e meio”, diz Adelino.

A pedagoga Elizângela Oliveira Santos Vieira, 33, passou por isso. Ela tentava engravidar havia nove anos e já tinha passado por três fertilizações in vitro (FIV), sem sucesso. Nesse período, vendeu carro e contraiu dívidas para pagar os procedimentos.

Já sem dinheiro para mais uma tentativa e com óvulos saudáveis, Elizângela recorreu à doação compartilhada: inscreveu-se em uma clínica no Rio de Janeiro (RJ) e, em uma semana, encontrou uma receptora que procurava uma doadora com seu perfil. “Confesso que meu desejo de ser mãe falou mais alto, mas eu realizei o sonho da maternidade por meio da ovodoação, ajudando outra pessoa a também realizar seu sonho, o que eu acho maravilhoso”, empolga-se.

Nessa quarta tentativa de fertilização in vitro, Elizângela engravidou e deu à luz Davi, hoje com um ano e nove meses.

Para ela, todo o processo foi um milagre. “Eu não correspondi bem à medicação no início, tudo indicava que não teria óvulos para doação. Mas tive fé e consegui cinco óvulos para mim e seis para a receptora”, lembra.

Maternidade é mais do que um gameta

Quando questionada sobre como lida com o fato de a receptora poder ter engravidado com um óvulo seu, ela é direta: “Eu não doei um filho, eu fui apenas uma ponte, eu possibilitei que alguém se tornasse mãe”, explica. As informações sobre a receptora são sigilosas e Elizângela não sabe se a fertilização da receptora foi bem-sucedida como a sua.

Essa é a mesma linha de raciocínio adotada pelas clínicas, que oferecem suporte psicológico a doadoras e receptoras. “Eu sempre falo para as minhas pacientes que elas estão doando células, e não filhos, como se doa sangue ou medula óssea. É um ato de amor que só é possível se a doadora tiver cabeça boa e não ficar pirando, achando que tem um filho por aí”, diz Paulo Gallo.

A receptora também precisa entender que a maternidade envolve muito mais do que o óvulo de onde o filho foi gerado. A experiência das clínicas mostra que as mulheres assimilam muito bem o processo. “Todas as minhas pacientes me dizem que nem se lembram disso depois. Passam pela gravidez inteira, pela dor do parto e nem cogitam pensar que aquele bebê não é dela”, afirma Paulo.

 

Conheça as regras do Conselho Federal de Medicina para doação de gametas

  • A doação não pode ter caráter lucrativo ou comercial

  • Doadores não devem conhecer a identidade de receptores e vice-versa

  • A idade limite para doação de gametas é de 35 anos para mulheres e de 50 anos para homens

  • Será mantido, obrigatoriamente, o sigilo sobre a identidade dos doadores de gametas e embriões, bem como dos receptores

  • As clínicas, centros ou serviços onde é feita a doação devem manter, de forma permanente, um registro com dados clínicos de caráter geral, características fenotípicas e uma amostra de material celular dos doadores, de acordo com legislação vigente