22 de dezembro 2017

Diva Guimarães

Diva Guimarães - Crédio  Joana Pedotti Ribeiro
22 dezembro 2017

Diva Guimarães

Protagonista de um vídeo com mais de 15 milhões de visualizações conta como é difícil ser negra no Brasil
Texto por: Debora Stevaux

Estamos na 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, no dia 28 de julho de 2017. O ator e escritor Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques debatem sobre temas relacionados ao preconceito e ao racismo institucionalizado na literatura durante a mesa “A Pele Que Habito”. Então, uma senhora de um metro e meio de altura, pele negra e cabelos brancos pede o microfone para falar. O registro em vídeo da fala da educadora paranaense Diva Guimarães, 77, publicado no Facebook, rendeu mais de 230 mil curtidas, 393 mil compartilhamentos e 15 milhões de visualizações.

Segundo ela mesma, foi um momento de libertação, embora nem sequer imaginasse que sua fala daria toda essa repercussão: “Fui saber o que eu falei dois dias depois, porque, como não sou da tecnologia, não me preocupei. Mas me assustei nos dias seguintes, quando estava indo para outras mesas: era repórter daqui, repórter dali. Fiquei até doente, perdi a voz. Esse momento foi uma limpeza da minha vida. Era algo que estava guardado comigo há 72 anos”, conta.

A paranaense costuma dizer que não levantou, mas que a levantaram. Não é a primeira vez que frisa que é uma mulher tímida e também não era a primeira vez que tentava falar com Lázaro. “Sempre pensava no quanto eu iria gastar, porque eu vinha de longe, né? Mas pensei que já tenho com essa idade e nunca consegui ir e achei importante realizar esse meu sonho”, explica. Diva já estava muito emocionada com o conteúdo das palestras. “Em uma delas, na mesa ‘Em nome das mães’, eu vi a minha mãe na minha frente. A minha fala não foi algo pensado, mas quando eu vi, já estava em pé. Mas, em vez de eu agradecer o Lázaro, fiz aquele desabafo”, relembra.

Diva se considera uma mulher muito feliz depois do que aconteceu: “Meus vizinhos e minhas comadres dizem que estou radiante, que meu semblante mudou desde então. Depois desse dia, eu entendi que a felicidade é algo fácil. Antes, eu me afastava das coisas, porque já colocava um sofrimento na frente e isso me fez deixar de conviver com muitas pessoas boas. Hoje, eu valorizo o que é bom, parei de sentir toda essa dor que me acompanhou por décadas.”

Vida difícil

Diva nasceu no dia 3 de agosto de 1940, em um pequeno vilarejo chamado Serra Morena, no Paraná, mas foi criada em Cornélio Procópio, no mesmo estado. A mãe de Diva era lavadeira e não media esforços para que os filhos estudassem. O pai morreu cedo, quando a educadora tinha apenas 12 anos de idade. “Depois disso, minha mãe não se casou mais, assumiu a gente sozinha, desde cedo. Minha mãe sempre foi muito guerreira com relação aos filhos”, rememora.

A mãe também fazia trabalhos de parteira no vilarejo onde morava. “Mas ela nunca recebeu um centavo para atender os partos, porque ela achava que essa era uma missão dela no mundo. Minha mãe nos criou lavando roupa, ela chegou a lavar roupa para dez casas diferentes”, conta sobre o tempo em que não existia máquina de lavar a sua mãe tirava água do poço e usava barris de tina cerrados pela metade para fazer a lavagem. Hoje, quando Diva vê uma máquina de lavar, lembra o sofrimento da minha mãe, que virava aquelas latas gigantescas e pedia sua ajuda para buscar as trouxas de roupa.

A sobrevivência pela educação

Diva se formou em educação física em 1965, mas lembra que não houve festa nem cerimônia porque o Brasil enfrentava os anos de chumbo. “Fiz pós-graduação em voleibol, basquetebol e atletismo na Universidade Federal do Paraná. Foi bem difícil, passei por muita coisa, porque naquela época, para estudar você precisava ter dinheiro, não era para qualquer um”, dispara. Antes mesmo de fazer a faculdade, Diva já trabalhava como alfabetizadora e, após prestar um concurso estadual, passou a dar aulas específicas de educação física. “Fui atleta, técnica e professora. Depois que me aposentei, fiz fisioterapia. Treinei times escolares formados por crianças e adolescentes de basquete, atletismo e vôlei do Paraná. Eu fiz aulas de boxe também, mas o basquete sempre foi a minha maior paixão”, desabafa.

Diva descobriu, desde muito cedo, que estudar não seria fácil, sentia na pele a diferença de ser a melhor cantora do coral infantil, mas nunca ser chamada para ser o anjinho nas celebrações de Natal por ser negra. “Eu me tornei rebelde, porque apanhava na escola sem saber, desde o primário”, confessa. Além do período traumático em que passou no internato para estudar, Diva se recorda da 4ª série: “Na minha sala tinha um menino que sentava atrás de mim e ficava o tempo inteiro me cutucando com a sua régua e me chamando de negrinha fedida.” Ela era a única negra da sala e, quando não aguentou mais, deu um soco no rosto do garoto. Ele levantou e começou a agredi-la. “Então, a professora me pegou pelo braço e me levou sozinha para a direção, ele saiu ileso”, relembra. No gabinete da diretora, engasgada com o choro, Diva contou o ocorrido e foi surpreendida com a fala da superior. “Mas por que você está reclamando? Você é mesmo uma negra fedida!”. Recebeu dois tapas no rosto, um de cada lado.

Ao saber do ocorrido, a mãe de Diva fez questão de tirar satisfação. Levou a filha ao posto de saúde para obter um atestado de que era limpa e sadia. "Voltamos à escola, minha mãe levou o atestado e disse para a diretora  que ´quem fede é quem está sujo e a única coisa que eu posso deixar para os meus filhos é a educação´". Ela mudou de turma e foi acolhida por uma professora que a tratava muito bem.

Ela também teve professoras inspiradoras em literatura e história.  “Não sou uma leitora intelectual, gosto de Jorge Amado, de José Mauro Vasconcelos, de Khalil Gibran, de livros que denunciam como ‘Memórias de Uma Guerra Suja’, ‘Holocausto Brasileiro’, gosto também de ler sobre Marighella”, confessa.

Outra professora percebeu que ela não tinha sapatos para ir à escola. “Ela deixava sempre de manhã, na sua varanda, um sapato dela, com bastante papel higiênico, porque ela era muito alta e eu era criança. Na volta da aula, eu devolvia os sapatos e aproveitava para dar uma passadinha na casa dela. A sua mãe fazia para nós um farto lanche, com pão, manteiga, queijo, presunto, suco”, conta.

Racismo e vontade de transformação

É na primeira infância que as nossas noções mais básicas de mundo são formadas. Se sofremos algum tipo de trauma ou violência até os seis anos de idade, é muito provável que essas experiências ruins nos acompanhem por todas as nossas vidas. É também nessa fase que se criam valores importantes como a autoconfiança, individualidade e afeto e aprende-se a expressar e canalizar nossos sentimentos e emoções.  

É o que ressalta Diva, que, aos poucos, está conseguindo cicatrizar os traumas que a acompanhou por toda a sua vida: “Eu não sou a favor de alunos agressivos, ninguém é. E eu era agressiva porque eu apanhei muito e não sabia o porquê, sofri muita violência, verbal, física, implícita”. Para Diva, a base familiar é fundamental, porque são os familiares que vão ajudar a criança a viver de cabeça erguida. “Minha mãe foi assim, com todas as dificuldades, nunca fez com que eu me sentisse vítima, desamparada. Era proibido desrespeitar na nossa casa. Eu acredito que ninguém nasce racista, isso ainda é, infelizmente, ensinado para todos e precisa mudar”, confessa.

Para Diva, ainda existe no nosso país um ranço do Brasil Colônia. “Quando um negro se destaca, eles precisam provar inúmeras vezes que são capazes mesmo. Eu não sou das letras como a Conceição [Evaristo, uma das maiores escritoras afrodescendentes brasileiras da atualidade], mas a minha vivência como professora ainda tem muito a colaborar com essa moçada que é descendente de negro ou de índio, que não tem renda”, diz.

Para a educadora, pouquíssima coisa mudou. Cita Lima Barreto como um escritor que não teve chance pela cor de sua pele e lê as notícias de cotistas que foram humilhados nas universidades com um aperto no coração. “Não é à toa que a maioria da população que está fora da escola é negra, as oportunidades para nós ainda são pouquíssimas. E nós precisamos provar 24 horas por dia que somos capazes”, lamenta. Eu acredito na mudança e a mudança só virá com a educação. Por que a gente que levou esse país nas costas por séculos não pode estudar?”, questiona.

Hoje Diva mora em Curitiba com uma sobrinha. Ajuda os sobrinhos financeiramente e os estimula nos estudos. Não se casou e não teve filhos opção, porque “não queria que um filho passasse pelo mesmo sofrimento que eu passei e ele não ia ficar satisfeito de ter uma mãe briguenta”. Voltou a repensar sobre a existência de Deus aos 44 anos - quando conseguiu tirar o ranço da imagem de Jesus que criou o lago e puniu os negros, como ela contou na Flip.

É fã de teatro, música e cinema. O último que viu foi “Estrelas Além do Tempo”. “Fui uma vez para chorar e outra para, de fato, prestar atenção no filme. Para você ver, demoraram quantos anos para que eles falassem que mulheres negras trabalharam na NASA? Ninguém sabia, nem mesmo eu, e olha que eu sou de fuçar bastante as coisas”, confessa.

A paranaense também se dedica a aprender inglês, um dos maiores sonhos da sua mãe, que chegou a lavar roupa do dono da escola de línguas, quando era pequena, para que ela aprendesse. “Faço isso por ela, porque sei que ela estará feliz de me ver falando inglês lá do céu, porque eu, sinceramente, acho que os americanos são um pouco chatos”, ri. Vegetariana, Diva gosta de massas e de cantores negros de blues e de música brasileira: “Chico Buarque, Chico César, Gabriel O Pensador, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Maria Bethânia… Amo muito a Elis, acho que é uma das minhas favoritas”, afirma.

Tentou fazer tai chi chuan e ioga como esporte, mas não gostou muito porque se considera “impaciente”. Hoje faz caminhadas, exercício que consegue praticar apesar das dores. “Acho que fiquei assim por acumular tanta raiva. Essas artroses que me acompanham surgiram de fundo emocional”, pontua.

Diva deseja aprender a usar as redes sociais para a ajudar a colocar em prática sua missão no mundo: “Falar pelos menos favorecidos, eu farei isso até o fim da minha vida, até quando me derem a oportunidade de construir, mesmo que em passos de formiguinha, um Brasil melhor. Eu sonho grande assim porque sou uma sobrevivente pela educação, porque a educação pode salvar qualquer pessoa e por isso eu agradeço, todos os dias, à minha mãe, que fazia um esforço sobre-humano para que eu estudasse.”