21 de dezembro 2017

Desmistificando o parto humanizado

parto humanizado
21 dezembro 2017

Desmistificando o parto humanizado

Entenda o que é e como tornar esse momento mais natural e focado na mulher e no bebê
Texto por: Livia Deodato

Quando se trata de nascimentos, a cesárea é o procedimento mais praticado no Brasil. O país é campeão em número de partos com intervenção. O que deveria ser a exceção, apenas para quando houvesse riscos para a mãe e o bebê, virou algo comum. Nessa contracorrente, o parto humanizado começou a ganhar cada vez mais espaço. A ideia é que a parturiente reassuma as rédeas do procedimento. A atenção é centralizada na gestante e no bebê e não na equipe médica.

Segundo o Ministério da Saúde, 55% dos partos foram realizados com cesária em 2016. Um indicativo alarmante, visto que, para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o percentual recomendado é de 15% e a média mundial é de 18%. Na maior parte das vezes, o procedimento ocorre sem necessidade. O médico agenda um horário e impõe protocolos, como anestesia, imobilização ou manutenção da mulher em uma posição desconfortável. É ele quem decide pela gestante o que é melhor para o seu corpo.

O questionamento sobre essa conduta, com excessos de intervenções, começou a aparecer no início da década de 1970 com a divulgação da obra “Por um Nascimento sem Violência”, do médico francês Frederick Leboyer. A partir de sua análise visionária, ele passou a difundir o conceito de parto humanizado, que não deve ser confundido com parto natural, em que muitas vezes também ocorrem interferências consideradas desnecessárias, como administração medicamentosa para acelerar as contrações e episiotomia (corte do períneo).

O que diferencia o parto humanizado?


A proposta é que essa experiência intensa e significativa possa se tornar um ato fisiológico e natural, respeitando o clima emocional e a hora do bebê. “A assistência é centrada na mulher, no seu empoderamento, escolha consciente e individualidade”, explica Visiane Batista, enfermeira, doula e consultora em aleitamento materno.

Apesar de ser uma opção assegurada por lei e pela OMS, os hospitais e profissionais de saúde falam muito pouco sobre esta alternativa. “Na minha primeira gestação, eu me sentia desconfortável com o jeito com que meu médico estava propondo realizar o parto natural. Aí encontrei uma amiga que falou sobre o parto humanizado e indicou uma profissional. Foi a primeira vez que eu ouvi o termo. Comecei a pesquisar e fiquei encantada”, conta a jornalista Nana Tucci, 31, que teve os dois filhos, Bento, hoje com três anos, e Tito, de um ano, por meio do parto humanizado.

Esse procedimento também foi a primeira opção da ceramista Roberta Lotti, 35, e mãe de Antonio, de três. “Eu não sabia nada do mundo da maternidade, tinha apenas a certeza de que meu corpo seria capaz de agir conforme as leis da natureza”, diz. Segundo Visiane, na maioria das vezes não há restrição para a realização do parto humanizado, como muitas pessoas mistificam, apontando que é preciso ter muita força ou resistência. A não ser que a mãe e o bebê apresentem problemas de saúde, é um procedimento para todas. “Você pode achar à primeira vista que é uma coisa para índia, pessoas que têm a bacia larga... Mas na verdade qualquer mulher é capaz”, enfatiza Nana.


Preparação e apoio para o parto humanizado

Quando a gestante opta pelo parto humanizado, ela costuma ser atendida por uma equipe multidisciplinar, que deve manter um diálogo aberto e verdadeiro. O pré-natal é feito regularmente com um obstetra, enfermeiras obstetras ou obstetrizes. Todos eles também estão capacitados para realizar o parto, que pode ser monitorado por uma doula. Ela é responsável por dar apoio emocional e físico à paciente, auxiliando na diminuição da dor e no relaxamento. “Quando a bolsa estourou e a as contrações se intensificaram, a doula me instruiu a respirar e a não resistir, a me entregar à dor com a consciência de que iria passar. Alternava movimentos estratégicos para ajudar a descida do bebê com entradas na banheira morna, que aliviavam bastante”, relembra Roberta.

Não existe nenhuma preparação prévia específica. Muitas mulheres optam por fazer ioga ou atividades semelhantes durante a gestação. Mas isso não é um pré-requisito. Uma indicação, também não obrigatória, é o epi-no, dispositivo utilizado na preparação da musculatura vaginal com o intuito de alongar o períneo. Roberta, que utilizou o recurso, acredita que ele é válido, mas no fundo acredita que tudo é bem mais simples. “A gente só precisa estar conectada, conversar com o bebê, tomar muito chá e ficar naquela sintonia de interiorização se preparando para o momento”, afirma a ceramista.

É aconselhável que a mulher busque o maior número possível de informações e participe de grupos de apoio e discussão sobre o tema. “Se você confia e tem uma equipe ponta firme, não tem porque se preocupar”, diz Nana, que chegou a montar um grupo de WhatsApp com as profissionais envolvidas no seu processo por recomendação de uma delas.

Na hora H

A gestante pode escolher onde deseja realizar o parto. Pode ser em sua própria casa ou em um hospital. “O Bento nasceu na cozinha, após nove horas de parto, e o Tito eu tive no quarto, depois de seis horas de trabalho de parto”, conta Ana. Mas a questão do local ainda gera polêmica. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) não recomendam que seja realizado fora do ambiente hospitalar.

O assunto ainda é controverso e já levou médicos a serem processados por incentivar a prática, apesar de estudos comprovarem que a taxa de mortalidade nos partos domiciliares e nos realizados em hospitais é a mesma. Segundo um estudo publicado em 2009 no renomado “British Journal of Obstetrics and Gynecology”, após a análise de cerca de 530 mil partos realizados na Holanda, esse índice gira em torno de 1,5%. “Eu conversei antes com as parteiras sobre a possibilidade de um plano B e me preparei para isso. Fui até visitar o hospital para onde eu poderia ser transferida, caso acontecesse alguma intercorrência”, diz a mãe de Antonio, que teve o filho no quarto dos pais, depois de sete horas e meia de trabalho de parto.

Os custos com um parto humanizado ainda são altos. Podem variar de R$7 mil a R$ 20 mil. Os planos de saúde ainda não atendem essa proposta. Mas algumas cidades como São Paulo possuem casas de parto, onde o procedimento pode ser realizado pelo SUS. Os benefícios, segundo Visiane, são incomparáveis. “Liberdade para se movimentar, se alimentar, escolha da posição que lhe for confortável para parir, participação do companheiro no momento do parto. Ser protagonista e dona do seu parto, atendida de forma acolhedora e respeitosa, sabendo que seu bebê vai chegar ao mundo acreditando que existe amor, existe colo quentinho, silêncio, calor…” Para Roberta, vale a pena. “Não tem preço você entrar em trabalho de parto na sua casa, dormir na sua cama, sentindo aquele cheirinho do seu filho, que é inesquecível.”

Na hora H, a possibilidade de poder contar com pessoas queridas é um fator de peso. Os pais de Roberta estiveram presentes em seu parto. Nana foi acompanhada pelo marido. “Ele tem dois filhos do primeiro casamento que nasceram de maneira bem tradicional. Ele nem acompanhou o parto. Viu uma luzinha acender na sala e soube que tinha acontecido. Então para ele também foi muito transformador vivenciar tudo isso”, diz.

O pós-parto é igual ao procedimento convencional, mas pode acontecer mais rápido pela ausência de cortes e interferências. “Eu nem imagino como deve ser ter que se recuperar de uma cirurgia com um bebê recém-chegado que chora, precisa ser amamentado... Mesmo assim foi sofrido. Eu tive um pouco de hemorragia e era tudo muito novo”, relembra Nana.

Independente da companhia, do local ou das derivações que existam nesse processo, o protagonismo da mulher e de seu bebê são os fatores mais importantes na condução de um parto humanizado. Para quem deseja seguir essa conduta, Nana, com duas experiências para contar, dá um conselho: “Leia muitos relatos de partos e ao mesmo tempo tente não criar idealizações. É preciso tirar o mito de que dói, de que é impossível ou de que tem que ser prazeroso, a luz de velas e na banheira. É como tem que ser. Cada parto é único”.