18 de outubro 2017

Depressão pós-parto

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18 outubro 2017

Depressão pós-parto

Em vez de celebrar a chegada do filho com alegria e entusiasmo, algumas mães enfrentam tristeza inexplicável e dificuldades.
Texto por: Camila Luz

Após o nascimento de um filho, espera-se que a mulher esteja plena e feliz. Mas o puerpério é justamente o período mais cansativo, em que as novidades e a nova rotina ocupam todo o tempo. A verdade é que a nova mãe precisa de paz, tranquilidade e muita ajuda para se adaptar à nova realidade, principalmente quando é seu primeiro filho.

Para algumas mães, poucas semanas são suficientes para que se recupere e se sinta melhor. Outras acabam desenvolvendo a depressão pós-parto, um quadro de sintomas que se prolonga e inclui tristeza, irritabilidade, fadiga, solidão e incapacidade de cuidar da criança.

Márcia Stanzione, major-psicóloga da Polícia Militar do Rio de Janeiro e professora de psicologia do Centro Universitário Celso Lisboa, explica que a depressão pós-parto é comum, principalmente em mães de primeira viagem. “É um estado de tristeza profunda que muitas vezes não é compreendido pela mulher ou pelas pessoas que estão por perto”, afirma.

Alguns estudos brasileiros indicam que uma em cada quatro mulheres sofrem de depressão pós-parto no país. O índice é mais alto do que a média mundial: a prevalência do problema é de 19% segundo a Organização Mundial da Saúde.

Padecer no paraíso

Socialmente, o esperado é que a mulher celebre a nova vida que chegou em absoluta alegria. Para certas mães, no entanto, isso está distante da realidade. Muitas mascaram a condição por vergonha ou por entender que não é o certo para o momento.

“Para muitas mulheres também é uma experiência de luto, pois você deixa de ter um papel social e adquire outro. Por isso é mais comum no primeiro filho”, conta Márcia. “Há a sensação de perda de identidade. É uma convocação que não é fácil para muitas mulheres”, completa.

Além da mudança de papel social, a mulher precisa atender às necessidades de um bebê muito exigente. Acordar várias vezes de madrugada, amamentar e ter pouco tempo para cuidar de si são alguns dos desafios. Ainda assim, a mãe não está socialmente autorizada a reclamar.

Para Márcia, ainda há o arquétipo materno como algo imaculado. Ser mãe é “padecer no paraíso” e é seu dever tolerar tudo. A depressão pós-parto sempre existiu, mas hoje há mais abertura para falar sobre isso. Ainda assim, é difícil para a mulher admitir que está com dificuldades de cuidar da criança ou até mesmo de amá-la.

“O amor é uma construção. [A depressão pós-parto] está ligada com a cobrança infundada de que a mulher precisa amar instantaneamente o bebê. O amor é cultural, não instintivo. Algumas se sentem convocadas a amar logo de cara, outras não”, declara.

Como prevenir e identificar a depressão pós-parto

A depressão pós-parto pode ser identificada por alguns sinais:

  • A mulher pode se sentir entristecida, desanimada ou insegura para cuidar do bebê.

  • Muitas delegam para outras pessoas tarefas como cuidar do umbigo e dar banho, por medo de machucar a criança.

  • Medo intenso de o leite não ser suficiente, mesmo quando o pediatra garante que tudo está bem.

  • A mãe também pode relaxar em relação a cuidados pessoais de higiene básicos, evitando tomar banho ou trocar de roupa.

  • A tristeza sentida parece infundada, sem motivo.

  • A mulher sente que tem responsabilidades demais.

Esse estado pode durar até dois meses ou se prolongar e se intensificar.  “A tendência é isso se esvair com a adaptação da mulher àquela nova função. Mas se o estado se intensifica ou não se esvai, é importante procurar ajuda do psiquiatra. Os próprios cuidados com o bebê podem ficar comprometidos”, aconselha Márcia.

O primeiro passo para prevenir a depressão pós-parto é autorizar a mãe a ser uma mulher real. Pessoas próximas devem entender que ela provavelmente não irá sentir amor incondicional nos primeiros dias e que estará em fase de adaptação. Devem tolerar sua expressão de cansaço, permitir que descanse e cuide de si mesma.

Outro ponto importante é continuar valorizando a mulher após o nascimento do bebê. “Há um posicionamento que as pessoas precisam rever. Quando a mulher está grávida, ela é rainha. Quando o bebê nasce, torna-se serviçal do rei”, diz Márcia. Quando a mulher grávida chega em algum lugar, cadeiras confortáveis são oferecidas, todo mundo beija sua barriga e a elogia. Após o nascimento, toda a atenção fica para a criança.

Portanto, é importante que a mulher continue sendo celebrada durante o puerpério e receba apoio dos familiares e amigos e possa dividir as tarefas com o companheiro.

A mulher precisa aprender a lidar com o sentimento de culpa constante. A mãe de hoje se sente sempre culpada. Sente-se em dívida com o bebê por voltar ao mercado de trabalho e passar o dia fora de casa e também é pressionada para voltar logo e não prejudicar a carreira. “Isso pode complicar o estado depressivo. Culpa é um fator novo na sociedade. A mulher de 50 anos atrás cuidava dos filhos em casa. Hoje, precisa delegar esse papel para a avó, babá ou creche”, diz Márcia.