30 de agosto 2017

Deixe-a falar

deixa a falar
30 agosto 2017

Deixe-a falar

O que Hillary Clinton, Taylor Swift e Adele têm em comum? Todas tiveram seus discursos interrompidos por homens
Texto por: Debora Stevaux

Quantas vezes um amigo (pai, chefe ou namorado) interrompeu a fala de uma mulher? Mesmo em situações corriqueiras, ao falar algo bobo, que muito provavelmente seria dito se ele não tivesse cortado o assunto.

Pode parecer exagero pensar nisso, mas não é. Esse hábito já é considerado um tipo de violência, por muitos caracterizada como inofensiva, mas que rouba a força de expressão feminina. E tem até nome: "manterrupting", que em livre tradução para a língua portuguesa significa "homens que interrompem". O termo é a junção da palavra man (homem) e interrupting (interrupção).

Uma pesquisa da Universidade George Washington, nos EUA, constatou que o discurso de mulheres é até duas vezes mais interrompido do que o de homens em uma conversa neutra. O estudo foi realizado em 2014 por Adrienne B. Hancock, pesquisadora norte-americana especializada em comunicação e gênero. Adrienne também observou que mulheres apenas interrompiam a fala dos homens somente uma vez durante o papo.

Participaram do estudo 20 homens e 20 mulheres. Foram analisados diálogos neutros e as conversas variaram entre grupos compostos de várias formas: mulher com mulher, homem com homem e mulher com homem.  Em todos os casos, elas foram significativamente mais interrompidas do que eles.

Quando o assunto é o ambiente de trabalho, os números são ainda mais gritantes. O pesquisador norte-americano Christopher Karpowitz publicou um estudo pela Universidade Brigham Young no qual observou que as mulheres costumam falar apenas 25% do tempo das reuniões de trabalho. A média foi feita com a análise de 94 equipes com, no mínimo, cinco integrantes e até duas mulheres em cada uma delas.

O hábito também é observado nas figuras públicas. Ficou famoso um dos embates entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos em 2016. Na ocasião, Hillary Clinton teve seu discurso cortado 51 vezes por Donald Trump.

Outros dois casos bem notórios de interrupções ocorreram em importantes premiações. Em 2009, o cantor Kanye West tomou o microfone das mãos da também cantora Taylor Swift durante seu discurso de premiação de melhor videoclipe do ano no Video Music Awards, nos EUA. Em 2012, o apresentador britânico James Corden interrompeu a fala da cantora Adele, durante o Brit Awards, prêmio britânico de música.

Diante desse cenário, a agência de publicidade BETC São Paulo resolveu fazer barulho. Na semana do dia internacional da mulher de 2017, lançou o aplicativo Woman Interrupted. O app foi é capaz de contar o número de vezes em que a fala de uma mulher foi cortada por um homem.

Por que a mulher é tão interrompida?

Ainda não há uma conclusão científica para a pergunta. Mas a pesquisadora de comunicação e gênero Deborah Tannen traz pistas em seu livro You Just Don't Understand: Women and Men in Conversation (Você Não Entende: Mulheres e Homens em Conversação, sem edição no Brasil). A norte-americana diz que os homens interrompem mulheres para reafirmar uma postura de poder e status, ao passo que as mulheres dialogam com o objetivo de estabelecer conexões entre suas opiniões e pontos de vista.

Uma conclusão que faz sentido pela perspectiva histórica, econômica e social. Desde os primórdios das diferentes sociedades ocidentais, o espaço destinado à ocupação das mulheres sempre foi o doméstico: os filhos, a casa, o marido; enquanto os homens tinham permissão para ocupar e se colocar no âmbito público.

No Brasil, por exemplo, a primeira lei que autorizou cidadãs a frequentar escolas primárias surgiu apenas em 1827 e somente em 1879 lhes foi concedida a permissão para ingressar no ensino superior — o que era extremamente mal visto na época.

Os reflexos ainda são sentidos nos dias de hoje: segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres ocupam apenas 37% dos cargos de gerência e chefia das empresas.

O caminho ainda é longo. Mas é possível começar com conversar mais democráticas. Pode fazer diferença uma simples colocação: “Você pode me deixar concluir, por favor?”.