01 de julho 2017

De pai para filho: Mais afeto e proximidade

De pai para filho: Mais afeto e proximidade
01 julho 2017

De pai para filho: Mais afeto e proximidade

As novas possibilidades e dilemas dos pais no século 21
Texto por: Redação o Valor do Feminino

O modelo tradicional de família já vem mudando há muitos anos. Mulheres têm cada vez mais possibilidades no mercado de trabalho, o divórcio não é mais tabu e a chegada dos filhos não é mais um acontecimento inevitável - é uma escolha. O homem tem sido cobrado pelas mulheres por um envolvimento maior no dia a dia da casa e dos filhos. Aquela figura do pai provedor e autoritário já não é mais a regra tampouco uma opção bem vista. Mas, afinal, qual é o novo papel do pai em meio a tantas mudanças? E quais os conflitos que surgem nessas novas configurações familiares?

Questionamentos como esses geram mais perguntas do que respostas. Para a terapeuta familiar Sandra Fedullo Colombo, fundadora do Instituto Sistemas Humanos, que oferece cursos de formação de terapeutas, o aspecto mais interessante do século 21 é justamente a possibilidade de fazermos essas interrogações. “É não ter respostas definitivas. A ideia do absoluto não é nada contemporânea. Se pensarmos na sociedade que desejamos construir, temos que pensar em quais lugares os homens e mulheres, em sua parceria, podem ocupar nessa construção. Não há certo ou errado. E não gosto da ideia de falar do mundo do feminino sem conversar com o masculino”, diz.

O grande chacoalhão que levou a esse questionamento foram as transformações econômicas das últimas décadas. A mulher invadiu o mercado de trabalho e precisou delegar para o pai algumas funções, abrindo espaço para que ele fosse mais participativo. Ao mudar de lugar, elas exigem que eles também revejam seus lugares. Porém, não é segredo para ninguém que esse equilíbrio ainda está longe de ser alcançado. “Toda transformação social é muito lenta e ninguém é culpado por isso”, afirma Teresa Bonumá, terapeuta que trabalha há três décadas com famílias. “É uma minoria de casais que hoje divide igualmente as tarefas. Pela minha experiência, diria que um em cada dez casais consegue isso. Mas hoje já se vê um movimento de pais querendo participar mais”.. Segundo ela, não é apenas uma questão de vontades. A licença após o nascimento no Brasil, por exemplo, é de cinco dias par ao pai e de 120 para a mãe.

Por outro lado, já há sinais de adaptação, como banheiros para família em shoppings, que permitem a um pai, por exemplo, levar a filha pequena sem constrangimentos. Nas escolas, a diferença é sentida nas atividades cotidianas. Luciana Fevorini, psicóloga do Colégio Equipe, percebe mais pais indo às reuniões, buscando e levando os filhos e participando dos eventos. Ela também nota que o fato de hoje não existir um único modelo a se seguir gera mais dúvidas e angústias. “Muitas vezes, a escola é chamada pelos hoje para conversar sobre questões de educação que têm mais a ver com a relação familiar do que escolar. Acredito que isso tenha a ver com a tentativa de evitar a reprodução de um modelo, sem saber qual seguir.”

O modelo único, de fato, não existe mais. Há várias maneiras de organizar os papeis na família. “O que eu vejo hoje são vários modelos. Desde o pai pouco envolvido até o outro que se separa e quer seu direito de ficar com as crianças, por mais novas que elas sejam. São coisas novas. Eles estão tentando administrar a paternidade de outro jeito”, afirma Lucia Paiva, terapeuta familiar e membro do conselho da Associação Internacional Psicanalítica de Casal e Família (AIPCF).

Rodrigo Bueno é pai das gêmeas Margarida e Iolanda. Junto com o amigo, Victor Farat, lançou o livro Bebegrafia, com ilustrações sobre o primeiro ano das crianças. O trabalho foi ao mesmo tempo uma tentativa de registro e de válvula de escape de uma vida que virou de pernas para o ar com a chegada de dois bebês. As meninas têm hoje 4 anos, e ele é quem fica mais com elas durante a semana. Sua esposa tem um emprego fixo, enquanto sua rotina de cartunista é mais flexível. Ele confessa que quando pensa a respeito disso, sente-se um ET por experimentar um lugar que em geral é feminino. Em contrapartida, vê essa possibilidade como algo muito especial. “Acho que minha geração tem lidado com muitas mudanças, inversões de papeis. Precisamos trabalhar, estudar, crescer, criar alguém. Há uma necessidade de reinvenção constante porque a vida se tornou muito dinâmica por motivos econômicos e tecnológicos. Quem não se adapta, caso se apegue a modelos antigos, vai sofrer”, opina ele.

Se em termos de atitude a mudança segue um ritmo social e cultural que é demorado, em termos de sentimento, os pais já se transformaram bastante. Tornaram-se mais carinhoso, mais amigos e mais íntimos de seus filhos, segundo, Teresa, terapeuta de família. Em seu consultório, Sandra enxerga outra mudança interessante. Se antes eram as mulheres que ligavam procurando ajuda, hoje muitos homens entram em contato em busca de terapia familiar, querendo orientações sobre a criação dos filhos.

Roni Cabanas tem 53 anos e teve filhos em dois momentos diferentes de sua vida. As duas filhas do primeiro casamento hoje têm 27 e 30 anos. Os gêmeos ainda não completaram 2 anos. Ele considera que sua geração já pode ser mais carinhosa com os filhos. Afirma ainda não saber quais serão os desafios de criar os mais novos no mundo de hoje, mas em relação às mais velhas diz que sempre foi presente na rotina e estimulou a conversa. Após a separação, quando elas completaram 12 anos, optaram por morar na casa de Roni.

Deixa ele entrar
Temos uma herança cultural e social que demora para mudar. Mas isso é só do lado paterno? Os especialistas dizem que não. Segundo Lucia Paiva, é comum que as mulheres às vezes desqualifiquem a paternidade por ciúmes ou por controle. Quem nunca falou – ou ouviu alguém se queixando – que o marido não troca a fralda direito, não sabe dar banho nem esquentar a mamadeira? “Ele nem vai aprender, se ninguém deixar. A entrada do pai depende da mulher. Mas a mãe não pode esperar que ele aja da mesma forma que ela. Ele é outra pessoa, e tem outro jeito, não necessariamente errado”, diz Lucia. Teresa afirma que essa dificuldade tem a ver com um sentimento de perda, com a dificuldade de confiar e com o medo de a criança gostar mais de um do que de outro.

Em casos em que o pai quer a guarda compartilhada e faz questão de assumir responsabilidades, há mães que se colocam na defensiva. De acordo com Sandra, apesar de reclamarem que o homem está tranquilo e que agora eles têm tempo para namorar, as mulheres sentem seu lugar ameaçado quando há o desejo de dividir mais.

O compartilhamento tende a criar bons resultados. Segundo Teresa, quando uma criança nasce, seus dois grandes modelos de afeto são os pais. E isso vale também para os casais homossexuais. Duas pessoas, por mais que se gostem e convivam, terão personalidades e opiniões diferentes. A criança só tem a ganhar convivendo com essa variedade. Um é organizado, o outro bagunceiro. Um é mais bravo, o outro mais afetivo. Um é mais extrovertido, o outro mais introspectivo. E não há regras para quem deve ser o quê. Depende da personalidade de cada um. De qualquer maneira, a possibilidade de ter mais de uma referência é ótima – e quanto mais próximos os pais, mais essa referência está presente.

Sobre a autora:
Marcela Bourroul É jornalista formada pela USP. Trabalhou por três anos na revista Época NEGÓCIOS, da editora Globo, onde se dedicava à cobertura de economia, política e negócios. Também passou pelas redações de Crescer e Pequenas Empresas & Grandes Negócios, da mesma editora. Sua primeira experiência como jornalista foi no jornal O Estado de S. Paulo, onde ficou um ano.