05 de fevereiro 2018

Cresci como qualquer menino

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05 fevereiro 2018

Cresci como qualquer menino

Sobre o autor: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

Texto por: Ricardo Toscani

É pai da Alice, marido da Lúcia, filho da Roselene, irmão da Renara e da Renata. Foi cercado por essas mulheres incríveis que ele aprendeu que ser um homem feminino é muito bom. Nas horas não vagas, é fotógrafo, músico nas bandas Los Freelas de una Pauta, Schröder e Murilos são Polêmicos, além cozinheiro - dizem que faz a melhor galinhada do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul.

Cresci como qualquer menino. Tendo que provar que sou homem. Sendo um menino bastante sensível chorar na frente dos outros era errado, brincar com meninas também não era tão indicado, assistir novelas também levantavam suspeitas.

– O que ele vai ser quando crescer? Viado já é…

O melhor nesse caso sempre é assistir com o pai e jogar futebol com outros meninos. 
Sim, isso aproximou um pouco o filho sensível do pai.

Na adolescência rapidamente veio a cobrança. De primos e amigos de infância de minhas irmãs mais velhas.

– Aquela menina que ficar contigo.
– Legal, mas eu não quero ficar com ela.
– Tu não gosta de mulher?
– Não gosto dela. Tô afim de outra.
– Pega ela depois pega a outra. Hahahaha!

Essa ouvi quando tinha quatorze anos, uma cobrança desnecessária, mas claro mexeu com minha cabeça. Para ser homem, é preciso ser escroto, fazer extremo uso da bolsa escrotal que vem no pacote pênis. A velha história de que se eu ficar com duas meninas serei herói e não uma vagabunda.
Já com a cartilha decorada de como ser macho, coloquei em prática dentro de um ônibus em Porto Alegre, me encostei com meus dezesseis anos numa mulher que aparentava ser uns 10 anos mais velha que eu. 
 
– Que é isso? Tá te faltando espaço guri babaca? Vai crescer, vai virar homem.

Agradeço essa mulher que eu não sei o nome que no ano de 1995 me ensinou a ser um homem me enchendo de vergonha, uma vergonha que ocupava todo o espaço do ônibus, por sorte, estava há dois pontos do meu destino, por mais sorte ainda ela falou direto comigo, dentro dos meus olhos, em tom baixo e certeiro, não esqueço o olhar, não esqueço a verdade que enxerguei na hora.

Eu cresci ainda com gatilhos machistas prontos a disparar, desci do transporte público mudado, não completamente transformado, olhando para trás me sinto um escolhido, parece que alguém olhou por mim e disse. “Vou te dar a chance de melhorar e ser menos idiota.”.

Sigo caminhando em busca da melhora e aperfeiçoamento.

O tempo segue passando e o mundo segue dando voltas, mesmo assim tenho comportamentos machistas com minha filha que se disfarçam na criação, é difícil ser pai de menina. 
Num sábado qualquer soltei essa frase para ela.

– É difícil ser pai.

Ela entendeu “não é fácil ser seu pai”, ficou chateada, pude lhe explicar que o que eu disse, ou quis dizer:

“Não é fácil direcionar um caminho, julgar o certo do errado sem tirar liberdades, sem julgar com olhos mais antigos e que acreditamos estarmos corretos.
É difícil ser pai porque é difícil me colocar no lugar de meus pais, é difícil se colocar no lugar do outro.”.

A primavera feminina vem agora para fazer nós homens, sensíveis ou não nos colocarmos no lugar das outras.
Entender que a maioria do que nos foi passado por um avô, um pai, um tio, um amigo ou apenas alguém que tem um conselho na ponta da língua, está errado. Ganhamos a chance de pensar, repensar e mudarmos o mundo, acredito muito que o homem arruinou o planeta, e quando falo em homem nesse caso falo do gênero mesmo, não no sentido das aulas de história que desde o início me importunavam “A evolução do Homem” ou o “Homem na Pré-História.”. Sempre perguntava, agora a história se repete, minha filha questiona isso, por que se referem apenas ao homem quando se fala em sociedade?
Teremos uma resposta no futuro, sim, pois a mulher com sua revolução mudará e ditará novos conceitos. É a minha torcida.
Quando tive a chance de eleger uma primeira mulher para representar minha nação eu o fiz sem titubear. Acredito e cada dia estou mais convencido que o afastamento de uma presidente se deu muito mais pelo fato dela ser mulher do que por um mal governo. Isto até hoje não derrubou nenhum homem em nosso país que se diz sem preconceitos, tampouco machista. Acredito na figura feminina, tenho em minha vida mais mulheres me influenciando positivamente do que homens. Quando meu pai precisou ser mãe e entender o valor do seu eu feminino passamos a nos entender muito mais. Meu pai aprendeu a chorar, e mesmo com os sentimentos aflorados conseguir encontrar forças para criar dois adolescentes e redirecionar sua vida. Pelo pouco que conheço do sexo feminino, isso é ser mulher.
Esse ano tive a felicidade de receber o convite para escrever nesse site sobre o valor do feminino, o que foi muito orgulho para mim, para minha namorada foi um pouco espantoso.

– Porque chamam logo um “esquerdomacho” para falar sobre o valor do feminino?

Foi estranho ouvir isso, foi real, diferente, necessário. Fez eu me questionar.
Pensei o verdadeiro papel do homem no que vou chamar de Primavera Feminina ou Revolução Feminina, o nosso papel é ficar calado, ouvir com atenção e apoiar, nunca sem antes pensar bastante no assunto.

Desse jeito consegui escrever, cada dia é um desafio, me coloco no lugar da mulher, sei que não há como sentir e saber o que só o corpo da mulher sente e sabe desde que o homem decidiu as regras do jogo da vida, mas a revolução está começando e minha filha está crescendo nela, a mulher que amo está vivendo ela e eu aqui do lado, buscando evoluir e combater o machismo que ainda vive em mim, em menor escala, e no mundo, esse infelizmente em escala mundial. 
No ano de 2017 eu destaco a força da palavra feminismo, palavra que vem sendo dita faz muito tempo, mas homens só escutam o que querem, no entanto chegamos num período da história que precisamos ouvir o que não queremos e repetirmos essas frases diante do espelho.
Agradeço as mulheres de minha vida por me ensinarem. As que me acompanham, as que me acompanharam e aquela que me fez descer um homem um pouco melhor de um ônibus.