27 de dezembro 2017

Corpo

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27 dezembro 2017

Corpo

Entre símbolo sagrado de fertilidade e caminho do pecado para os homens, o corpo feminino atravessa a história perseguido pela dualidade moral imposta ao feminino: ou santa ou prostituta
Texto por: Redação o Valor do Feminino
*Conteúdo originalmente produzido pela Bravo

E Deus criou o corpo. Não importa se antes já existia o Verbo, se a luz já tivesse dissipado a escuridão, se as águas, as feras e as plantas já se espalhassem pela face da Terra. A medida de todas as coisas só veio no sétimo dia, quando o barro da terra e uma costela entraram na receita. Vale o mesmo se, no lugar de Deus, a evolução for o fio condutor da história. “Tudo começa com o corpo. Ele é mais do que o organismo que nos constitui, é a linguagem primária com a qual toda realidade se torna perceptível para nós”, diz Guto Pompéia, psicoterapeuta e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Ser político e social, o corpo foi se transformando de acordo com a época, o local e a cultura em que está inserido. Desde sempre, foi símbolo de poder: em sociedades primitivas, por exemplo, ficar desnudo servia de diferenciação hierárquica – pinturas, tatuagens e piercings mostram quem manda em quem e quem é o xamã.

Mas pode ser também instrumento de dominação, e foi por meio dele que começou a subjugação do feminino pelo masculino. Na Tailândia, ele é reconfigurado com pescoços artificialmente alongados por aros de metal desde a infância, enquanto na China – não faz muito tempo – era deformado por sapatos que deixavam os pés femininos menores. Nos países islâmicos fundamentalistas, a ordem é cobri-lo parcial ou inteiramente, a despeito de qualquer calor desértico.

Não é preciso ir muito longe, contudo, para identificar o caráter moral, sexista, do corpo. “Em sociedades machistas, como a brasileira, o corpo do homem é quase imaculado, motivo de orgulho. Quando nasce um bebê, os pais mostram e festejam o saco roxo. Já a ideia de vagina, a palavra apenas, ainda é uma coisa estranha para a maioria das mulheres”, afirma a antropóloga Valéria Brandini.

Valores que ecoam, de modos distintos, a herança civilizatória do mundo ocidental – para o bem ou para o mal. Pecado versus santidade, prazer versus punição, ideais embasadas no corpo como templo, como morada da alma imortal e, ao mesmo tempo, como obstáculo e empecilho. Nessa encruzilhada, o corpo da mulher sempre pagou um preço maior: santa ou puta, a síntese moral imposta ao feminino . “A mulher – e seu corpo – têm a tendência de serem vistos como santas ou prostitutas, como aquelas que são responsáveis pela procriação da espécie, mas também pelo pecado”, diz Denise Bernuzzi de Sant’Anna, professora de história da PUC São Paulo.

Morada de quê?

 

Originado na filosofia platônica, a ideia do corpo como um estorvo à pureza foi abraçada pelo cristianismo com entusiasmo. Nascido em 354, filho de pai pagão e mãe católica fervorosa, Santo Agostinho deu impulso à dualidade na civilização latina, reforçando o conceito platônico de que o corpo era algo menor frente à alma. “O deleite da minha carne, ao qual não se deve dar licença de enervar a alma, engana-me muitas vezes (...). Oxalá que tais atrativos não me acorrentassem a alma! Oxalá que ela só fosse possuída por aquele Deus que criou estas coisas tão belas! O meu bem é Ele, e não as criaturas que todos os dias me importunam acordado”, escreveu em Confissões.

Agostinho, um obcecado pelo “pecado original”, deu embasamento teórico à “nova visão” sobre o corpo feminino na Idade Média: caminho para o pecado, distração para as coisas puras, passaporte para o mal. Não é à toa que um dos maiores terrores do homem medieval era representado pela figura da bruxa, feminina; não à toa também o meio escolhido pela Inquisição para purificá-la era a destruição completa de seu corpo na fogueira.

Essa visão negativa se contrapunha às concepções pagãs que o cristianismo se empenhava em combater. O ciclo da natureza, sempre ligado à fertilidade do corpo feminino, era sagrado em sociedades agrícolas espalhadas pela Europa. Uma herança que vinha de tempos ainda mais antigos – como ilustra a escultura A Vênus de Willendorf, um símbolo de vida e reprodução datada do Paleolítico.

“Em algumas culturas específicas o homem é quem tinha um papel secundário”, diz Patrícia Helena Soares Fonseca, professora do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Ela ressalta, porém, que, em geral, o corpo feminino sempre foi visto como coadjuvante, servindo apenas para a procriação e sendo moldado por conta disso. “Da Grécia Antiga até o século 19, o ideal era ter quadris largos e uma barriguinha saliente, que demonstravam boas reprodutoras.”

Felizmente, o significado dele não é o mesmo em todas religiões e culturas. No candomblé e na umbanda, também mais ligados à natureza, ele deixa de ser o mal encarnado na Terra e alcança, na verdade, um lugar privilegiado. “Na cultura ocidental, o espírito dá a transcendência. Nas tribos e religiões afro-brasileiras, o corpo é a própria transcendência”, diz Valéria Brandini. “Você vê isso em coisas simples, como as comidas. O acarajé, o Ebó (oferenda aos orixás), a bebida do santo. Tudo está ligado à corporeidade.”

Psique e Identidade

Se o paradoxo corpo e alma está impregnado na história ocidental, é preciso dizer que ele não invalida visões alternativas na mesma cultura. A partir do Renascimento, com a ascensão do humanismo, o corpo humano ganha papel de destaque nas artes visuais – claro que com um uma demão moralista no caso feminino.

“Antes do século 15, algumas culturas nem tinham a palavra corpo no vocabulário. O fundamental era a alma. O corpo começa a ganhar relevância no Ocidente nessa época, reforçado pelas pinturas e estátuas”, afirma Denise Bernuzzi.

No século 19, outra grande inflexão. Nunca a existência da alma havia sido colocada tão em xeque quanto na teoria evolucionista do britânico Charles Darwin (1809-1882). Junto, aliás, com as ideias da criação do homem e do próprio Deus. “É como se eu tivesse confessado um assassinato”, escreveu Darwin ao botânico Joseph Dalton Hooker, um de seus principais confidentes.

A filosofia, então, também trilhava outros caminhos. O alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) não só decretou a morte de Deus, questionando a razão da fé, como inverteu a ordem de prioridades, colocado o corpo como protagonista da existência humana. Escreveu ele em Assim Falou Zaratustra: “Eu sou todo corpo e nada além disso; a alma é somente uma palavra para alguma coisa no corpo”.

A mudança é imensa na maneira com que o ser humano enxerga a si mesmo. “A construção da identidade passa pelo corpo”, diz Valéria Brandini. Exatamente por isso, ele também é um canal político e econômico. É, de um lado, o motor do capitalismo, que transforma o homem em máquina e, portanto, em capital; de outro, o instrumento de contestação dessa própria lógica e do sistema patriarcal. No movimento feminista, é crucial.

No Femen, que nasceu na Ucrânia e se espalhou pela Europa, as militantes usam a nudez como forma de protesto – our weapon are bare breasts, diz o slogan. No Brasil, em 2015, a chamada Primavera Feminina, deu origem a várias campanhas, entre elas meu corpo, minhas regras. Milhares de mulheres postaram fotos que insinuavam a nudez, para deixar claro que roupas curtas ou justas, ou mesmo o corpo desnudo, não são desculpas para estupro e violência sexual. Quem não acompanha o movimento todo são as redes sociais, que não dão trégua para as fotos de nus, mesmo as artísticas.

Como linguagem primária que é, o corpo ainda tem que se virar para seguir padrões impostos pela mídia e pela sociedade – mais uma vez, em especial, o feminino. Se tomarmos como parâmetro apenas o século 20, vamos ver que de década em década ele teve que ser remodelado, sendo que no curto período de dez anos, muitas vezes, foi obrigado a lidar com opostos impossíveis de alcançar .




“A partir do século 20, o corpo é tão exaltado quanto esquecido. Ele passa pelo imperativo da beleza e, quanto mais se fala sobre ele, mais moralismos invisíveis são criados e mais sofrido ele fica. Ele tem que ser jovem, saudável, atrativo e ter estilo, senão vira um nada”, destaca Cristiane Mesquita, psicoterapeuta e uma das organizadoras do livro Corpo, Moda e Ética.

Corpo é a casa que habitamos – e que escolhemos para viver. Plastificado, botocado, cortado, remodelado, escondido ou revelado. Diga-me como é seu corpo e eu te direi quem és. “As pessoas ostentam seus corpos com roupas e tatuagens para mostrarem quem são, o que pensam, o que sentem”, diz Denise Bernuzzi Sant’Anna. “O auge disso é o que estamos vivendo agora: o reinado das selfies.”