20 de novembro 2017

Coragem é ser vulnerável

coragem de ser vulneravel (1)
20 novembro 2017

Coragem é ser vulnerável

É precisa deixar joguinhos de lado e abrir os sentimentos para o outro, sem medo do que pode dar errado
Sobre o autor: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Texto por: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Não ligar no dia seguinte, não andar de mãos dadas, não dizer que ama primeiro, não dizer o quando se magoou. Utilizamos uma série de estratégias, algumas até prejudiciais a nós mesmos, para não demonstrar que somos seres humanos e sentimos. Fazemos isso com o único objetivo de proteção: não podemos parecer afobados ou correr o risco de passar a impressão de que estamos “nos importando demais”. Passar essa impressão significa estar à mercê da vontade do outro ou imediatamente perdê-lo. Sentimentos que deveriam ser apreciados são apagados, afastados e rejeitados. Sentimentos assustam.

Certa vez, um amigo decidiu se declarar para o cara com quem saía. Compartilhou comigo um e-mail longo que escreveu e, conforme lia, fiquei de olhos arregalados. Lá pelo terceiro parágrafo, ele narrava em detalhes todas aquelas pequenas coisas que gente apaixonada faz, como suspirar só de ver o nome da pessoa na notificação do WhatsApp. São reações que todo mundo tem, mas que fingimos ser coisa de menina de 13 anos. Não nos orgulhamos disso e não falamos isso para pessoa. Ele resolveu falar.

Espantada, perguntei retoricamente: “Precisamos mesmo de todos esses detalhes?” E ele perguntou se eu achava que ele estava entregando demais o ouro ao bandido. Jamais me esqueci do uso dessa expressão para se referir a essa situação. Quando estamos envolvidos afetivamente com alguém, expressar isso é entregar ouro ao bandido, isto é, agir contra si próprio?

Em teoria, todo mundo quer ser gostado, mas, na prática, diversos outros sentimentos confusos interferem. Somos socialmente estimulados a buscar novidade e adrenalina, tudo que se opõe à calmaria de uma relação estável. Logo, é comum fazer joguinhos quando começamos a sair com alguém. Poucas são as pessoas que, nesse contexto, agem honestamente consigo mesmas e com quem estão saindo. Toda a base da paquera como a conhecemos no senso comum é fingir. Ser direto não é considerado sexy e pode ser ressignificado como desespero ou simplesmente estranheza. Com base em um monte de premissas erradas é que costumam começar as relações.

Eu não quero me relacionar dessa forma. Não quero que tenhamos que fingir; quero que possamos ser o mais afetuoso possível sempre que tivermos vontade. Só podemos mudar isso começando a fazer diferente. Se tem vontade de falar, fale. Quer mandar mensagem, mande. Alguém que não consegue lidar com seus momentos de verdade também não conseguiria lidar depois com sentimentos que você escondeu só para conseguir permanecer com ela. Queremos mesmo construir relações assim, sem intimidade, com medo de sermos nós mesmos?

Se quer saber o fim da história, o rapaz não soube lidar com a paixão do meu amigo e a relação durou apenas mais dois meses. Considerando que o problema de esconder sentimentos não é individual, e sim social, é compreensível que as pessoas tenham dificuldade para lidar conosco quando decidimos romper com o jogo e agir de forma honesta. Mas não faz sentido que procuremos por pessoas que estejam a fim de romper com esse jogo também?

É tão distorcido viver em um mundo onde gostar assusta e acaba sendo algo que deveríamos esconder ou diminuir as proporções ao expressar. Isso porque a pessoa pode se sentir responsabilizada, ficar com medo de quebrar o outro, sentir-se segura demais e aproveitar-se da sua vulnerabilidade ou porque o medo da perda é o que mantém muitas relações de afeto e excluir esse medo pode resultar na perda de interesse.

Saber que somos amados deveria ser fonte de alegria. Meu amigo não deveria ter que se preocupar em assustar o rapaz simplesmente por dizer a ele que gostava mais e mais dele, de forma especial. Era o rapaz quem deveria sentir-se lisonjeado, feliz. Mas tiramos o foco do sentimento bonito que é se importar com alguém e o direcionamos para todas as consequências negativas possíveis.

A questão-chave aqui é: somos nós quem criamos essas consequências negativas. Sendo assim, podemos fazer diferente, de maneira que nos agrade mais e nos traga resultados mais positivos. Corajoso é ser vulnerável. É se abrir para o outro conforme sentimos vontade sem medo do que pode dar errado. É saber que, se der errado, está tudo bem e que, se queremos mesmo nos relacionar de forma significativa e nos conectar com alguém, vamos passar por alguns obstáculos e incompreensões até encontrarmos quem queira o mesmo e esteja preparado para lidar com isso. E, no processo, o que realmente compensa é estarmos em contato com o que sentimos e tratarmos a nós mesmos de forma honesta. Isso nos torna mais vulneráveis, mas nos torna também mais abertos para relações verdadeiras. São só essas que valem a pena.