25 de dezembro 2017

Coparentalidade: interesse no filho, não no parceiro

coparentalidade
25 dezembro 2017

Coparentalidade: interesse no filho, não no parceiro

Como exercer a paternidade e a maternidade sem vínculo amoroso com um parceiro
Texto por: Debora Stevaux

Já faz um bom tempo que encontrar o amor da vida para ser pai ou mãe dos filhos deixou de ser a única forma de constituição uma família. Em um primeiro momento, pode parecer estranho, mas a possibilidade de formar redes têm sido também responsável por reunir pessoas que buscam uma nova configuração familiar: é o co-parenting.

O termo, que em livre tradução para a língua portuguesa significa coparentalidade, foi objeto de estudo pela primeira vez no ano de 2000, em pesquisas norte-americanas. Nesse caso, a palavra faz menção à possibilidade de exercer a maternidade ou a paternidade sem, necessariamente, estar envolvido ou envolvida afetivamente com o parceiro.

Foi se planejando para ter um filho, mas não para ter um marido, que a jornalista Taline Schneider, 36, criou em 2014 uma página no Facebook para compartilhar e trocar figurinhas sobre o conceito de coparentalidade. Nesse mesmo ano, Taline percebeu que não estava sozinha e achou melhor criar um grupo para reunir aqueles que estavam interessados em colocar o plano em prática. Em três anos, o grupo somou cerca de 1.800 membros. Hoje, são mais de 6.000 usuários na lista de espera. Pela alta na procura, a jornalista idealizou um aplicativo, semelhante ao Tinder, para reunir casais de acordo com seus interesses.

A Pais Amigos tem hoje 600 brasileiros inscritos no cadastro minucioso que exige a transparência das intenções de cada um, bem como as possibilidades para gerar o filho, que podem incluir a relação sexual, a fertilização in vitro ou a inseminação caseira. E engana-se quem acredita que o público do aplicativo é formado, majoritariamente, por casais homoafetivos: 57% dos usuários são declaradamente heterossexuais. O site também conta com um sistema de segurança para evitar que pessoas procurem usá-lo para fazer barriga de aluguel, isto é, engravidar e gerar um filho mediante a um valor em dinheiro, o que é proibido em todo o território nacional.

Para a psicóloga e psicoterapeuta Fabiana de Laurentis Russo, a possibilidade de se dedicar à criação de um filho sem envolvimento amoroso reflete questões como a liberdade de escolha atrelada ao advento da internet. “Ela está aí e você precisa saber lidar com isso. A coparentalidade, especificamente, representa um movimento social, porque a sociedade sofre transformações, e consequentemente, os valores culturais e sociais também. Hoje, somos muito mais tolerantes do que décadas atrás. E tudo isso acontece por uma necessidade que é criada, é um caminho sem volta”, explica.

A especialista também aponta que as configurações de casais também têm mudado no Brasil, seja pela aprovação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2013, da realização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, seja pelo crescente número de pessoas que passam a morar junto, sem oficializar união. “Sempre que são introduzidos novos modelos, no começo é normal que a população se assuste, mas a tendência é que haja a flexibilização com o passar do tempo. Não é um bicho de sete cabeças. E é natural que assim como praticamente tudo na vida, tenha pontos positivos e negativos”, acrescenta.

Casamento e laços afetivos

Um dos pontos negativos da coparentalidade é a possível falta de referência dos filhos sobre relacionamentos. “Existem conflitos em todos os tipos de relação, porque são duas pessoas que vieram de famílias diferentes, têm hábitos diferentes e tentam construir algo juntos. Formar uma família é tão desafiador porque se trata dessa necessidade de se ajustar ao outro, de ceder quando preciso, por isso o diálogo é sempre a maior e a mais eficaz arma contra os conflitos. O casamento ou a união estável pode ser uma forma de ensinar para a criança que existem laços e de que forma os vínculos precisam ser cuidados e nutridos, pode significar uma segurança para os pequenos”, esclarece.

Na coparentalidade, independentemente do tipo de contrato feito pelos responsáveis pela criança, o diálogo deve ser mantido como prioridade na criação dos filhos. “Se a criação vai ser bem sucedida ou não vai depender de como os pais oferecerão afeto, qual será a capacidade de entrega deles, como será construída a relação dos filhos com os outros familiares etc”, pontua a psicóloga.

Questões como a presença ou não de religião e preceitos éticos devem ser discutidas antes de que seja tomada alguma decisão. Há também a possibilidade de a criança nascer sendo portadora de alguma necessidade especial e, portanto, de precisar de uma atenção redobrada e de cuidados mais intensivos. “Tudo que fizemos em contrato com uma pessoa, por mais que haja engajamento, terá que se adaptar a uma nova vida que está ali e talvez necessite de modificações, cuidados especiais. Precisamos entender também que, apesar do individualismo inerente em todas as nossas ações e escolhas, é um indivíduo que está se formando, com características, qualidades, necessidades e defeitos próprios. A flexibilidade das relações precisa ser colocada em prática a nosso favor, e não contra nós mesmos”, acrescenta Fabiana.